JORGE J. OKUBARO: Os primeiros 15 de muitos anos

Por Jorge J. Okubaro*

 

A avidez com que nossos pais se lançavam à leitura do jornal que acabara de ser entregue pelo distribuidor ou pelo carteiro nos fascinava. O que haveria de tão importante para ser lido?

Isso faz muito tempo. Tudo, ou quase tudo, mudou – as coisas, as comunicações, as pessoas, seus hábitos, o mundo.

Os que se interessam por informações densas, circunstanciadas e confiáveis e por opiniões que lhes abram a mente para os temas novos ou lhes tragam visões diferentes para os antigos, bem como os que procuram entender um pouco melhor seu tempo ainda leem jornais. Mas o avanço vertiginoso de outros meios de comunicações, que propiciou o acesso instantâneo e gratuito a uma imensidão e a uma diversidade há pouco inimagináveis de informações – uma parte crível, pois procedente de fontes conhecidas e respeitadas, outra nem tanto – e de opiniões, lançou desafios até agora não eficazmente enfrentados pelos jornais.

“O jornal impresso já morreu”, afirmam muitos do que se debruçam sobre esse fenômeno relativamente novo, mas inexorável. A recente venda do controle do jornal The Washington Post por um valor que pode ser considerado uma ninharia em se tratando de uma publicação que se tornou mundialmente respeitada pela denúncia do Caso Watergate (que nos anos 1970 levou à renúncia do então presidente americano Richard Nixon) parece dar razão a quem assim pensa.

Pode ser. Mesmo que a afirmação se prove correta, porém, talvez seja apenas uma questão de forma. A informação de qualidade, que venha apresentada de maneira organizada, continuará a ser buscada por pessoas interessadas em entender o mundo em que vivem, desfrutar de suas facilidades e, se imbuídas de alguma forma de espírito coletivo, ajudar a melhorá-lo. Só as publicações respeitadas oferecem isso – e continuarão a oferecer, por um meio não necessariamente igual ao atual.

A celebração dos 15 anos da fusão dos antigos Jornal Paulista e Diário Nippak, de que resultou o Nikkey Shimbun e o Jornal Nippak, ocorre no momento em que jornalistas, empresários, estudiosos da área de comunicação social e outros interessados se perguntam sobre o futuro dos jornais em geral. E a pergunta é ainda mais pertinente no caso dos jornais voltados para a comunidade nipo-brasileira.

Talvez uma reflexão sobre o passado nos ajude na busca de uma resposta. Criados logo depois da Segunda Guerra Mundial, os dois jornais que se fundiram há 15 anos – como outros da comunidade nipo-brasileira que os antecederam antes do início da conflagração mundial – tiveram papel decisivo na disseminação de informações de interesse geral dos imigrantes e seus descendentes, na preservação do uso do idioma japonês e dos valores trazidos pelos imigrantes e repassados para seus descendentes. Ajudaram a reaproximar os que haviam se separado no fim do conflito mundial.

Sabe-se que há cada vez menos pessoas fluentes em japonês. Quando mais passa o tempo, mais os jovens descendentes dos imigrantes parecem afastar-se de suas origens – e, consequentemente, das publicações voltadas para os nipo-brasileiros. À mudança mundial do padrão de disseminação de informações, soma-se a redução do público potencial, o que parece tornar ainda mais difícil a continuidade desses jornais.

Mas esses jornais têm futuro, desde que saibam captar os interesses de seu público potencial que não são adequadamente satisfeitos por outras publicações e por outros meios de comunicação. Souberam fazer isso no passado, terão de saber fazê-lo nas desafiadoras condições do presente.

A informação sobre as atividades comunitárias certamente faz parte dos temas que despertam o interesse do público, como despertaram no passado. Há de haver outros. A riqueza da cultura japonesa, a riqueza da cultura desenvolvida no Brasil pelos nikkeis, as formas de integração dos nikkeis à sociedade brasileira, seu papel no desenvolvimento de diferentes setores – da cultura à economia, passando por gastronomia, esportes, educação, saúde, entre muitos – são alguns deles. Imaginação, criatividade, capacidade de observação são essenciais para identificar os novos temas.

Apresentar bem e de forma organizada essas e outras informações, sem perder o foco na qualidade e na densidade do que se publica, pode ser o caminho para a longevidade dos jornais – e para eles continuarem sendo avidamente lidos.

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Jorge Okubaro, jornalista do Estado de Sao Paulo

Jorge J. Okubaro

Jornalista de O Estado de S. Paulo, é autor, entre outros, do livro O Súdito (Banzai, Massateru!) (Editora Terceiro Nome)

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One Comment

  1. Elza Yoshie Shigeno says:

    Boa Noite,
    Meu pai , Miyoshi Shigeno, faleceu em 2015 com 94 anos e deixou alguns livros antigos que trouxe do Japão ou importados da época de 1940 a 1950, que podem ser de interesse histórico, pois ele fez parte da história da imigração japonesa. Gostaria de doa-los.

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