JORGE NAGAO: O domingão do Satoshi-san

 

A família Koga resolveu celebrar os 95 anos do patriarca num dia de inverno daquele ano que não teve frio, na Vila Carrão, zona leste da cidade de São Paulo.

Paulo Naoto foi o primeiro filho a aparecer. Era o churrasqueiro e veio com a esposa Benedita, Bené para os íntimos, e com os filhos Marçal Masao, Vitor Hayashi e a pequena Maria Saori Barbosa Koga. Deu um taco de beisebol ao pai que se emocionou pois se lembrou dos muitos troféus e medalhas que conquistou com este esporte.

Roberto Takao, o primogênito, chegou com sua nova companheira Shirley e os filhos do primeiro casamento João Akio e Celeste Megumi Harada Koga. Uma bela espada de samurai foi o presente que o pai ganhou. Celeste deu à avó uma cegonha de papel, o seu primeiro origami.

Depois surgiu a filha Marina Sachiko com o marido Franz e os filhos Theodor Osamu, Kristin Akemi e o pequeno Rolf Akinori Koga Blumenthal. Sachiko trouxe orquídeas que o velho pai tanto apreciava. Franz, que pagou o chopp e os refrigerantes, deu um abraço tão apertado no sogro que quase quebrou as costelas do frágil Satoshi-san.

Finalmente apareceu o caçula, o filho temporão Julio Minoru com sua esposa gaúcha Mirian e os filhos Edson Tsuneyoshi e a gracinha da Cecilia Junko Vasques Koga. Minoru trouxe uma cachaça Espírito de Minas e levou dois de seus amigos do conjunto musical Orientais do Samba do qual fazia parte. Mirian entregou ao sogro um dvd com músicas clássicas do Japão. Os netos pediram pra avó os cinco saquinhos de pano, as cinco Marias, o jogo de cinco pedrinhas.

Naoto, o churrasqueiro, botou som na caixa. E a voz de Zeca Pagodinho contagiou o ambiente “Pôxa, como foi bacana te encontrar de novo/ cantando um samba junto com meu povo/ você não sabe como eu acho bom…” Formaram-se os grupinhos: os homens discutiam futebol enquanto preparavam as caipirinhas; as mulheres comentavam a novela que parou o Brasil, a Avenida Brasil; os adolescentes jogavam pebolim; e as crianças corriam pelo quintal. Refestelados em seus sofás, os avós observavam felizes o movimento da casa que durante a semana era calmo e silencioso. Harumi puxou conversa com o marido:

– Satoshi, o que seria da nossa vida se não tivéssemos saído de Tupã, em 1955?

– Acho que estaríamos na roça até hoje. Viu, como eu tinha razão, hoje temos filho médico, um dentista, uma nutricionista e um funcionário do Banco do Brasil- justificou o patriarca.

– Lembra que a gente sabia poucas palavras em português mas tivemos que aprender na marra porque abrimos aquele mercadinho. Em compensação os nossos filhos só têm cara de japonês, não sabem falar quase nada de nihongo. – acrescentou ela.

– Até eu esqueci muitas palavras. Fazer o quê? Estamos no Brasil e tudo deu certo, não deu, Harumi?

– Sim, Satoshi-95! Desculpa eu falar mas eu acho que você já está ficando velho, né?

– Que nada! Velho, pra mim, é quem tem cinco anos mais do que eu- velha resposta que Harumi estava cansada de ouvir.

– Ah, é? Então eu estou novinha porque só tenho 90 – brincou a esposa.

– Vó, se a senhora está novinha, eu é que sou a velhinha? – perguntou a caçula Cecília Junko, a mais nova da família, que estava ouvindo a conversa.

– É, querida, você é mais velha porque tem 10, o vô tem 9.5 e eu tenho 9.0, não é verdade?

– ????

– Mentira, Cecília, isso é brincadeira desta velhinha que virou criança de novo. Agora, vamos brincar de arrumar a mesa? – e lá se foram elas rumo à cozinha.

Havia, no quintal, uma grande mesa com uma toalha vermelha e dois longos bancos típicos de uma autêntica festa japonesa. Em seguida, elas começaram a por os pratos, talheres, copos, guardanapos, enfim, essas coisinhas limpinhas que vão à mesa e depois voltam sujas para a pia ou para o lixeira. Logo, tudo estava pronto, os pães, molhos, saladas, sushi e sashimi, e o churrasco, claro. Quando o pessoal se preparava para degustar aquelas iguarias coloridas e saborosas, Takao, o primogênito, iniciou um discurso:

– Família, que legal encontrar todo mundo nesta data tão especial…

– Até eu apareci, Takao. Vim cumprimentar o meu amado sogro Satoshi e conhecer a sua periguete… – era a ressentida Fumiko, a primeira esposa dele que apareceu, de repente, para causar a maior saia justa.

A tranquilidade que dava o tom da festa, se dissipou. O clima ficou tenso. Takao perdeu o rebolado. Fumiko se aproveitou da situação e chutou o balde:

– Takao é um sacana. Eu devia tê-lo esquartejado como fez aquela loira mas não sou besta. Ficar na cadeia por causa de um sem-noção não é comigo. Ele vai pagar a minha pensão até ele ou eu morrer.

Julio, o temporão, para reverter a situação, gritou:

Viva o vovô!

– Viva! – gritaram todos, especialmente os mais novos.

– Chega de discurso – arrematou o filho temporão – vamos comer!

E todos riram, concordando com ele.

Quando todos se fartaram com aquela variedade de comida brasileira e japonesa, as mulheres foram lavar a louça enquanto os homens corriam pra frente da TV pois estava começando o clássico Corínthians x Palmeiras.

Satoshi-san, entretanto, foi ao seu quarto tirar um cochilo.

No fim do jogo, Harumi anunciou que era hora de cortar o bolo e pediu pro neto Rolf Akinori chamar o avô.

– O vô não quer acordar! – anunciou o neto, minutos depois.

Harumi e Naoto correram para o quarto. E confirmou-se o que eles tanto temiam. O bravo samurai Satoshi-san que estava bastante debilitado partiu no fim da tarde daquele domingo tão especial. Alguém se lembrou de desligar a televisão porque certamente aquele domingão não era do Faustão.

 

 

*Jorge Nagao,  além do Nippak e www.portalnikkei.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

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