JORGE NAGAO: Masao Ohno, o homem-livro

Masao Ohno, o homem-livro

Masao Ohno, o homem-livro

 

Neste turbulento mês de março, entre os gritos de golpeachment e não vai ter golpe, emergiu o nome do lendário editor Massao Ohno.

Tudo por causa do lançamento do documentário “Massao Ohno – Poesia Presente!”, de Paola Prestes que aborda a trajetória dele, de quase cinco décadas, no mundo dos livros. Ohno lançou a festejada poeta Hilda Hilst e outros grandes como Claudio  Willer, Roberto Piva, Álvaro Alves de Faria e Eunice Arruda. O filme exalta Ohno como um artista do livro, o homem-livro, o homem-livre.

Segundo José Mindlin, o bibliófilo-mor, Massao Ohno era um brilhante artista gráfico e produziu muitos livros inovadores. Com seu prestígio levou aos livros a arte de Manabu Mabe, João Suzuki, Aldemir Martins, Millôr Fernandes e muitos outros.

Prestou um depoimento sincero e revelador ao projeto Memória Oral da Biblioteca Mário de Andrade numa entrevista habilmente conduzida por Ana Elisa Antunes Viviani. Contou que o pai foi general na guerra da Manchúria que o desiludiu com tanta crueldade que viu. Resolveu aceitar o pedido do governo japonês para “fazer a América”. Desembarcou no Brasil como adido militar, com muitas regalias.

Casou-se com uma japonesa de Hiroshima, enviada a ele para formar a família. “Só nasci porque meus pais perderam um filho e, na busca do filho perdido, tiveram várias filhas, até que eu vim ao mundo e eles sossegaram.

Em casa,tinha mais de 10 mil livros. A família gostava muito de ler. Além de ler, Massao também escrevia e notou a dificuldade de se publicar um livro. Pretendia cursar Letras ou Filosofia mas os pais o convenceram a fazer uma faculdade que lhe garantisse um futuro tranquilo e favorável.Os irmãos fizeram Engenharia e ele se formou em Odontologia.

Graças aos amigos do poderoso pai que lhe encaminhava clientes, ganhou um bom dinheiro durante dois anos mas detestava aquele ofício e não deu outra: chutou o balde! Vendeu o consultório e abriu uma gráfica. Brigou com os pais, claro, mas o rompimento definitivo veio com o seu casamento com uma brasileira. Os pais já tinham escolhido uma noiva nikkei ideal pra ele…

A gráfica deu certo. Fazia muitas apostilas para os cursinhos pré-vestibulares e até para a Faculdade de Medicina. Com as sobras de papel dava para montar livros de poesia. Assim nasceu a Massao Ohno Editora num casarão onde hoje funciona o Centro Cultural Vergueiro, point dos poetas novatos que sonhavam com a publicação do livro. Ohno lançou mais de 800 livros.

Iniciou publicando a Coleção Novíssimos, uma série de volumes que fez muito sucesso. A partir desses livros e de outros originais que recebeu, lançou em 1961 a Antologia Novíssimos que firmou o nome de Ohno como referência no mundo editorial independente.

O inquieto Ohno, em meio a tanto trabalho na gráfica e na editora, ainda militou na AP, Ação Popular, e produziu o genial filme “O bandido da luz vermelha”, de Rogerio Sganzerla.

Para a comunidade japonesa, publicou para a Aliança Cultural Brasil-Japão e para a Fundação Japão os livros essencias como Conversação e os dicionários Japonês-Português e Português-Japonês, além do Dicionário de Kanji que consumiu quase 20 anos de trabalho e teve o reconhecimento do governo japonês. No centenário da imigração japonesa, também publicou um livro indispensável para entender a nossa história. Também foi homenageado pelo Instituto Moreira Sales e pelo Instituto Tomie Ohtake.

Massao Ohno, com 73 anos, em 2009, disse no depoimento à Biblioteca Mário de Andrade que estava com gás para trabalhar mais 15 anos. Infelizmente, morreu no ano seguinte,em Sorocaba.

Arigatoo, Massao Ohno!

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

além do Nippak e www.nippak.com.br,também está na constelação do www.algoadizer.com.br.
E-mail: jlcnagao@uol.com.br
JORGE NAGAO

Últimos posts por JORGE NAGAO (exibir todos)

     

    One Comment

    1. Bela e merecida homenagem ao grande editor, mestre de todos nós, Massao Ohno. Documentário precioso para a história da cultura e do livro no país. Parabéns, Jorge.

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *