JORGE NAGAO: Lembrando o caso Escola Base

 

Paula Milhin, Icushiro e Aparecida Shimada. Na sequência, Edélcio Lemos, o delegado.

Paula Milhin, Icushiro e Aparecida Shimada. Na sequência, Edélcio Lemos, o delegado.

 

Em 1992, quando inaugurou a Escola Base Educação Infantil, Icushiro Shimada realizava o sonho de sua esposa Aparecida. Eles e o casal Paula Milhin e Mauricio Alvarenga eram os donos da escolinha, no bairro Cambuci, próximo ao centro de S.Paulo. Aos poucos, a Base foi crescendo, no ano seguinte tinha uns 30 alunos e em 1994 já contava com 72 crianças matriculadas.

Tudo seguia às mil maravilhas, até que no dia 28 de março, toca a campainha da escola. Icushiro, achando que era a mãe de algum aluno, encontrou o delegado do bairro, Edelcio Lemos,  que lhe disse que havia graves denúncias de abuso sexual nas crianças daquela escola.

Iniciava ali uma história maluca que se transformou no maior erro da imprensa e do judiciário da nascente democracia brasileira.

O delegado, louco para aparecer, convocou uma entrevista coletiva, no dia 29, praticamente condenando, sem provas, os donos da escola. Lucia Eiko Tanoue Chang, mãe de um aluno,  disse que o filho de 4 anos relatou como se dera o abuso. À noite,  o Jornal Nacional iniciou o massacre com uma reportagem devastadora. Seguiu-se o efeito manada, quase toda a imprensa repercutiu o caso.

Algumas manchetes:

Kombi era motel na escolinha do sexo – jornal Notícias Populares, do grupo Folha.

Escola é acusada de prostituição –jornal Folha da Tarde, também da Folha.

Uma escola de horrores – revista Veja.

No dia 30, apareceu uma única prova, um laudo do IML que informava que havia uma fissura no ânus de um garoto de 4 anos, uma prova inconclusiva pois o garoto tinha problema de evacuação e coçava muito ali.

Os acusados: “ Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada , donos da Escola Base; Maria

Cristina Franca, professora da escola, acusada de abusar sexualmente de uma criança de 4

anos, coleguinha de seu filho na escola; Saulo e Mara da Costa Nunes, perueiros da

escola, acusado de abusar das crianças dentro da Kombi; e Maurício Alvarenga e sua

mulher Paula Milhin, sócia e professora” (Luis Nassif, no site jornalggn, 19.02.14)

A escola Base foi depredada três vezes e a casa de Paula também, minutos depois que a uma reportagem a mostrou.  Assustados, os donos da escola se recolheram por alguns dias. Escolheram a TV Cultura pois só confiavam no repórter Florestan Fernandes Filho que não acreditava na versão do delegado que não exibia nenhuma prova do inquérito, mas adorava os holofotes que o tornaram famoso da noite pra madrugada.

Na delegacia, as sócias Aparecida e Paula sofreram assédio moral e até agressões físicas. Os sócios Icushiro e Maurício foram presos preventiva e arbitrariamente por alguns dias.

A verdade veio à tona com a substituição do delegado. Os sócios-proprietários foram inocentados por falta de provas. Mas o estrago estava feito, não tinham mais a escola,  fonte de alegrias e renda deles.  Processaram o governo do Estado, menos a Paula que estava brigada com o marido e perdeu o prazo. A TV Globo e os jornais e revistas perderam o processo e pagaram indenizações de R$  100 mil a R$ 1.300.000,00 (Globo).

O jornalista Alex Ribeiro ganhou o Prêmio Jabuti, em 1996, com o livro Caso Escola Base, os abusos da imprensa. E o programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, está concorrendo ao Prêmio Esso de Jornalismo cujos premiados serão anunciados em dezembro.

 

 

 

O caso da Escola Base é tema obrigatório nos cursos de Jornalismo como exemplo de engano a ser evitado.  E também é debatido nos cursos de Direito e até na polícia porque a conduta do delegado foi  reprovável  porém experientes jornalistas como Bóris Casoy e Paulo Roberto Leandro, da Globo, embarcaram nessa canoa furada e mancharam seus currículos.

Paula Milhin acumula dívidas de mais de R$50 mil e ganha um salário um pouco acima do mínimo. Aparecida Shimada morreu em 2007, vítima de um câncer. Icushiro, que era chamado de Aires, morreu em abril deste ano, após um infarto. A mãe denunciante, Lucia Chang, não quis gravar depoimento mas disse que ainda ptoma remédios para dormir. Maurício vive no interior, em LINS, Lugar Incerto e Não Sabido. O delegado Edélcio trabalha num posto do Centro de Integração da Cidadania onde faz o papel de conciliar brigas de famílias e vizinhos.

Vinte anos depois, alguns processos ainda estão na justiça, mas bastaram cinco minutos na Globo para destruir a vida de seis famílias. Foi um furacão, resumiu Paula Milhin.

 

 

 

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Jorge Nagao

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