JORGE NAGAO: Betinho e Maria Nakano

O documentário “Betinho, esperança equilibrista”, de Victor Lopes, lançado em outubro, é um filme emocionante. Conta a incrível vida de Herbert de Souza, o Betinho, um cabra marcado para morrer desde criança pois nasceu com hemofilia, mal que vitimava quase todos os portadores. Aos 15 anos, com tuberculose que era a aids/lepra da época. Descobriu que surgira um remédio, hidrazida, que poderia salvá-lo. Foi atrás e conseguiu o medicamento que o curou.

 

Betinho e Maria Nakano

Betinho e Maria Nakano

 

Em 1986, ele e seus irmãos Henfil e Chico Mário, descobriram que estavam com Aids porque o Hemocentro descobriu que todo o sangue estava contaminado. Os irmãos morreram em 1989 e ele, graças ao AZT prolongou a sua vida até 1997.

De família religiosa, teve grande influências dos padres dominicanos. Integrou a JEC, Juventude Estudantil Católica, a JUC, Juventude Universitária Católica, e fundou a Ação Popular em 1962, da qual foi coordenador até o golpe militar, em 1964. Casou-se com Irlei com quem teve o filho Daniel mas a clandestinidade o trouxe para Mauá, na região do ABC paulista, onde trabalhou em uma fábrica de porcelana com outros militantes. A polícia descobriu a fábrica e prendeu 60 pessoas. Betinho, sortudo mais uma vez, escapou.

“Marli”, uma integrante da Ação Popular entrou em contato com ele, “Wilson” e viveram juntos numa casa em São Paulo por dois anos. Muito perseguido, Betinho decidiu se exilar no Chile onde foi muito bem recebido e caiu nas graças do presidente Salvador Allende para quem escrevia os discursos.

Betinho era um sonhador mas era um homem de ação para viabilizar seus sonhos. Além da Ação Popular, a palavra ação estava em todas as suas iniciativas como a Ação contra a fome, Ação pela Ética na Política, Ação da Cidadania, Betinho foi fundamental no impeachment de Collor, por exemplo. Quando assumiu que tinha Aids lutou para a implementação do Banco de Sangue e cobrou do governo a distribuição do coquetel anti-aids que salvou e salva muitos portadores de HIV no Brasil e no mundo.

Do Chile, Betinho foi ao Panamá, após ficar na embaixada panamenha, lá os brasileiros conseguiram o salvo-conduto. E Betinho conseguiu com um encadernador as capinhas com o nome República do Panamá com letras douradas que viraram um passaporte-fajuta que levou muitos brasileiros, como Betinho e seus amigos, ao Canadá.

Aqui, no Brasil, o seu irmão Henfil, influente chargista do Pasquim e colunista da revista Istoé, comandada por Mino Carta,  iniciou uma campanha pela Anistia. A canção “O bêbado e a equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc, considerada o hino da anistia, contribuiu muito para o retorno de Betinho e de outros exilados ilustres.

De volta, Betinho e sua turma criaram o IBASE, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas que existe até hoje. De lá surgiram as grandes ideias que resolveram o problema da fome no país e outras ações que tornaram o Brasil um país moderno e exemplo para o mundo.

Foi homenageado, merecidamente,  em vida, no Sambódromo, pela escola de samba Império Serrano quando já estava muito frágil.

Valeu, Herbert de Souza!

Obrigado, Betinho!

 


 

 

Maria Nakano

 

A “Marli”, companheira de “Wilson”, era, na verdade, Maria Nakano, a nikkei que resistiu coo tantas outras ao regime militar e foi a companheira de Betinho no Brasil e depois no Chile, no Panamá, no Canadá, no México, na volta ao Brasil, enfim, por toda a vida. Decidida, ela resolveu ter um filho. “Se você não quiser ser o pai, pode não ser com você”, argumentou. Ele que tinha um filho com quem não tivera uma convivência normal devido às circunstâncias de clandestinidade e exílio, gostou da ideia e tiveram o filho Henrique Nakano que curtiu muito o pai pescando, indo ao Maracanã para torcer para o Flamengo.

O outro filho, Daniel de Souza, se reaproximou do pai quando a imprensa divulgou que ele e seus irmãos estavam com Aids. Ficou orgulhoso por saber que o pai Betinho foi um dos maiores brasileiros da nossa história.

No fim do filme, Maria Nakano revela:

– Betinho fez a parte dele, agora sobrou pra nós.

Então, na falta do grande Betinho, vamos fazer a nossa parte como o bem-te-vi fez na luta contra o incêndio, que ele contou no início do filme.

Pra começar, que tal #foracunha?

 


 

OUROBOROS (jn) – ilustra de Romulo Garcias

 

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Bebo o meu primeiro trago

Trago a lembrança muda

Muda minha vida amarga

Amargo outro revés e mudo

Mudo tudo até a mente

 

Mente não quem diz que sonho

o sonho impede o meu choro

choro mas disfarço de leve

leve em conta que também rio

rio de lágrimas inunda a face

 

Face a essa realidade me calo

calo doi e paz que é bom nada

nada como um peixe verde

ver de perto tanta coisa dura

dura o tempo do último trago.

 

 

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

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