JORGE NAGAO: Império e o dos Sentidos

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As pessoas mais conservadoras se chocam com certas cenas da novela Império, na Globo. Fico imaginando se elas assistissem ao filme Império dos Sentidos, o filme erótico mais polêmico da história do cinema. Quem tem menos de 40 anos talvez não faça ideia do barulho que esta película  causou quando estreou em 1976.

O autor desta façanha foi o diretor Nagisa Oshima, aos 43 anos, que  nasceu justamente no país onde a sexualidade é muito reprimida. Antes do sucesso de Império, fez vários filmes independentes e desafiadores. Sempre foi um porta-voz dos rebeldes, um transgressor, um maluco genial.

O filme foi baseado num fato ocorrido em Tóquio, em 1935. Sada  Abe estrangulou e matou o seu amante, a pedido dele, alegou. Como não podia carregá-lo levou uma parte de seu corpo. Você já deve saber qual parte. Condenada a seis anos de prisão, foi libertada no quinto ano pelo imperador. Sua história virou livro, um  best-seller.  Ao longo do século, cinco filmes contaram a história de Sada como empregada, gueixa ou prostituta.

Nos anos 70, década que precedeu o HIV, um tsunami de filmes pornográficos invadiu as telas de cinemas na Europa. O produtor francês Anatole Dauman desafiou Nagisa Oshima  a fazer um filme desse gênero.  Oshima assistiu a muitos desses filmes e até  “Uma mulher chamada Sada Abe”, na versão tradicional em que predominava a violência e a humilhação da mulher. O diretor criticava a sociedade japonesa  que não considerava a mulher um ser sexual. E mudou o enfoque, Sada, em seu filme, teria poder, seria  a dominadora.

Nagisa convocou o produtor Koji Wakamatsu para escolher o elenco. Os atores mais conhecidos se recusaram a trabalhar num filme erótico e outros porque negaram fogo porque o diretor faria o filme com cenas explícitas, de verdade. Até que o astro Tatsuya Fuji aceitou o papel mesmo sabendo que o filme poderia arranhar a sua imagem. Para o papel de Sada, Eiko Matsuda foi escolhida porque tinha o perfil idealizado por Nagisa, tinha que agradar às mulheres. O assistente Yochi  Sai aceitou o trabalho quando ouviu de Nagisa que o filme iria sacudir o Japão.

A filmagem em Kyoto foi tensa. Temiam ser presos por atentado ao pudor. Nas cenas de sexo, ficavam apenas o diretor e os câmeras, além do casal de assanhados, Sada e Kichizo. Um diretor quando interrompe uma cena grita: corta!, no caso de Império quando Oshima gritou corta! não era para parar a cena, mas, sim, para isolar o negócio dele. Aai!

A pré-estreia  foi no Club 13, em Paris. Na plateia, celebridades como Roland Barthes, o ator Alain Cuny e o pintor André Mandiargues.  Foi um sucesso  de crítica. No festival de Cannes, em maio de 1976, uma multidão de curiosos queria ver o filme “ultrajante e escandaloso”. Normalmente, um filme é exibido em quatro sessões, Império teve 15 sessões, um recorde até hoje. Depois de ser vetado no Festival de Nova Iorque e em Berlim, finalmente, o polêmico filme estreou nos EUA e Alemanha, com grande sucesso, pois foi classificado como erótico e não como pornográfico. Até hoje, no Japão, o Império só pode ser exibido desfigurado porque  a Censura é muito rigorosa proibindo a exibição dos órgãos genitais, ao contrário das gravuras do período Edo quando o prazer sexual era cultuado e os países baixos eram destaques nas figuras.

Décadas depois, L’Empire des Sens é considerado um filme de arte. Para a atriz Catherine Breillat, o filme é magnífico, inteligente, as cenas servem para  mostrar os vários aspectos da sexualidade.  Ela até compara o filme com a arte dos maiores pintores e escultores  que retrataram a santidade.

A atriz Eiko Matsuda sofreu muito depois do filme. Chamada de prostituta, no Japão, mudou-se para Paris com o marido. Tatsuya Fuji, recebeu o prêmio Hochi Film Award, melhor ator de 1976. Nagisa Oshima continuou filmando sobre sexo até 1999 quando foi premiado com Tabu, mas sofreu um derrame naquele ano e encerrou a brilhante carreira.

Quer ver o filme? Digite Império dos Sentidos no Google e se prepare porque as cenas são fortes, porém, como disse o ator Tatsuya “apesar de tanto sexo, é beleza pura, uma linda história de amor”. Se não quiser, corta! e fique com o Império do plim-plim. E fim.

 

 

 

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Jorge Nagao

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