JAPÃO/COMUNIDADE BRASILEIRA: Artista organiza mostra sobre os sobreviventes do tsunami

“Sou um ser bem diver­sificado”, brinca Roberto Maxwell.

Aos 37 anos, este carioca radicado no Japão, é formado em geografia, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e cinema, pela Estácio de Sá, também na capital fluminense. Foi professor durante dez anos e, há 20, faz vídeos, filmes e fotografia.

Roberto Maxwell tem, por enquanto, duas exposições marcadas no Brasil (Foto: Meg Yamagute)

“Me considero um artista visual”, resume. Mas o trabalho dele não para por aí. Roberto também atua como repórter e redator, em mídias voltadas para o público brasileiro, e foi produtor dos correspondentes da Rede Globo e da Rede Record, em Tóquio. Ele ainda produziu diversos programas de TV sobre o Japão para o Brasil, e tem fôlego para integrar o time de apresentadores da Rádio Japão, da NHK, e trabalhar como tradutor.
Hoje, Roberto pensa em morar definitivamente no Japão, porém, antes de desembarcar no Aeroporto Internacional de Narita, em 2005, ele nem imaginava viver na terra do sol nascente. “Aqui (o Japão) é o meu lar. Sei que muitos japoneses e mesmo estrangeiros não entendem como um estrangeiro possa se sentir em casa em outro país. Mas, não me apega a ideia de que o fato de ter nascido no Brasil me faça adaptável somente ao Brasil”, diz sem titubear. Para Roberto, a sociedade japonesa tem problemas sim, como qualquer outra, porém, são problemas com os quais ele diz sofrer menos para lidar.
Daí, a vontade de fazer algo pelo país que o acolheu. “Eu me sinto na obrigação – positiva, claro – de contribuir para que a sociedade japonesa seja melhor no futuro”.
Cansado do Rio de Janeiro, o artista visual queria, a princípio, viver em outro país, não necessariamente, no lado oposto do planeta. A generosa bolsa do governo japonês e a cultura exótica pesaram na escolha que lhe fez tão bem.

“Consegui me adaptar muito bem ao Japão, de um modo até que eu posso dizer que não era adaptado ao Rio”

Com o programa de intercâmbio chamado Treinamento de Professores, Roberto teve a oportunidade de conhecer o sistema educacional nipônico e de se envolver com a comunidade brasileira na província de Shizuoka. “Fiz de tudo, dei aulas em escolas brasileiras, trabalho voluntário em escolas japonesas e eventos. Tudo para me aproximar dos japoneses, dos outros estrangeiros, compartilhar minha experiência brasileira e aprender sobre as experiências dos demais”, conta ele, que vive em Tóquio.
Depois de sete anos, Roberto fez o trajeto de volta, pela primeira vez. Desembarcou no Brasil, no finalzinho de junho, com muitos planos e pouco tempo. “Quero compartilhar esse material que eu produzi no Japão. Acho que os brasileiros gostam muito do Japão, mas não conhecem nem a ponta do iceberg”, afirma. Em São Paulo, ele fará uma exposição de vídeos e fotos da tragédia de 11 de março, na segunda quinzena de agosto (local e data ainda não foram confirmados). Outras duas mostras estão em negociação, uma no Recife (PE), e outra em Porto Alegre (RS). “E estou aguardando novos convites”, avisa, empolgado.
Por outro lado, também faz parte dos planos redescobrir o próprio país, visitar lugares por onde nunca esteve, e mostrar o resultado aos japoneses. “Quero que eles saibam que o Brasil é mais que samba, bunda, festa e alegria superficial.”

 

Obra que faz parte da mostra de fotografia (foto: Roberto Maxwell/Kome/Divulgação)

 

Outro olhar sobre a tragédia

“Kome” é uma das mostras de vídeos e fotos que Roberto Maxwell fará no Brasil. Depois de ficar quase um ano cobrindo assuntos relacionados à tragédia de 11 de março, o artista visual conta ter percebido que havia um ponto negligenciado pela mídia: a formação de novas comunidades. “As vítimas que sobreviveram passaram a viver em abrigos temporários e tiveram que reconstruir as relações entre si. Então, eu achei que tinha que falar disso porque, um ano depois, a imagem das pessoas estava parada na onda gigante”, explica.
Roberto não tem dúvida de que o terremoto seguido de tsunami, que devastou o litoral nordeste do Japão, é difícil de esquecer. Porém, para ele, é importante lembrar também que as vidas das pessoas seguiram em frente.

“Não tenho o objetivo de mostrar o quanto somos fortes e conseguimos vencer as dificuldades”. Foram escolhidas três histórias de pessoas que tiveram papéis distintos em torno da tragédia: um ex-pescador japonês que tem parentes no Brasil, um japonês que abriu a sua casa para receber os desabrigados, e um artista brasileiro que pintou algumas moradias provisórias para levar cor e alegria aos realojados. “Nos três casos, é gente maravilhosa, que se doou e continua se doando. Mas, é apenas um ponto-de-vista. Não tenho interesse em generalizações.”

 

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