JORGE NAGAO: Germano Mathias Continua por Cima

 

A final feminina do vôlei bombava no Ibope mas resolvi zapear e parei na TV Cultura onde estava rolando um papo engraçadíssimo entre o cantor Germano Mathias e o Rolando Boldrin. Esqueci as meninas do vôlei. Vôlei contar sobre aquele programa e o que sei sobre o “catedrático do samba”, o glorioso Germano Mathias, porque você, claro, ficou curtindo as belas do vôlei.

Germano lançou em novembro o cd “Raiz e Tradição”, elogiado pelo expert Assis Ângelo que diz que o sambista, que fará 79 anos em 2 de junho, insiste em não perder a voz nem envelhecer. A renda do disco será destinado ao sambista pobre e desesperado, que por acaso é ele mesmo, morador de uma CDHU na periferia paulistana. O destaque do disco é “Lua Nova- a mulher dormindo”, de Caio Silveira Ramos, autor do livro Sambexplícito: as vidas desvairadas de Germano Mathias”.

O decassegui pode conhecer a vasta obra do rei do samba sincopado, acessando o site www.hmv.co.jp e digitando germano mathias na busca do site. Além do cd/dvd Ginga no Asfalto, podem ser adquiridos os cds Raiz e Tradição, Tributo a Caco Velho, 20 preferidas e Sambas pra seu governo.

Compondo como nunca, prepara o cd Brasil, copa do mundo 2014, que terá sete sambas seus a começar por Bola de Meia muito aplaudido pelo público do Sr. Brasil.

Síntese do samba de Sampa, Germano tem o humor de Adoniran, o entusiasmo de Jair Rodrigues, a voz límpida de Noite Ilustrada e a erudição de Paulo Vanzolini. Germano é erudito, sim, graças às palavras cruzadas. Quando se interessa por uma nova palavra ele a incorpora no seu dia-a-dia. Em seu show, que é imperdível, quando realça a beleza das palavras, arranca sorrisos da platéia.

Tô com a voz boa – comenta ele – apesar dela ter cinco efes: fina, feia, fraca, fuleira e f… Mesclando palavra bonita com baixaria, se preciso for, sabe como agradar o seu eclético público. Sumimasen, Gostei do eclético, diria ele.

Maior sambista da atualidade, 1,83m, o veterano Germano é mano, humano, paulista da gema, germânico no nome e na aparência, e se considera o branco mais negro do Brasil. Não é o Vinicius de Moraes?- contestaria alguém. Vinicius, aquele que disse que São Paulo é o túmulo do samba?- rebate o cantor- ele devia estar bêbado quando disse isso ou magoado com alguma musa paulistana.

Tudo começou no final dos anos 40 quando o branquelo pixaim, como era conhecido o menino Germano, se encantou com os engraxates que batucavam com graça na caixa e na lata de graxa, na Praça João Mendes, centro de S.Paulo. Logo se enturmou com a rapaziada, negros na maioria, cantando, tocando e jogando tiririca, uma espécie de capoeira paulista.

Desafiado por um amigo, participou e venceu o concurso para substituir Caco Velho, consagrado sambista que deixara a RádioTupi. Em outubro de 1955, começava a carreira do mestre do samba sincopado. Na década de 60, Germano, o “Tony Curtis da Barra Funda”, era o Belo da vez. Tinha à disposição “milhares de mulheres das melhores” como dizia o humorista Renato Corte Real. Tudo ia muito bem até que veio o tsunami da Jovem Guarda e o samba teve que se fingir de morto para sobreviver.

Germathias voltou só em 1978 quando dividiu um vinil com Gilberto Gil. Essa “antologia do samba-choro” vendeu bem, mas logo Germano foi novamente esquecido.

Aí caiu a ficha. – Por que sobrou tão pouco dinheiro depois de tanto sucesso, shows e milhares de discos vendidos? – ele se perguntava, atônito. Encontrou a resposta no Espiritismo e no Budismo, que respondem às suas inquietações.

-É a lei do carma, explica ele, a lei da ação e da reação. Esbanjei muita grana no Jockey Club com mulheres e ainda dava dinheiro pro meu amigo jogar. Caí do cavalo, cada um colhe o que planta. Hoje se diz regenerado, é um sambista sem-álcool, movido a suco e leite.

A sua agenda de shows vai bem, obrigado a cantar muito, o que faz com muito gosto. Acompanhado por Juninho Guimarães e seu conjunto ele continua abafando nos sete bares de samba da Vila Madalena. Serelepe continua pagando mico quando rebola como uma mulata, ouve muitos fiu-fiu da platéia, dá piruetas e imita magistralmente o som do trombone e da cuíca.

Sempre elegante porque o artista não pode perder a classe, o elã, reclama o velho sambista alfinetando os novos sambistas que ganham muito, mas não cuidam da indumentária – gostou da indumentária? O chapéu, sua marca, não o tira de jeito nenhum, mas a crítica tira o chapéu pra ele.

 

 

*Jorge Nagao,  além do Nippak e www.portalnikkei.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

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