JORGE NAGAO: Culto aos antepassados

 

Há mais de 80 anos, minha família materna saiu do país do sol nascente para uma aventura com poucas venturas e muitas desventuras rumo ao “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, como cantou o xará Benjor. Sábado, 9 de agosto, os descendentes da famílias Tsuji, Kiy, Okajima, Shimamoto e Nagao  se reuniram para lembrar da querida matriarca Kunie, a remanescente daquela histórica viagem, que partiu há exatamente um ano.

 

- Família Tsuji, a bordo do B.A. Maru, ansiosa para chegar ao Brasil. (Arquivo pessoal)

– Família Tsuji, a bordo do B.A. Maru, ansiosa para chegar ao Brasil. (Arquivo pessoal)

 

O monge budista discorreu sobre o esquecimento dos nikkeis em cultuar os nossos antepassados, responsáveis por nossa boa vida, agora, nesta pátria amada, Brasil. Alguns chegam aos templos apenas para se livrar do oratório dos avós, um objeto obsoleto para eles, um estorvo, concluiu contundente.

O culto aos antepassados é muito importante. Segundo o Budismo, quando oramos por eles melhoramos nosso carma –  força moral misteriosa que sobrevive  à morte e que decidirá nossos destinos em nossas vidas futuras. Assim como herdamos hábitos, costumes e feições de nossos antepassados, herdamos também suas boas e más ações. Em vez de devolver o altar, segundo o monge, o descendente deveria recitar cem sutras durante cem dias. No fim do ciclo,  ele sentiria uma alegria interna inexplicável e, consequentemente, alcançaria resultados surpreendentes em todos os campos da vida. A mera recitação do mantra “nam myohô rengue kyo” nos ajuda a entender os motivos e a real intenção de orarmos para os nossos antepassados. Seu significado: “a entrega espiritual ao sutra maravilhoso ensinamento”.

Contudo, as novas gerações, especialmente,  vão se distanciando do Budismo. São os novos templos, digo, tempos.  Neste novo milênio, tem  nikkei cristão, evangélico, espírita, mórmon,  umbandista, e até ateu graças a Deus. E, claro, não podemos condenar ninguém por isso. São muitos os caminhos na busca da espiritualidade tão necessária para se equilibrar nesta vida tão atribulada.

Após a cerimônia, foi servido chá e refrigerantes e  uma farta comida japonesa e brasileira, comandada pela infatigável Tereza. Conversando com os primos, passou um filme sobre os bons  tempos do sítio em Marília: festa junina, o café esparramado no quintal, as laranjas no pomar, o futebol com os primos,  belas e inesquecíveis lembranças.

Constatei  também que os primos que mais curtem e cultivam a cultura japonesa, são conhecidos por nomes brasileiros: Eduardo, Carlos, Geraldo, Nelson, Roberto, Ricardo, Edson e Júlio, entre outros, e Helena, Dirce, Ana, Júlia, Cecília, Edenir e Lucia que estava com a tia Angelina, que eu, abusado, chamava de Tiangerina. Yoshio, Toshio, Takeshi , Minoru e Akira são os poucos os conhecidos pelo nome japonês, assim como eu, um dos mais “brasileiros” da família, sou chamado Shigeru. Vai entender rs rs

Como alguns primos e o Joaquim me chamam de poeta,  segue um poema inédito.

 

 

 

OHAYOU

 

Toda manhã, quando saio

Ainda com sono,

Uma obaasan, de quimono,

(ela é idosa à beça!)

Com seu sorriso oriental

Me desorienta,

Embora me envaideça,

Quando me cumprimenta

Balançando a cabeça.

 

Se um dia ela me parar

Para conversar

Quem sabe sobre  a nossa raça,

Nosso elo,

Dirá algo em nihongo, com ternura,

E eu responderei à altura:

Com um belo sorriso amarelo…

 

 

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Jorge Nagao

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2 Comments

  1. Amigo, eu sempre achei que você fosse avesso às tradições japonesas, portanto foi uma bela surpresa este seu texto e seu poema! Domo arigatou!

  2. Helena, de fato, eu era refratário à cultura japonesa. Mudei quando passei a escrever neste espaço. Estudei nihongo por um ano. Arigathanks pelo comentário generoso. Abraço.

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