JORGE NAGAO: Bossa Nova lá e cá

 

“Era é carioca/ Era é carioca/ Basta o jeitinho dera andar/
Nem ninguém tem carinho assim para dar…

 

(Ela é carioca, de Tom Jobim e Vinicius de Morais)

 

 

 

 

 

 

Bossa Nova com sotaque japonês, assim começa o documentário Bossa Nova Sol Nascente, de Alê Braga e Paulo Caldas, lançado no centenário da imigração. Michinari Usuda, o cantor, diz que a Bossa Nova é como remédio pra ele: de manhã, tome Bossa Nova; depois do almoço, mais Bossa Nova;  e, antes de dormir, tome mais Bossa Nova. Ela combina com o nosso verão e, no inverno, traz um ar caloroso que aquece o coração japonês, justifica ele.

Tom Jobim dizia que a Bossa Nova é delicada e linda como o Japão, conta a cantora Joyce, isso talvez explique o amor do japonês por ela que tem a delicadeza e a sutileza da ikebana, do haicai ou da cerimônia do chá. Sadao Watanabe, músico mundialmente famoso, quando conheceu a Bossa Nova ficou fã e amigo de Tom Jobim e até gravou um disco com Elis Regina.

A Bossa Nova louva o mar e o barquinho, por isso o japonês, um povo que vive num arquipélago,  se identifica com ela. No filme, Itoh Ryosuke canta  Kobune, a versão que fez para “O barquinho”, e Fernanda Takai encerra:  “Kobune wa iku hi wa kureru, Kobune wa iku hi wa kureru, o barquinho vai, a tardinha cai “. Sensacional!  Para esta nikkei, o japonês   que tem um senso estético apurado percebeu toda a riqueza melódica e harmônica da BN.

A era de ouro da bossa nova foi de 1959 a 1963. Depois ela foi viajar para os EUA, Europa e Japão. Em 1985, artistas como Nara Leão, Joyce e Roberto Menescal participam do Festival Yamaha em Tóquio e fazem muito sucesso. Nara Leão, especialmente, tornou-se tão popular que fez até comerciais para a TV japonesa. Pena que Nara, em 1989, nos disse sayonara para sempre para desolação de Fernando Pardini e milhares de fãs de lá e de cá. Já Menescal é uma presença obrigatória na trupe brasileira, há quase trinta anos vai ao Japão para encantar os  seus fãs.

Leila Pinheiro quando foi pela primeira vez a Tóquio recebeu um conselho de Menescal:

– Cante suave, bem suave, muito, muito suave mesmo, que você vai agradar.

E agradou mesmo. Quando conheceu aquela  trepidante metrópole entendeu porque o japonês precisa de uma música suave para desestressar.

Mas foi em 2003, quando João Gilberto estreou no Japão que a Bossa Nova se popularizou de vez. Os essenciais songbooks de Almir Chediak – Bossa Nova/Tom Jobim/ Vinicius e Carlos Lyra- também foram fundamentais para propagar por lá a Bossa Nova. Muitos bossanovistas foram gravar no Japão porque por aqui não havia mercado. Discos de Chico Feitosa e Tamba Trio, por exemplo, só têm no Japão.

A Bossa Nova despertou o interesse por outros gêneros musicais como o samba e o chorinho. Choro Club é um trio de chorões que rivalizam com os bambas cariocas. A flautista Naomi Kumamoto, depois de ouvir um disco de Altamiro Carrilho, mudou para o Rio de Janeiro pois foi avassaladora a sua paixão pelo choro. Em Tóquio, há bares como Saci Pererê e Praça Onze com MPB ao vivo, toda noite. É comum também ouvir bossa nova nas lojas e nos restaurantes. Jin Nakahara produz um programa na J-Wave Radio que toca apenas MPB.

Quem, hoje,  melhor interpreta a Bossa Nova? É uma nikkei, pergunta e responde a cantora Joyce. Ela é Lisa Ono. E os perfeccionistas músicos japoneses já estão nos superando- constata Menescal – e acrescenta- isso é um perigo, daqui a pouco esquecem  da gente.

O baterista Kenji Yoshida, depois de gravar com Menescal, construiu a conexão Rio-Tóquio e costuma acompanhar, com a sua banda, sambistas como Alcione e Leci Brandão. Menescal, de tanto ir pro Japão, já virou japonês, brinca sua parceira, a cantora Wanda Sá. Por outro lado, o Michinari Usuda toca e canta tão a bossa nova que os ouvintes perguntam se ele não é um brasileiro.

A Bossa Nova consegue unir povos tão distintos  como o japonês e o brasileiro. Ela é tão mágica que faz brasileiro parecer japonês e japonês parecer brasileiro. Banzai, “Bosa Noba”!

 

 

 

 

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Jorge Nagao

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