JORGE NAGAO: Novelha, Carnavalério e Painho

NOVELHA

 

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Era uma vez uma velha biblioteca no centro velho, onde a velhice era visível. O diretor era velho, a faxineira era velhíssima, a moça do café era uma anciã, a bibliotecária era mais velha ainda. Menos velhos eram os seguranças, Eumesmo e Elepróprio, mas até elesotros já estavam com um pé na aposentadoria. Ah, velhos também eram os frequentadores da bibliô. Cada dia mais velhos.

E os livros? Eram velhos como velhas eram suas histórias. Os móveis eram velhos, do século XIX. Lá, onde tudo era velho, reinava a velharia. Não havia novidade, só velhidade, como diz minha amiga Carmen Vaz.

Um dia, a velha rotina da velha biblioteca foi quebrada com a chegada da Manu, a estagiária de 17 anos. O velho ambiente, com esse sopro de juventude, foi mudando do vinagre pro vinho.

Até os velhos escritores ficaram assanhados com a menina, que parecia ouvir:

— Me pegue, Manu! – dizia Hemingway.

— Não, garota. Põe as mãos em mim – suplicava Edgar Allan.

— Vem cá, minha Lolita! – suspirava Nabokov.

— Que bom te ver, Moreninha! – se alegrava Joaquim Manuel de Macedo.

— Me leva pra casa! – suplicava Jorge Amado.

— Eu queria sentir o seu dedo na minha “orelha” – gracejava Graciliano.

— Ó virgem dos lábios de mel, seus cabelos são mais negros que a asa da graúna – declamava Alencar.

— Eu queria ser o seu livrinho pra poder ficar juntinho de você – cantava Erasmo… de Roterdã.

Enciumada com as cantadas que a Manu levava, a Velha reclamou:

— E eu? Não mereço uma palavra de carinho?

— Posso falar? – disse GGM.

— Gabo?! Fala, amor! – animou-se ela.

— Te desejo “Cem anos de solidão”! – disse o vencedor do Nobel de 1982.

Quá-quá-quá! (gargalhada pré KKK) – se ouviu em todos os cantos.

— Velho babaca! – resmungou a Velha.

As velhas estantes, antes abandonadas, se renovaram, pois Manu não só retirava o pó, como lustrava os móveis. Por onde a jovem passava, ficava no ar um frescor, um perfume. E a velha bruxa tramava para sugar a juventude de Manu.

Mas o que era doce acabou-se. Com o tempo, a jovem foi envelhecendo rapidamente, enquanto a velha vampira rejuvenescia. Ela ganhava um ano por semana, enquanto ocorria o inverso com a velha.

Entretida naquele dia a dia, ela estranhava a velha que já não era mais velha, mas não dava muito importância. Certo dia, porém, ela se olhou num espelho mágico e ficou horrorizada. E gritou:

– Velha! Estou velha! Cadê você, Velha?

A velha rejuvenesceu tanto que sumiu para sempre. Já era!

Era uma vez uma velha…

Minibio: Japonês, em geral,/ é sério como o Raoni/ que detesta assédio./ Diferente é o Nagao/ que é um japa que ri:/ rir é melhor que o tédio.

Ele anda na linha, para na vírgula e desce no ponto final.

prestigie o blog: https://umcircodepercalcosfalsos.wordpress.com/2016/02/01/novelha-2/

 

 


 

 

CARNAVALÉRIO

 

Valério Oliveira é um dos mais originais poetas contemporâneo.

Seu livro “O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática” foi

recentemente lançado pela Editora Patuá, do Edu que adora Stella Artois.

A ironia é um artifício que ele usa porque acha que ela está desaparecendo

da literatura brasileira porque os leitores já não compreendem o seu sentido

duplo. Uma pequena mostra de sua arte literária:

Duplipensar

Entre/ o mau/ e o pior/ o piau é/ o melhor

 

Meus medinhos

Amo a poesia mas tenho medo/ dos poetas/

Amo a ciência mas tenho medo/ dos cientistas/

Amo a religião mas tenho medo/ dos religiosos/

Amo a política mas tenho muito medo/ um pavor

selvagem/ dos políticos/ de seus assessores/ de seus

militantes

 

Final feliz

Saio do cinema/ de mãos dadas/ comigo mesmo

 

 


 

 

Painho

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Com Fátima Costa, fiz a marchinha Painho, inspirada em Ivete Sangalo.

 

A letra:

Quem é essa aí, Painho?/ Quem é essa aí, Painho?/ cheia de trelelê/

É muito assunto, viu? É muito assunto, viu?/ Para com esse conversê!

Essa mulherada/ tá muito folgada/ só porque é carnaval/  Vê se te manca,

Pai,/ se não parar você vai/ ficar sem o seu bilau…

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

além do Nippak e www.nippak.com.br,também está na constelação do www.algoadizer.com.br.
E-mail: jlcnagao@uol.com.br
JORGE NAGAO

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    One Comment

    1. Manogao você é fera. O painho aqui tá ferrado, tem malido quem pode!

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