JORGE NAGAO: Imai, a família que faz chover

 

 

A caminho do colégio, na década de 70, fui surpreendido por uma chuva. Completamente ensopado, entrei na sala de aula para fazer a prova de Geografia. Primeira pergunta: Por que chove? Eu não sabia…

Hoje, a pergunta é: Por que não chove? Ou chove tão pouco que a cada dia baixa o nível das represas e chovem reclamações dos paulistanos sem-água e chovem promessas dos governantes. Parece que chove à cântaros em todo canto menos no Cantareira.

Alckmin, o manda-chuva dos paulistas, se aborrece com São Pedro que não manda chuva, e  está pedindo a água do rio Paraíba do Sul mas Cabral, o manda-chuva do Rio, diz que a água do rio é do Rio, então rio para não chorar.

Esta situação dramaquática que vivemos agora poderia ter acontecido há muito tempo e foi adiada graças ao engenheiro-inventor Takeshi Imai que, no início dos anos 2000, criou uma tecnologia que provoca chuvas artificiais. A Modclima, sua empresa, chegou a ser responsável por 31% das chuvas naquela época, no sistema Cantareira e Alto Tietê.

A história profissional do mestre Takeshi é cheia de altos e baixos. Começou na Hatsuta Industrial, criada por seu pai em 1964. Em 1971, virou herói nacional quando inventou um pulverizador que acabou com a ferrugem dos cafezais. A Hatsuta cresceu tanto nos anos seguintes que ele chegou à capa da revista Exame, em 1975. Inventou a bicicleta motorizada e o walkmachine. Nos anos 80, uma crise abateu sobre a sua empresa gerando uma dívida de  CR$5 milhões. Para salvar a empresa, os empregados ficaram com 25% das ações e assim, com o comprometimento de todos, reergueram a firma.

Um dia, ao demonstrar o poder de uma motosserra que derrubou um enorme jacarandá em poucos minutos, bateu o remorso. Abandonou aquele negócio de venenos e desmatamentos, fechou a empresa, e resolveu trabalhar para o bem de todos, “para pagar os meus pecados”, justificou.

Nos anos 90, por conflitos familiares, os filhos e esposa se afastaram dele. Anos depois, os filhos  souberam que Takeshi estava  sozinho, doente, diabético e neuropático, reencontraram o pai e cuidaram dele. Reconciliado com os filhos,  ele  queria  que os filhos Maju e Ricardo  tocassem  como ele mesmo dizia :  “ um troço superbacana”: fazer chover. Surtou, pensou a filha Maju, acho que temos de interná-lo. Mas quando revelou os detalhes daquela empreitada, o filho Ricardo se entusiasmou e se engajou  de corpo e alma naquela viagem. Majory também embarcou nesse sonho e pensou na possibilidade de ajudar o povo das regiões mais pobres do país como realmente aconteceu nos últimos anos. Bahia, Maranhão e Pernambuco foram beneficiados com esta ação da Modclima.

Mr. Takeshi assinou o primeiro contrato com Sabesp, em 2001. Estabeleceu-se em Bragança Paulista, a 100 km da capital. Este projeto solidário de indução da chuva localizada foi exibido e elogiado na China, na ONU, e premiado em Cannes, França. A técnica surpreende pela simplicidade pois o avião bimotor pulveriza água potável nas nuvens cumulus congestus, com forma de couve-flor, e, em mais de 60% das aplicações, provoca chuvas demoradas para a alegria da Sabesp, dos agricultores, da fauna e da flora. Outro projeto original de Imai  são as árvores-flechas, lançados por um Cessna 172, que espetam no solo e colocam as mudas em contato com a terra. A revegetação era uma dívida que Takeshi tinha com a Natureza para compensar as árvores tombadas por suas motosserras.

Em meados do ano passado, depois de comer uns bolinhos de … chuva, Takeshi se recolheu em seu quarto e sofreu um infarto fulminante. Como ele vivia com a cabeça nas nuvens, os filhos, que agora tocam o Modclima, semearam suas cinzas numa nuvem imensa – digna do Sr. Takeshi – e caiu uma chuva de lágrimas acompanhada de um arco-íris indescritível.

Reproduzo as palavras de Sabrina Bitterncourt quando apresentou Majory  Imai no TEDxVilaMADÁ, “saudações estelares ao mestre Takeshi na galáxia em que ele estiver agora…”

 

 

 

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Jorge Nagao

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One Comment

  1. Uma linda história..
    E sei o que é isso, sempre toquei minha empresa, e noa ano passado tive que parar as atividades, com divida no banco, com isso, perdi minha esposa, e fiquei distante de meus 2 filhos, sem trabalho e triste.
    Que bom que sua família lhe deu conforto nos últimos anos de vida e prosseguiram com seu sonho.
    Aos filhos meus parabéns, pois seu pai nunca deixou de amá-los e ao Jorge, muita luz e obrigado por ter vindo a terra e ensinar a amar a natureze e criar muitos empregos e oportunidades
    Deus te abençoe
    Aleixo Brito
    aleixo@bbcomercial.com.br

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