JAPÃO/COMUNIDADE BRASILEIRA: Caminhoneira supera preconceito no Japão

Judithe Shibata pode ser considerada uma mulher de muita fibra, que não teme desafios, principalmente quando é para romper com preconceitos machistas. Vivendo na cidade de Toyota (Aichi), a brasileira tem um trabalho pouco comum às mulheres de qualquer parte do mundo. Judithe, aos 47 anos de idade, é motorista de caminhões e opera máquinas pesadas, como retroescavadeira.

 

A brasileira também opera máquinas, como retroescavadeiras (Foto: Daniel Gimenes/Divulgação)

 

A brasileira pode ser apontada como um símbolo da nova mulher, que mostra plenas condições de exercer qualquer função tipicamente masculina. Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e enxuto, Judithe encontrou uma posição do qual a remuneração é maior quando comparada aos demais postos ocupados pelas decasséguis. “Graças a Deus, trabalhar com caminhões e máquinas me rende um bom salário. Passei pelas crises recentes de forma mais tranquila”, revela a brasileira.

 
Judithe começou a trabalhar com caminhões e máquinas por acaso. O marido trabalhava para uma empresa de reciclagem de materiais de construção. A brasileira estava estressada do trabalho em fábrica e, como o marido recebia um bom salário, poderia deixar o trabalho e acompanhá-lo nas viagens que realizava com o caminhão. “No início eu apenas o acompanhava na boleia, mas o patrão dele ofereceu uma vaga também”, conta.

 
Judithe aceitou o convite e ganhou do patrão um pequeno caminhão, com capacidade para até duas toneladas de carga. “Comecei trabalhando como autônoma, prestando serviços. Mas o caminhão era muito velho, quebrava muito e nem ar-condicionado tinha”, revela a brasileira, que depois de alguns meses juntou dinheiro suficiente para comprar um caminhão melhor.

 

Há cerca de cinco anos a brasileira foi convidada a trabalhar com caminhões de grande porte, com capacidade para até dez toneladas de carga. Segundo Judithe, no início ela ficou receosa, pois até então tinha dirigido apenas caminhões de pequeno porte. Mas, apesar dos temores iniciais, ela não passou a treinar com um caminhão emprestado e passou com facilidade no exame de habilitação, específica para tal tipo de veículo.

 

Judithe dirige caminhões de grande porte e mostra a força da mulher brasileira no Japão (Fotos: Daniel Gimenes/Divulgação)

 

Dirigir os caminhões não é em regra a única atividade exercida pelos caminhoneiros do Japão. Algumas empresas exigem que também saibam operar máquinas. Hoje separada do marido, a brasileira revela que foi ele quem a ensinou a operar empilhadeira e escavadeira. Ter tal diferencial garante melhores oportunidades de emprego na terra do sol nascente. Isso a motivou a tirar carteira para operar máquinas pesadas, se firmando na profissão e se afirmando diante da competição masculina. Apesar de lembrar que no começo foi muito difícil, principalmente pela pressão que sofria. “Teve momentos que chorei muito, mas fui perseverante em minhas convicções e venci até aqui”, destaca Judithe.

 
A brasileira é a única mulher e estrangeira da empresa, que conta apenas com motoristas japoneses. O destaque e competência que demonstrou gerou certa insatisfação, despertando preconceito duplo (por ser mulher e brasileira) em alguns caminhoneiros. “Vez ou outra sempre vinha alguém com gracejos e ofensas, aí precisei me impor. Teve uma oportunidade em que o sujeito foi tão abusado que tive de literalmente partir para as vias de fato. Se eu não tivesse sido contida por um colega teria mostrado a ele outra área em que uma mulher poderia atuar tão bem quanto um homem”, conta Judithe, que assegura que depois deste fato as gracinhas praticamente acabaram. “São fatos isolados, dos quais eu passo por cima. No geral predomina o coleguismo”, resume.

 

O que também não falta na profissão são fatos corriqueiros e engraçados, como na vez em que a brasileira errou a obra da qual tinha que descarregar. “Fui entregar a carga em uma obra e logo que cheguei já foi me indicado para onde eu deveria levar o caminhão. Descarreguei, fui ao escritório, recolhi a nota, a assinatura do responsável e fui embora. No caminho de volta meu patrão ligou dizendo que a obra da qual eu tinha que descarregar ainda estava me aguardando. Tinha descarregado tudo na obra vizinha”, diverte-se a brasileira, que garantiu que nem ela, nem o representante da outra obra perceberam o equívoco.

 

A brasileira afirmou que mesmo em um ambiente poeirento e tipicamente masculino sobra espaço para a vaidade feminina. “Sempre carrego comigo meu batom e o estojo de maquiagem. Sempre que tenho um tempo livre dou uma retocada”, afirma.

 

 

 

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One Comment

  1. Sucesso,Judith no seu maravilhoso trabalho,pois trabalhei 3 anos rodando o japao.Aqui possuo a cnh D mas aqui o salario ta baixo e a falta de seguranca e enorme.Abracos e felidades mil.

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