JORGE NAGAO: Memórias Póstumas da Folha

 

Itagyba que faria 70 anos em maio.

Itagyba que faria 70 anos em maio.

Leão Serva, está lançando o livro “Um dia, uma vida”, uma seleção de obituários publicados na Folha de São Paulo, entre 2007 e 2014, editora Três Estrelas. Ele esteve no programa do Jô, a deliciosa entrevista pode ser vista aqui: http://gshow.globo.com/programas/programa-do-jo/O-Programa/noticia/2015/06/leao-serva-lanca-um-livro-com-selecao-de-obituarios-foi-um-trabalho-delicioso.html

Serva citou uma frase, muito repetida antigamente “Está morrendo gente que nunca morreu” e lembrei de outra: “Morreu, antes ele do que eu!” Essas frases de morte hoje são politicamente incorretas mas não morrem nunca.

São 150 história breves mas comoventes. Como diria o Emerson Fitipaldi: – Eu recomendo!

Leão Serva selecionou e organizou mas os verdadeiros autores merecem mais destaque, como é o caso do pioneiro Willian Vieira e de Estevão Bertoni.

“A morte é a moldura que, de uma hora pra outra, tranforma o que parecia um esboço numa obra terminada. Mas o clímax das histórias vem antes- daí o título, tão acertado, Um dia, uma vida – escreveu Antonio Prata, na orelha esquerda do livro.

Entre os obituários, figuram seis nikkeis que são motivos de orgulho da comunidade. Você conheceu alguns deles?

Luiza Sato, a massagista dos famosos.

Saburo Bajo, cem anos de história.

Shotaro Shimada, o precursor da yoga no Brasil.

Luiz Sadaka Hossaka, o mais antigo funcionário do Masp.

Kazumi Ogawa, sobreviveu à bomba de Nagasaki.

Toshiro Ono, o saci-pererê japonês e a bossa-nova.

 


 

 

 

Sobre Itagyba

 

A seção de falecimentos dos jornais causa um certo desconforto no leitor que, instintivamente, muda de página. A Folha de S.Paulo inovou e reservou um canto daquela seção para homenagear não só os mortos ilustres como também as pessoas comuns ou não tão famosas.  Lá o leitor toma conhecimento da partida e de detalhes relevantes da vida de alguém contada de uma forma singela e humana.

Quem não se deteve naquele canto do jornal e não ficou  imaginando a trajetória de alguém que sequer conheceu, mas que, pelo relato, gostaria  de ter conhecido. Quando a pessoa homenageada é alguém que conhecemos, aí cala fundo o coração da gente.

No começo de abril (2009), citei o Itagyba no texto “O e-mail que caiu do céu”. O Barão de Itararé se referindo a nós que o homageamos num site, dizia no final da mensagem: – Até qualquer dia porque quem é vivo sempre desaparece. E não é que, naquele mesmo dia, o Itagyba partiu para se encontrar com o Barão?!

Na semana seguinte, aquela seção da Folha o homenageu. Estevão Bertoni chamou-o de “O Braço de Pedra” de Embu das Artes, tradução de seu nome do tupi-guarani. O filho de Moysés Kuhlmann, um dos fundadores do Jardim Botânico de SP, era poeta, humorista e webdesigner, além de cantor. Faltou dizer que durante o velório houve um delicado sarau apresentado pela própria família. Foi muito bonito, disse Genésio, frequentador dos saraus dos Kuhlmann.

“A minha maior obra é a minha família”, costumava dizer Itagyba, revelou Wilma sua companheira por 38 anos e que lhe deu seis filhos: Ubiratan (Bira), Uirá, Yurê, Itagyba, Mayra e Iberê. Wilma Abondanza é regente de corais e foi uma das vocalistas do Pessoal de Santana do histórico disco de Tom Zé, em 1975. Maurício, o famoso MZK, dos quadrinhos, é filho do primeiro casamento de Itagyba.

Que os outros jornais imitem a Folha e registrem não só o nome, idade, se deixa filhos e a última morada, mas que revele detalhes sobre a vida de alguém “que não passou pela vida em brancas nuvens e em plácido repouso adormeceu”. A morte é de morte. Carregou nossos avós, ronda nossos pais e ainda paquera despudoradamente a nossa geração, distribuindo cartões amarelos e até vermelhos.

Nosotros que estamos no segundo tempo deste jogo, tenhamos cuidados com as faltas (excessos) porque esta implacável juíza pode decidir a nossa “partida”.Enquanto isso, dá um tempo, Meritíssima ou Moretíssima, e deixa a vida me levar “até um dia, até talvez, até quem sabe?”

 


 

 

CARONA- Trabalhei com Itagyba no jornal do bairro de Santana, Expresso

da Zona Norte”, em 1995, uma aventura do inquieto Antonio Gomide. Itagyba adotava pseudônimos de acordo com o assunto que abordava. Frei Marcos da Portela Aquele Abraço, partidário do apartidarismo; Bonifrate Mario Neto, um repórter qua não se vende separadamente; Madame Quiromana, astróloga evidente; Joelmir Porcenting, analista econômico em palavras; Saene Cordeiro, seu nome não é Enéas nem de trás pra frente; Jeca Kfuro, comentarista sem esportiva, entre outros. Eis” Cantarera”, um poema de Itagyba, de um tempo que não sofríamos essa aguania.

 

Cantarera, de Itagyba Kuhlmann

Cacei umas muringa vazia
I nu lombo da égua matreira
A mó di i inche as vazilha
Fui às água da Cantarera.

Tem tanta água na Serra
Bica, fonte, queda, córgo,
Tem água inté na frô da terra,
Aos cântaro as água corre.

Inté matutava em meu canto
Qui o nomi di Cantarera
Fosse pru causa di cântaro
Pru causa daquela aguacera.

Mai vi tanto xintã, inhambu,
Imitando as muringa intorná
Bugio gritano, macuco, uru,
Os vento nas foia a subiá.

Intá as água desceno rolano
Parecia quere dansá
Qui percebi qui Cantarera
Era pru mó di cantá!

Canta, canta… Cantadera!
Canta i dansa… Cantareira!

Outono (Dia do Meio Ambiente) 2000

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

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    2 Comments

    1. Muito grata por suas palavras que me emocionaram de verdade afinal o nosso querido Itagyba dizia que o mais importante não era a fama mas poder ser lido e você nos contempla com seu gesto sempre tão carinhoso!

    2. Parabéns por sua linda família, Wilma!

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