JORGE NAGAO: Gaijins Distintos

 

Em “Distintos Nikkeis”, meu texto mais conhecido, escrevi sobre os dois tipos de nikkeis: o tradicional que fala o nihongo e prestigia os eventos da comunidade, e o desnaturado, aquele que não está nem aí pro idioma e não se interessa pela cultura nipônica.

Cursando tardiamente o Nihongo, descobri o distinto gaijin aquele que curte tanto a língua quanto a cultura do Japão.O termo gaijin, aliás, é um erro histórico. Se gaijin é estrangeiro, então, no caso, foi o nihonjin que aqui desembarcou. Já os nisseis em diante, apesar da aparência, são burajirujin/brasileiros enquanto o brasileiro daqui não é gaijin nem aqui nem na China. Ôps, na China, sim.

Sábado, nos 460 anos de Sampa, fui à Fundação Japão prestigiar o relato do intercâmbio cultural da Fundação Japão. Alessandra Misura, a Ale-san, foi a escolhida para representar o Brasil num curso com mais 25 alunos do mundo inteiro. Se você pensou, como eu, que Misura é um sobrenome japonês, se enganou: é russo! Ale-san matriculou-se no curso Marugoto da FJSP, este é o site, para se aprimorar na língua pela qual se encantou assistindo aos animês. Em menos de um ano, a arguta e alegre Chisato sensei percebeu o potencial da brilhante aluna e a premiou, com a viagem ao país dos samurais, por ser a melhor aluna de 2013 do Marugoto. Quem será o melhor aluno de 2014?

Ela/Ale, de uma forma tranquila e bem humorada discorreu sobre a viagem dos seus sonhos ao Nihon. Nas duas semanas, cursou de seGetsuyoobi à sábaDoyoobi, das 9 às 15h. O restante do dia era livre mas ela tinha que passar algum tempo com a família que a adotara e chegar, impreterivelmente, até às 24 horas no hotel onde se hospedavam os alunos do intercâmbio cultural. Pontualidade no Japão e na Fundação Japão, lá e cá, é coisa séria. Cheguei às 15:03h e lá estava a Ale-san dando o seu depoimento marcado para às 15h, diante de uma plateia silenciosa e atenta.

 

Ale san está lá atrás, no alto

 

Além dos tópicos específicos, Alessandra Misura, cheia de mesuras, contou que teve aulas de Ikebana, Kimono e Shodo com os especialistas nestas artes. Depois de conhecer Osaka, Kioto e Tokyo, achei que a Ale-san voltou com os olhos mais amendoados. O jovem Bruno Henrique, depois da exposição, queria saber mais detalhes da viagem da Ale-san no país das cerejeiras. Entusiasta do nihongo, torço para que ele realize o sonho de conhecer o Nihon.

Na minha sala, na Aliança, os melhores alunos são os “gaijins”. Vergonha? Não, admiração, sim. Esses “gaijins”, fãs de animês/games/karaokê são muito mais “japoneses” do que muitos nikkeis desnaturados.

A animada e competente Eriko sensei ressalta que, no Japão, quem tem traços nipônicos tem obrigação de falar nihongo. Estou fazendo shukudai/lição de casa para quando visitar o país do meu pais, ser um turista Kanjidato a decifrar o Hiragana/Katakana e até alguns kanjis naqueles neons de Tokyo city.

Repetindo o cantor Gilberto Gil que nos anos 70 cantava “Se oriente, rapaz”, sugiro, como bom nikkei, que você dekassegui ou não, não renegue as coisas do Japão. Estudando nihongo na Aliança ou na Fundação Japão, garanto que, apesar da seriedade do curso, as aulas são agradáveis e divertidas. As dedicadas e pacientes senseis respeitam o perfil do aluno e você só tem a ganhar. Dominando outro idioma, você se tornará um profissional melhor. Seja um distinto nikkei ou um “gaijin” distinto, e as portas se abrirão pra você, aqui ou no Nihon, não minto.

 

 

 

Jorge Nagao

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3 Comments

  1. Demais, Nagao-san! ^_^

    As suas referências e adjetivos são divertidas e agradam muito o texto.

  2. Nossa, seu texto foi muito bom para mim! Estarei me dedicando mais e mais no Nihongo, mesmo não sendo nikkey o/

    Ganbarimasu!

  3. Caro Jorge, li sua matéria. Respeito sua opinião, mas não concordo quando vc diz sobre aquele que não se interessa é desnaturado. Dá a impressão que vc esta generalizando e julgando. Um descendente que não se interessa pela cultura pode ter “n” fatores que o levaram a não se interessar e não podemos julgar pelo simples fato de não conhecermos as decisões das pessoas. Um descendente não tem obrigação nenhuma de gostar ou seguir algo da cultura, mesmo pq estamos no Brasil e temos a liberdade de queremos buscar a cultura que nos identificamos. Eu posso ser descendente de Chineses e gostar da cultura africana. Que mal há nisso? Não vejo problema algum! Portanto respeito, mas não concordo contigo, acho um pensamento arcaico, nacionalista e superficial.

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