JORGE NAGAO: Compadre Paulo

 

Inadmissível esse interminááável silêncio nosso, depois da partida da comadre Roseli, e você, Paulo, tem razão pensando assim. Parece estranho mas, em casa, temos dois departamentos: o do humor, da gaitice, fica comigo; e o da seriedade, do pé no chão, quem cuida é a comadre, ou cumadi, como escrevia a Rô. Tem funcionado assim há décadas. O Nando puxou mais pra mãe, ainda bem. Não sei lidar com esse imenso desconforto diante de uma perda monumental como essa. Por mais que fosse esperado e por mais espiritualizada que seja a sua família, compadre, imaginamos o grande vazio em que vocês mergulharam.

Ficamos devastados depois que abri o email, no final de janeiro, e li a trágica notícia com o título “Só mudei de ares”. Sabíamos que a saúde dela era frágil.  A última vez que a vimos foi num leito de hospital, aqui em São Paulo, há dois anos.

Nossos contatos eram virtuais, trocávamos mensagens de tempos em tempos. Ela me enviava piadas, matérias sobre

saúde, terceira idade, essas coisas pré-Facebook que veio para praticamente extinguir com o e-mail. Eu retribuía com textos próprios ou algo que talvez lhe fizesse bem. Apesar de tudo, ela não perdia o bom humor. Lembro que comentávamos sobre um show de Paul McCartney, em que ela que não fora, e ela se consolou assim: – Não fui mas logo me encontrarei com  o John e George.

Mesmo morando longe, nos anos 80 e 90, nos víamos com certa frequência. Especialmente na fase paulista em que vocês moravam em Campinas e São Francisco Xavier. Lembro de uma brincadeira de mímica para adivinhar o nome de um filme, em que paguei um mico inesquecível. Depois vocês mudaram para Niterói e finamente se instalaram em Cabo Frio.  Os 582 km que nos separam, mais a perda de pique com o DNA, data de nascimento antiga, nos distanciaram ainda mais. Ainda bem que temos fotos e filmagens devidamente dvdeadas para lembrarmos dos bons tempos.

Davar- um caminho de almas, seu livro, não sei quando você começou a escrever mas foi importantíssimo para o crepúsculo da vida da querida comadre que se sentiu orgulhosa e homenageada com a sua belíssima obra. Pesquisei no Google e vi que Davar pode ser encontrado nos principais sites como Americanas, Submarino, Buscapé e até nas casasbahia! Roseli me enviou um vídeo que explicava que “Davar são as novas mulheres presentes na Terra, construtoras de seres permanentes, eternos. Elas estão certas do caminho que nos leva ao retorno do homem e a mulher celestial, de mãos dadas”. Bonito isso. Li, gostei muito, e recomendo, especialmente para quem valoriza a espiritualidade.

Falando em escrever, lembrei-me que você me convidou para escrever no seu jornal, nos anos 80. E eu fiquei devendo. Naquele tempo, eu era especialista em frases. Como “Aquela morena detestava cabo frio, preferia um soldado quente”. Texto mais longo, como este, eu não me atrevia a escrever. Que pena, deveria ao menos ter tentado, porém eu queria ser cartunista, corri o risco e acabei desistindo dos traços e voltando às mal traçadas linhas.

Quando soubemos do derradeiro suspiro da Rô, pensamos em ligar naquela semana. Apenas pensamos, deixamos pra outra, e depois pra outra, e assim se passaram três meses. No aniversário da afilhada, sem alternativa, ligamos para “Paulabenizá-la”, porém, foi inevitável, comentamos sobre a mãe ausente. Sua comadre Claudia não resistiu e chorou. A aniversariante, coitada, ficou constrangida e nem falamos com você, como havíamos planejado. Só agora, lendo a orelha do seu livro escrita pela Roseli, fiquei sabendo que, dois dias depois, você também aniversariava.  Adiamos a nossa conversa, não ligamos de maio a julho, de agosto a novembro, nada. O silêncio ficou gritando esse tempo todo.

Confesso que, agora, a gente já não sabe o que fazer. Quando ligarmos provavelmente ouviremos uma reprimenda, merecida,  por não ter ligado antes. Se não ligarmos pairará a dúvida sobre o grande afeto que tanto nos liga.

Numa madrugada dessas, insone, meditava eu sobre essa culpa de não ligar para você.  Até que, finalmente, adormeci. No sonho, coincidência ou artimanhas da mente ou coração, me reencontrei com você, compadre, em seu escritório. Sem dizer nada, nos abraçamos demoradamente. Tomamos café e conversamos animadamente como antes. Abracei também a querida Paulinha. Não sei o que combinamos, apenas lembro que deixei o escritório e caminhei pela praça.  Despertei. E sorri. Fui perdoado por você, cumpadi , pelo menos no sonho. Agora, terei coragem de te ligar nesta semana. Ou ficará pra próxima. Ou no Natal. Ano Novo?

Não importa, você é um homem educado e saberá perdoar este compadre que tem mais coragem para pedir perdão publicamente e tem dificuldade em dar um alô!  Paz profunda, frater e compadre, beijos em todos aí, até breve.

 

 

Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

 

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