JORGE NAGAO: 1982 e 2016

!cid_ii_iox1k3gg2_1550ca1128d4db2fNeste 2016, vivemos um retrocesso. A presidenta eleita com 54,5 milhões de votos foi injustamente afastada pelo Congresso que só tem gente fina: Cunha, Renan et caterva. O mundo não reconhece este “governo”.

Volto no tempo. A eleição direta para governador, em 1982, foi comemorada pois até então, o governa a dor era biônico, indicado pelos donos do poder. Faltava a Presidência da República mas era um avanço. Era o princípio do fim da abertura lenta, gradual e segura, proposta pelo presidente-general Geisel.

Tive o privilégio de escrever sobre este momento histórico, na página de humor da Folha de São Paulo. Resgatei o texto no acervo do jornal. Em 1982, na ditadura, apesar de tudo, havia esperança de conquistar a democracia.

Neste ano, sofremos um novo golpe e sabe-se lá o que vem por aí. 64 começou com promessas de eleições, aí vieram os AIs e ficamos 21 anos nas trevas. Afinal, golpista é Capes de tudo.

Que esse golperno seja breve. Volte, querida Democracia.

 

 

 

Dia de eleição (Folha, 14.11.82)

Nunca poderíamos imaginar que o desastre da Copa, fosse tão rapidamente esquecido. O país do futebol, num passe de mágica, converteu-se no país das eleições. A campanha eleitoral foi apagando da memória os gols de Paolo Rossi e o nome Falcão, de craque querido, passou a ser a odiada lei que silenciou a divulgação de ideias pela mídia eletrônica.

Os debates desencadearam um saudável processo de discussão política, permitindo que Rogê Ferreira fosse conhecido da noite para o dia. Lenta e gradualmente, todo mundo foi envolvido pelo vendaval democrático desta excitante campanha.

Os candidatos ao Governo do Estado (Franco Montoro, Reynaldo, Rogê, Jânio e Lula) foram os grandes astros desta campanha. Trocas de gentilezas não faltaram. O primeiro chamando o segundo de vovô de proveta e este acusando o primeiro de péssimo administrador, e assim por diante.

Nos lares, novela e futebol foram cedendo espaço para a política. A preferência partidária provocou alguns conflitos. Pais janistas versus filhos petistas, maridos peemedebistas discutindo com esposas pedetistas e irmãos pedessistas brigando entre si.

Mas nada como véspera de eleições. Mendigo é tratado de “Excelência”, o feijão baixa  o preço, inaugurações para o bem do povo finalmente aparecem. Por isso, os pobres não querem que cheguem as eleições. Depois do dia 15 já sabem: o preço do feijão dispara, os políticos some e adeus ilusões.

Todos os recursos foram utilizados para compensar os absurdos da Lei Falcão. Cartazes e “santinhos” foram motivos de euforia das gráficas e das indústrias de papel que nunca faturaram tanto.

Não satisfeitos com os panfletos, os candidatos partiram para as pichações. Muros e paredes foram violentamente disputados. Até que os pichadores se defrontaram com o Prof. Bardi, diretor do MASP, que não hesitou em escrever “merda” em cima das pichações. Um justo desabafo que o povo de Sampa aplaudiu. A ação dos pichadores é debalde quando a reação é de Bardi…

Indiferente a esse bombardeio propagandístico, seguia tranquilamente a figura do indeciso. Dizem até que, paradoxalmente, os indecisos, eles, vão decidir as eleições. Indecisos que evitam discussões com pessoas amigas ou simplesmente para garantir o emprego.

Por outro lado, os desempregados aproveitaram para ganhar algum trabalhando para os partidos, mesmo não sendo  de sua preferência. Foi estranho ver um sujeito com camiseta de um partido, boné de outro, distribuindo panfleto de um terceiro. Afinal, o desempregado tinha que tirar partido da situação.

Todavia, no meio da campanha tinha um Drummond. Só mesmo os oitenta anos do poeta-maior poderiam interromper momentaneamente esta maratona eleitoral.

E agora finalmente, vamos às urnas. Todos falaram o que tinham direito. Agora é a vez de ouvir a voz das urnas. Tremei candidatos e institutos de pesquisa. Chegou a hora do apuro da apuração.

E depois do dia 15? Que venha um Brasil novo, esperançoso e democrático. São os nossos votos.

 

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

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