JORGE NAGAO: Massafumi, o guerrilheiro

!cid_ii_149c8878788f4c37Oficialmente, foram 25 os nikkeis rebeldes que lutaram contra o regime militar. Lembro de uma nikkei depondo na Comissão da Verdade, neste ano, mas não guardei o nome dela. No documentário Tempos de Resistência, exibido recentemente na TV Cultura, apareceu Takao Amano ligado a Carlos Marighela. O site do PCdoB, registra também Suely Yumiko, Rioko Kaiano e Nair Kobashi.

Dentre todos, sem dúvidas, o mais lembrado é Massafumi Yoshinaga. Pérsio Arida, um dos pais do Real, falou, em 2011, à revista Piauí sobre o tête-à-tête que teve com Massafumi no Dops e que ficou apavorado quando lembrou de ter abrigado o amigo nikkei em sua casa, pensando que seria delatado/deletado por isso. Mas Massafumi jamais delatou alguém, garante seu companheiro Celso Lungaretti, amigo e líder estudantil, que conta o drama dantesco do rebelde nikkei em seu blog naufrago-da-utopia.blogspot.com.

Álvaro Pereira Júnior, colunista da Folha, no dia 8/11/14, também contou a saga de André Massafumi Yoshinaga. E conclui: “nestes dias em que uma escória engomada pede a volta dos militares ao poder, convém lembrar histórias assim”. O colunista recomenda também a leitura da dissertação de mestrado “O terror renegado”, de Alessandra Gasparotto, 2008, UFRGS.

Ele nasceu em 1949, em Paraguaçu Paulista-SP. Estudou no Colégio Brasílio Machado, na Vila Mariana. Atuante, foi eleito vice-presidente dos Estudantes Secundaristas, aos 18 anos. Militou na VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, liderada por Carlos Lamarca. Era um militante de base, não participava das ações armadas como fazia Yoshitane Fujimori, que era o japonês da metralhadora, e não ele, Massafumi, que ganhou essa fama.

Ao ver tantos companheiros tombados, Massafumi que era alegre e extrovertido, queria ter contato com a massa e abandonou a VPR, em Registro-SP, e voltou para São Paulo. Segundo Lungaretti, ele passou a ser perseguidíssimo por ser o japa da metralhadora, como se via nos cartazes com sua foto pelo Brasil inteiro. Ansioso, aguardava que a VPR o ajudasse a sair do país mas não, era mal visto por ter abandonado o grupo, e foi abandonado pelo grupo.

Perambulou pelas ruas do centro levando uma vida de mendigo por vários meses, até que soube que seu guru Marcos Vinicio Fernandes dos Santos e mais quatro amigos haviam renegados a luta armada. Seguiu o conselho do guru que garantiu que ele não seria torturado e se entregou aos órgãos de segurança.

Massafumi ganhou fama nacional ao ser entrevistado pela TV Tupi. Depois, aceitou gravar em rede nacional dizendo-se arrependido de ter sido guerrilheiro e alertando os jovens que aquela era uma luta perdida. Logo, foi solto, tentou se estabilizar em diversos empregos, em vão. Virou até capa da Veja, com sua foto e o título O terror renegado.

A morte de sua mãe, em 1973, o abalou irreversivelmente. A partir daí, entrou em parafuso. Vai pirando, pouco a pouco. Até que em 1976, após duas tentativas de suicídio, se enforcou com a mangueira plástica do chuveiro, em sua casa Vila Odete, em S.Paulo. Sua história é também contada pelo historiador Jeffrey Lesser no livro “Uma Diáspora Descontente”.

É curioso o destino dos principais sobreviventes dos opositores dos governos militares. Certamente, os torturados têm marcas inapagáveis em suas almas. Aloysio Nunes, foi “Mateus”, companheiro de Marighela na ALN, e candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves. E Dilma Rousseff, todo mundo sabe.

Bora, Brasil!

 

 

 

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Jorge Nagao

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