JAPÃO/COMUNIDADE BRASILEIRA: Jovens brasileiros deixam topo do ranking de crimes no Japão após uma década de liderança

Um dos grandes problemas da comunidade brasileira no Japão no começo dos anos 2000 era o alto índice de criminalidade entre jovens.
Falta de perspectivas futuras, diferenças culturais, desconhecimento do idioma e dificuldades na adaptação ao sistema educacional japonês são alguns dos motivos que levaram centenas de jovens para o mundo do crime e das drogas.
No entanto, diversas ações ao longo dos últimos anos, organizadas pela própria comunidade, por autoridades e também por grupos de voluntários e organizações sem fins lucrativos, eclodiram no efeito mais esperado por todos: o fim de um reinado de dez anos de liderança nada gloriosa. Os jovens brasileiros dominaram por uma década o topo do ranking de crimes cometidos por estrangeiros no Japão.

Polícia da província de Aichi promove palestras, com tradução em português, sobre drogas e prevenção da criminalidade em escolas brasileiras (Foto: Daniel Gimenes/Arquivo Pessoal)

Segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Polícia do Japão, no primeiro semestre de 2011, um total de 54 jovens brasileiros entre 14 e 19 anos de idade foram julgados no país. Dentre os crimes, um foi considerado hediondo, 34 foram furtos e o restante foi classificado como envolvimento com drogas. No mesmo período foram registrados 360 casos envolvendo estrangeiros, entre mais de 90 mil menores detidos em todo o Japão.
É preciso ressaltar que quando comparado com os crimes cometidos por japoneses, o número de infratores estrangeiros é quase que insignificante. Mas no caso dos brasileiros, a estatística acaba sendo relevante por ser o menor índice nesta última década, período em que cometeram mais crimes que chineses e coreanos – segundo e terceiro lugar no ranking, respectivamente.

Ônibus equipado com mostruários de drogas e seus efeitos no corpo humano ajuda policiais nas campanhas de prevenção (Foto: Daniel Gimenes/Arquivo Pessoal)

Em 2002, ano que foi considerado o ápice da curva de criminalidade brasileira, 406 adolescentes brasileiros sofreram inquérito policial. Desde então, o número foi caindo ano a ano. No primeiro semestre de 2010, por exemplo, um total de 81 jovens brasileiros foi à julgamento.

Crise econômica – Jornais japoneses deram destaque para a queda geral no número de crimes cometidos por jovens no país. Ao retratarem a realidade dos estrangeiros que vivem no país, muitos se adiantaram em dizer que a crise econômica que abalou o Japão em 2008/2009 foi uma das maiores causas da diminuição, já que muitos voltaram para seus países de origem. Segundo dados do Ministério da Justiça, pouco mais de 100 mil brasileiros, por exemplo, voltaram para o Brasil.
Segundo dados oficiais, em 2007, o número de brasileiros residentes no Japão era de 316.967 pessoas. Em 2009, a população caiu para 297.456 e, segundo os últimos dados do governo, reduziu ainda mais em 2011, totalizando 215 mil brasileiros.
Porém, o jornalista e sociólogo Angelo Ishi, que também dá aulas na Universidade Musashi, diz que não se pode limitar a causa da queda no número de delitos cometidos por jovens brasileiros à redução populacional. “Um número maior de pais se conscientizou sobre a necessidade de se comunicar mais com os filhos, e também de monitorá-los”, diz o pesquisador.
“Outra explicação é de que os jovens perceberam que a polícia japonesa é extremamente eficiente para prender quem comete um crime e que embora um menor de idade não vá para o sistema penitenciário, o esquema do Shoonen-in (reformatório) é severo e implacável”, completa Ishi. “Acho que a consciência dos jovens sobre os riscos que eles correm ao escolher o caminho da delinquência aumentou.”
A comunidade brasileira, nesta última década, também se adaptou melhor aos costumes e cultura locais. Muitos cursos básicos de idioma foram criados e isso facilitou a comunicação entre brasileiros e japoneses. Outros fatores, como a implantação de programas de reinserção escolar do governo japonês, prevenção de crimes da polícia japonesa e de projetos de organizações sem fins lucrativos, também contribuíram para a queda. “Todos os projetos, tanto os de iniciativa pública como privada, contribuíram de alguma forma. Se não foram capazes de ajudar diretamente para a queda, no mínimo, serviram para prevenir um possível aumento na delinquência/criminalidade”, lembrou Ishi.

Culpa de todos – Uma das principais causas apontadas por especialistas para a escalada da criminalidade juvenil brasileira no Japão foi a desestruturação familiar. Muita gente foi ao Japão com o pensamento de ganhar o máximo de dinheiro em pouco tempo e depois voltar ao Brasil para abrir um negócio próprio. Deixaram a família em segundo plano.
“O problema que se agravou nos anos 2000, na verdade, já tinha começado nos anos 90. Todos têm a sua parcela de culpa neste cenário: o governo japonês não criou uma política migratória abrangente ao abrir as portas para os nikkeis em 1990, ou seja, fingiu não estar enxergando que os ‘dekasseguis’ tinham filhos e que estes precisavam de educação como qualquer outra criança. Muitos pais também taparam o sol com a peneira ao acreditar que o fato de deixarem as crianças sob os cuidados de terceiros, ou pior, longe do olhar de qualquer adulto, não traria consequências graves”, explica Ishi.
O sociólogo explica que existe uma expressão em japonês que se chama “kaguikko”, ou seja, crianças que ficam com a chave (“kagui”) de casa porque tomam conta da casa sozinhas enquanto os pais trabalham até tarde da noite. “Muitas crianças brasileiras foram crescendo na condição de ‘kaguikko’ e, em vez de ficar trancadas em casa, passaram a frequentar a rua”, conta.
Segundo Ishi, a sociedade japonesa funciona de um jeito que ou a criança encontra o seu espaço no ambiente escolar ou ela fica literalmente deslocada, marginalizada do sistema. Tudo acontece dentro da escola e gira em torno dela. “Não é como no Brasil, onde o garoto pode facilmente se enturmar (para o bem ou para o mal, claro) com os garotos da vizinhança e jogar futebol na rua em frente de casa”, diz o estudioso. “Em um conjunto habitacional na província de Aichi, fiquei chocado ao ver a placa ‘proibido jogar futebol’ em português. Era um recado para os brasileiros.”

 

Solução – Depois da recessão de 2008, muitos jovens voltaram para o Brasil. Alguns estão com dificuldades de readaptação ao país natal. Como então os governos do Brasil e do Japão poderiam lidar com esse tipo de problema tão comum nos tempos atuais, em que a mobilidade de pessoas é grande pelo mundo? Para Ishi, a receita é a mesma para ambos os países: escola pública gratuita bilíngue português-japonês.
“Se houvesse uma escola assim em cada província de grande concentração de brasileiros desde 1990, garanto que os números da delinquência/criminalidade juvenil seriam outros”, diz. Ele explica que a ideia não é criar uma escola étnica brasileira, mas ter dentro de uma mesma sala de aula, sentados lado a lado, crianças japonesas e brasileiras aprendendo as duas línguas e também a conviver multilíngue emulticulturalmente. “Isso garante não apenas a adaptação dos brasileiros à sociedade japonesa, mas os alunos japoneses também vão aprender o português e conhecer a cultura brasileira”, detalha.
No Brasil, para o professor, haveria a versão inversa do projeto. “Algumas escolas-piloto ofereceriam um ambiente no qual a criança retornada que só fala japonês iria gradualmente se familiarizando com o português, mas sem esquecer o japonês, tornando-se bilíngue na reta final.”

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