JORGE NAGAO: MG e Frei Betto

 

MG do título não é a sigla de Minas Gerais, Estado onde nasceu Frei Betto, mas, sim, as iniciais de Marcílio Godoi, também mineiro, que defendeu a tese/tesón sobre o seu conterrâneo e agora é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC. O poeta, arquiteto e jornalista Marcílio marcava mais um gol em sua carreira ao receber a nota 10 da banca examinadora enquanto Neymar fazia um golaço no México na Copa das Manifestações.

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 68 anos,  já publicou 53 livros, em Aldeia do Silêncio, editora  Rocco,  atingiu o que buscava: a “proesia”, a prosa com sabor de poesia. A carreira de escritor do frade dominicano começou nos anos 60 quando foi preso pelo regime militar. Encarcerado por quatro anos, quando foi julgado e condenado a dois anos de reclusão, ironizou: Então tenho dois anos de crédito? Ele também via vantagem em estar preso naqueles tempos  porque podia falar mal do governo sem correr  o risco de ser preso… Para não enlouquecer, escrevia cartas que passavam pela direção do presídio por isso Frei Betto precisava ser criativo para enviar recados. Nascia ali o escritor, segundo MG, pois a mensagem cifrada estava nas letras iniciais de cada frase, por exemplo. Essas cartas que registravam aquela página infeliz da nossa história foram reunidas no livro Cartas da Prisão e se tornou tão importante quanto Os Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, e Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.

Frei Betto inaugurou o programa Sempre um Papo, em 1986, retornou neste ano para exaltar a meditação em seu livro Aldeia do Silêncio. A meditação não é um exercício religioso é a solidão saudável, o encontro consigo mesmo. A maioria das pessoas fica conectada 24h por dia porque tem medo de ouvir a voz interior, constata o autor de Batismo de Sangue.

Além de renomado autor, Frei Betto assessora movimentos sociais. Ele que pensa muito no próximo, especialmente no desfavorecido, quando está terminando um livro, também pensa muito no próximo. Escritor profícuo, no entanto, jamais foi cogitado para ser imortal da Academia Brasileira de Letras. Creio que muitos que lá estão são imortais porque sobrevivem à própria obra – alfineta FB.

Marcílio Godoi está fazendo justiça ao grande Frei Betto. Em tempos de transição no nosso País, penso, a grandiosidade do combatente deve ser revista – escreveu a cronista Maria Balé. O incansável frade dominicano inspirou também o poeta Luca Barbabianca que dedicou-lhe uma série de sonetos no site algoadizer.com.br. Eis o primeiro:

 

 

 

A mosca azul ou o pão e o circo

Por Luca Barbabianca

 

De tudo que Frei Betto nos ensina

esta é uma verdade irretorquível:

um mundo novo e justo só é possível

sem que haja alguém com fome a cada esquina.

 

As democracias são, sem exceção,

escravizadas ao tal Deus Mercado

que inventou o mundo globalizado,

ideólogo do lucro e da exclusão.

 

No pão e circo das acrobacias

o voto é farsa que as democracias

de raro em raro encenam para o povo.

 

Não podemos continuar no escuro,

andando de costas para o futuro,

se tudo segue igual e nada é novo.

 

(Inspirado na leitura de “A mosca azul, reflexões sobre o poder”, de Frei Betto, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2006)

 

 

 

Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

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