JORGE NAGAO: Adoniran, o homem do trem das onze

 

Em qualquer roda de samba, pode demorar, mas  o conjunto acaba cantando o “Trem das Onze”.  Adoniran Barbosa, uma figura carismática e carimbada de São Paulo, inscreveu esse samba no Concurso de músicas de carnaval do Rio Quatrocentão, em 1964, e faturou o primeiro lugar. Imagina a dor de cotovelo do poetinha Vinicius de Moraes que dizia que São Paulo era o túmulo do samba. Gravado pelos Demônios da Garoa, o trem “decolou” e rendeu o suficiente para o autor construir a sua casa em Cidade Ademar, zona sul da capital.

Sétimo filho da família Rubinato, o oriundi Adoniran pisou nopalco da vida em 06 de agosto de 1910, com o nome de João. Estudou até o 3º.ano primário. Trabalhou desde criança como entregador de marmitas, varredor de uma fábrica de tecidos, ajudou o seu pai a carregar café para os vagões dos trens na famosa Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Aos 14 anos, a família mudou para Santo André. Exerceu diversas profissões como pintor, tecelão, encanador e até como garção na casa do então ministro da Guerra, Pandiá Calógeras. Em 1927, formou-se como metalúrgico-ajustador no Liceu de Artes e Ofícios, porém, pouco tempo depois, teve que abandonar o cargo devido a problemas no pulmão, conforme relata Valter Krausche em seu livro Adoniran. Virou comerciário, trabalhanado numa loja de ferragens, depois numa agência da Ford, entre outros empregos. Enquanto caminhava, Adoniran compunha os seus primeiros sambas. Por exemplo, Saudosa Maloca nasceu quando ele andava pelo Viaduto do Chá pensando no drama dos amigos Joca e Matogrosso cuja casa havia sido demolida na rua Aurora.

Em 1932, mudou-se para a Ladeira Porto Geral, no centro da cidade. Como as principais emissoras de rádio ficavam próximas dali, visitou-as mostrando músicas e textos, tornando-se radialista e compositor. Pegou o nome Adoniran de um amigo do Correio e juntou com o Barbosa, do compositor Orestes idem, e assim criou o nome que passaria a assinar os sambas cheios de graça e desgraça social. No rádio, seu personagem mais famoso foi o “Charutinho”, criado por Osvaldo Moles, que inventou expressões que resistem até hoje como: “morrer de rir”, “despois que nóis vai, despois que nóis vorta” e “Aqui, Gerarda!” Foi ator no filme “O Cangaceiro”, escrito e dirigido por Lima Barreto, premiado em Cannes.

Foi viver lá no céu, com a Iracema, em 1982, dez meses depois da partida de Elis Regina, como quem gravou “Tiro ao Álvaro”, uma jóia humorística da MPB.

Antônio Cândido, renomado escritor,  escreveu no segundo LP de AB: “ talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano da arte a permanência de sua cidade e depois fugir, com ele e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da Cantareira”

 

Jorge Nagao

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