JORGE NAGAO: E Eu Aqui (Inveja)

 

Final de verão, Fernanda trabalha duro, morrendo de inveja de quem está curtindo as férias.

“Milhares de pessoas, entre elas a Teresa, estão agora na praia, andando, nadando, comendo casquinha de siri, e eu aqui, presa, na empresa. Enquanto eles mergulham nas ondas, eu me orgulho de mergulhar no trabalho, afinal alguém tem que trabalhar enquanto os boa-vidas se divertem.

Milhares de pessoas estão nas praias deste ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’, e eu aqui na empresa, indefesa, presa fácil do patrão.

No sorteio, entrou areia e minhas férias ficaram pro meio do ano. Paciência. Tim Maia já cantava: a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri.

‘Um dia a areia branca seus pés irão tocar e vai molhar seus cabelos a água azul do mar’

Tá legal, Roberto Carlos, um dia…quem sabe?

Milhares de pessoas estão se esbaldando, agora, em Floripa, Guarujá,  Recife ou Maragogi, e eu aqui, branca e triste como um papel sulfite.

Ah, eu também sou filha de Deus. Como queria estar à toa, sem chefe, sem horário, à beira-mar, sem metas a cumprir, mas a Fernandinha está aqui, presa como o Fernandinho Beira-Mar.

Meu Deus, nem precisava ser em em Pipa, Piatã, Noronha, Suarão ou Guarapari, me contento com o Piscinão de Ramos. Qualquer lugar longe desta mesa, desta empresa, desta tristeza!

Milhares de pessoas estão agora em Sahy, Jeri, Juquehy, Peruí, e eu aqui, seca como um kiwi, cheio de abacaxis e sem tempo até pra fazer xixi.

Ah, como eu queria estar no meio desses vagabundos de tanga, sunga, canga em Maresias, Ubachuva, Cabo Frio, Porto Seguro, seguros como eles, felizes, ‘caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos’.

O sol nasceu pra todos, pra toldos, menos pra mim. Ó céus, ó vida, ó azar o meu! Mas como tudo muda o tempo todo no mundo, no ano que vem, nesta época, estarei en la playa. Enfrentarei horas de engarrafamentos,  falta de água na cidade, água-viva, virose, bicho geográfico, beliche, ressaca, vento, chuva, arrastão, bola perdida, preços salgados, mas eu vou.

Milhares de pessoas, em 2014, estarão na praia, entre elas eu, andando, nadando, comendo casquinha de siri, Bora Bora pro Tahiti, no Hawaii, em Ishiki ou Normandy, que beleza! Então, vou me lembrar de você, Teresa, presa nesta empresa, com uma tristeza… Ah, dias melhores: verão. Quem viver, verão!”

 

 

*Jorge Nagao,  além do Nippak e www.portalnikkei.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

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One Comment

  1. Estava com saudades de ler seus textos. (Sempre os lia no site do Primeiro Programa.) Como sempre, adorei esse.O jogo de palavras que você sempre usa,faz com que o riso esteja sempre presente na hora da leitura e isso é bom demais. Bjs.

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