JORGE NAGAO: Meu soneto com Machado

 

Em 27/05/17, o meu amigo Pignanelli, postou no Facebook um texto de Machado de Assis em que ele conta sobre um soneto que ele nunca fez. Ou melhor, fez o primeiro verso e a chave de ouro, o último.

 

“Contarei a história de um soneto que nunca fiz. Era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele  um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à idéia, o primeiro verso não era ainda uma idéia, era uma exclamação; a idéia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar.

 

 

 


 

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

Quem era a flor? Capitu, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compor o último verso do soneto e, depois de muito suar, saiu este:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. A idéia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria a justiça. Era mais próprio dizer que, na
pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela a luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova, a caridade, e recitei os dois versos,
cada um a seu modo, um languidamente:

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
e o outro com grande brio:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

(In Dom Casmurro – Machado de Assis)

 


 

 

MG, outro poetamigo, conclamou os soneteiros desocupados a se apresentar. Fui o primeiro e único. Taqui.

 

Meu soneto com Machado

 

“Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!”

minha musa que veio sorridente

minha vida mudou tão de repente

pois só me inspiras paz e ternura.

 

Oh! flor cândida e pura, flor do céu!

tudo agora mudou d’água pro vinho.

Antes preso, me sinto como um passarinho

livre que voa tão feliz, ao léu.

 

Ah, capitulo sempre quando me olhas,

no coração já guardo tantas histórias,

amor não foste outro fogo de palha.

 

Oh, flor do céu! Secreto e doce amor,

hei de amar-te em Marte ou onde for:

“Perde-se a vida, ganha-se a batalha”.

 

 

 

 

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