JORGE NAGAO: Multividas

 

O adolescente tímido vindo do meio da zona leste se apresentou na Multividro, no Belenzinho, bairro paulistano, em dezembro de 1967. Aprovado no teste, foi encaminhado a um escritório no meio da fábrica. Naquela época, havia o salário mínimo para o trabalhador menor, equivalia à metade do salário do adulto, hoje seria R$362. Outro dia, foi ver na Carteira de Trabalho para que cargo fora contratado e riu muito: Auxiliar de Ajudante.

 

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Diziam que ele era um kardexista, não um seguidor de Allan Kardec, mas um cara que trabalhava num arquivo chamado Kardex. Cada material dos três almoxarifados tinha uma ficha e ele dava baixa nas requisições e fazia pedido de compra quando a peça chegava ao estoque mínimo. Trabalhou nesta “criativa” função por uns meses quando foi promovido a orçamentista, isto é, calculava o valor de uma peça, da fabricação até a sua finalização. Algumas delas passavam por seções nobres como Lapidação, Guilochet e Pintura. Com essa promoção, certamente, ganhou um belo aumento de salário, não? Não, continuou com o meio mínimo, levando marmita, correndo pro colégio na Penha, chegando em casa à meia-noite, acordando às 6:30h para repetir essa maratona diária. Dois anos depois, ao completar 18 anos, passou a ganhar o mínimo integral. Ficou feliz com o aumento de 100%, hoje o mínimo é R$724.

Enquanto o regime militar recrudescia com a tortura e a censura, o rapaz alienado, apesar de ganhar pouco, curtia muito aquela fábrica pois se relacionava com quase todas as seções. Sua seção, Custos, tinha que apurar o custo de tudo como aquele sucesso do Roberto Carlos: “Custe o que custar”. CQC.

Gozando férias, um colega apareceu na casa dele, anunciando que ele teria que se apresentar na fábrica pois uma nova coleção seria lançada e ele era o único capacitado para calcular o seu custo. Era uma jarra com seis copos lapidados e com filetes de ouro. Que ironia: só o empregado que ganhava o mínimo, somente ele, era capaz de fazer o orçamento da coleção Lapidação 7 que foi um grande sucesso de vendas. Ah, isso, deve ter dobrado o salário dele, não? Não, continuou ganhando o mínimo, apesar de ser o máximo. Rs rs.

Naquela época, para reajustar a sua tabela de preços, a fábrica teria que provar a um órgão do Ministério da Fazenda, acho que era o SIP, que houvera um aumento no custo na fabricação dos produtos. E quem fazia isso? Claro, ele, o cara que ganhava o mínimo, que, pacientemente, pesquisava ítem por ítem, ficha por ficha, nota fiscal de cada produto, para comprovar que o catálogo precisava ser reajustado. Quando o reajuste solicitado era atendido, com índice acima da inflação,  a comemoração era contagiante. Então, o responsável por aquela conquista recebia um belo d’um aumento, não? Não, continuava recebendo o salário mínimo.

O grupo Nadir Figueiredo resolveu lançar um jornal para informar o que se passava em suas unidades. Ademir, o chefe do nosso “herói”, sugeriu que ele escrevesse sobre os novos universitários, colegas do escritório que conseguiram a façanha de entrar na faculdade. Então, aquele abnegado japaz passou a ser o cronista da Multividro na publicação. Ah, por representar tão bem a sua unidade recebeu um bônus especial, não? Não, Nadirca de nada, ele continuou ganhando o salário mínimo, leitor@.

A vida seguia, normalmente. Até que um dia, na surdina, ele fez o concurso para o concorrido Banco do Brasil. Foi aprovado. Ganharia um salário três vezes maior que o da fábrica. O chefe do Departamento Pessoal que jamais o valorizou por anos, tentou convencê-lo a ficar, em vão, evidentemente.

Hoje, analisando esse período, apesar de tudo, afirma que valeu muito a pena ter trabalhado naquela firma, uma fábrica de emoções e experiências enriquecedoras. Percebe que viveu muitas vidas ali. Vida amorosa, lá conheceu o seu primeiro amor. Vida espiritual, lá foi apresentado por Teixeira à Rosacruz. Vida literária, lá publicou seus primeiros poemas e crônicas. Vida de compositor, lá começou a criar suas primeiras canções para consumo próprio. Multividas, enfim. Depois que deixou a empresa, soube que uma operária, uma colega muito querida, partira antes do combinado como diz o Boldrin. Aí nasceu o poema

 

 

 

MULTIVIDRO, SEVERINA

 

No destino da nordestina,

uma fábrica de vidro.

Severina, nada severa, aceitou:

tudo certo certinho, sertão!

 

A fábrica de vidro

também produzia ilusões.

Severina, coração de vidro,

vivia feliz entre os peões.

 

Salário mínimo,

insalubridade máxima.

Barriga vazia,

trem lotado.

 

Muitos anos a fio,

nesta rotina,

pobre Severina

se consumiu.

Severina,

que lia nas embalagens

“cuidado, frágil”,

tornou-se frágil

e sem cuidados.

 

A assistência dos patrões

era pouca e se acabou.

A vida de Severina era vidro

e se quebrou.

 

 

 

 

 

 

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Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

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