JORGE NAGAO: Marina Silva Embolou 2014

 

Marina Silva foi a personalidade política da semana passada. Começou tentando viabilizar a sua Rede que não se sustentou, perdeu de goleada,  6X1, no TSE. Os adversários festejaram a sua volta ao anonimato, sem cachorro.  Afinal, seus 20 milhões de votos, em 2010, seriam distribuídos entre eles. No entanto, esta lutadora do MMA, Ministério do Meio Ambiente de Lula, surpreendeu o mundo político no sábado quando anunciou sua filiação ao PSB do presidenciável Eduardo Campos, de Heráclito Fortes, Paulo Bornhausen e Erundina. Afe!

Segunda colocada nas pesquisas eleitorais, Marina quer derrotar o governo que, segundo ela, dificultou a criação de seu partido. Somando as intenções de votos da oposição, haverá um imprevisível segundo turno, se não houver novidades nas futuras pesquisas.  Imagina no ano da Copa, com novo julgamento do Mensarón, um embate entre Dilma/Temer x Aécio/Serra x Campos/Marina?

Em 2008, ao deixar o ministério, a Marina morena voltaria ao Senado e cairia no esquecimento, como era o destino natural de ex-ministros. Como conhecia a sua trajetória de incomodar os poderosos, começando pelos inimigos de Chico Mendes, produzi um texto meio profético “Marina Silva, senadora sonhadora”,  apostando em seu ressurgimento,  mesmo num partido pequeno como o  PV.  Em 2010, ela teve uma votação impressionante apesar do pouco tempo de TV. Agora, com este golpe de mestre, quando estava novamente condenada ao ostracismo, voltou a incomodar tanto a situação quanto à oposição. Marina Silva, a ex-sonhática, não é um elefante mas incomoda, incomoda, incomoda, incomoda, incomoda sempre mais.

 

 

Marina Silva, Senadora Sonhadora (2008)

Marina Silva, da selva, da floresta, percebeu que estava num mato sem cachorro. Deslocada, meio fora da equipe de Lula, meio sem ambiente, apesar do sucesso na estação ecológica “Terra do Meio”, no Pará, já não havia mais meio de ficar no ministério, dizia em e-mail aos amigos.

Tantas o governo fez que ela cansou e quando o presidente anunciou o PAS, Programa Amazônia Sustentável, e ungiu Mangabeira Unger como gestor, a sua situação é que ficou insustentável. Foi a gota d’água. Ficar significava naufragar, ser uma sub-Marina.

– Eu, mãe do PAS, Lula? E outro vai cuidar do meu filho? Estou fora!- pensou em voz alta durante a cerimônia.

E viu passar o filme de sua vida. A menina que saiu de Seringal do Bagaço (AC), aos 16 anos, depois de perder a mãe, e quase morrer de hepatite, mudou-se para a capital Rio Branco. Alfabetizou-se pelo Mobral e trabalhou como doméstica. O “turning point” de sua vida foi quando fez o Curso de Lideranças Rurais com Chico Mendes e Clodovil Boff, não o bofe do Clodovil. Fez os cursos supletivos do ginásio e colegial, entrou na faculdade de História da Universidade Federal do Acre, formando-se em 1988. Neste ano, elegeu-se vereadora, a mais votada.

Com o assassinato de Chico Mendes, tornou-se presidenta da CUT-AC. Em 1990, foi a deputada estadual mais votada. E foi eleita senadora em 1994. Em 2003, foi o primeiro nome anunciado para o ministério de Lula.

Respeitada por ambientalistas de todo o mundo, é conhecida no Exterior como Anjo da Guarda da Amazônia. Recebeu os prêmios Goldman, Campeões da Terra, da ONU, PNBE Cidadania, e é a única latino-americana dentre as 50 pessoas que podem salvar o planeta, segundo o jornal The Guardian. Reduziu em 59% o desmatamento nos últimos três anos. Para o senador gaúcho Paulo Paim, Marina Silva é um ícone brasileiro e mundial e portanto candidata ao Prêmio Nobel da Paz.

Essa mulher aparentemente frágil ousou questionar colegas ministros, o governador do Desmato-grosso, e até o presidente Lula que ficou indignado que uma obra estava parada porque a ministra estava preocupada com os bagres. A partir daí ficou conhecida entre os ministros desenvolvimentistas como a ministra dos bagres. Esses “cabeças-de-bagres” certamente têm saudades dos tempos da ditadura quando as obras eram executadas sem se preocupar com o impacto ambiental.

Sua saída alegrou a cambada, digo, bancada ruralista, mas a repercussão amazônica fora do país deixou Lula preocupado. Diz o jornal britânico The Independent: ” Saída de Marina é golpe para o futuro do planeta”.

Carlos Minc, seu sucessor no MMA, chega com a cabeleira “desmatada”. E ainda vai perder muitos fios de cabelos, ironizou Marina. Tem fama de ser rápido em conceder licença ambiental. Isso pode significar desmatamento mais rápido, desastres ecológicos mais acelerados. Ora, dá licença. Minc engana que eu gosto.

Marina Silva sai do governo sem escândalo, de cabeça erguida. Sonhadora, continua sua luta como mega-senadora admirada até pela oposição. Na entrevista coletiva, após a demissão, um jornalista perguntou se Marina sairia candidata à Presidência da República. Ouviu-se um riso aqui, outro ali.

– Pelas risadas, você vê que nem preciso responder – comentou bem-humorada.

Quando Lula se candidatou a Presidente muita gente também riu, Marina. Hoje, eles temem pelo seu terceiro mandato… Você, caboclinha de Seringal do Bagaço, que derrotou a hepatite e adversidades diversas, é capaz de quase tudo. O que será que os deuses da floresta ainda reservam pra você?

 

 

 

Jorge Nagao

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One Comment

  1. Mais um texto informativo em forma de humor do meu amigo, jornalista, Jorge Nagao. Abs. Precisamos desmarcar qualquer coisa pro almoço.

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