JORGE NAGAO: O futuro do bebê

(crônica publicada no jornaleco-lógico Na Moita da AgCen-BB, EM JULHO DE 1991)

 

Regina, exausta, chega em casa numa 6ª.feira, último dia de trabalho antes da vinda do seu primeiro filho. Deita-se no sofá da sala e acariciando a imensa barriga, murmura:

– A vida não tá fácil: o salário, uma miséria, as contas pra pagar, um sufoco; no serviço, a maior tensão;  mas pelo menos, para amenizar a barra, vou ter você filhinho querido…

– Tsk… tsk… tsk…

– Ué, quem fez esse barulho? Estou só em casa. Será que estou delirando? Ah, já sei deve ser o meu estômago igual aquele comercial. Você quer uma sopinha, estômago?

– Não tô com fome. Só quero dizer que não quero sair daqui.

– Ah, é você, fofinho! Falando antes de nascer? Que precoce!

– Falando e ouvindo todas as suas queixas do banco, do supermercado, do salário defasado, da greve, do TST e do escambau!

– Meu Deus! Nem nasceu e já é do PT!

– Só saio daqui quando acabar esse baixo astral, esse baixo salário, essa baixaria que qualquer “baixinho” percebe.

– Mas, filhinho, sei que você é um menino porque o Dr. Jair me contou, e disse também que você vai nascer neste mês. Sua data-base é julho.

– Pois deveria ser setembro. Quem mandou vocês serem afoitos. Além de abusadinhos, são apressadinhos. Agora, pode esperar sentada.

– Esperar mais? 9 meses já não é demais? E seus avós que nem dormem mais esperando o primeiro netinho? O que vou falar aos amigos, parentes, vizinhos?

– Só vou sair quando sair a reposição salarial que estou ouvindo há meses, os 40% da equiparação com o Bacen ou o pagamento dos 3% da ação de 1974 y otras cositas más.

E bota cositas más nisso!

– My God! Será que ele é a reencarnação do Prestes, prestes a nascer e se recusa.?

– Quero saber uma coisa: eu vou ter um quarto só pra mim?

– Não, mas quem sabe no ano que vem…

– Tá vendo só? Você vive falando que o Banco está pagando um quarto do que você ganhava etc. etc. agora um quarto pro papai, digo, neném aqui, nem pensar, né?

– Filhinho, seja razoável, o seu nascimento vai nos trazer tanta alegria que todo esse baixo astral vai sumir. Eu te prometo.

– Vai piorar, isso sim. As fraldas estão caríssimas, os pediatras cobrando uma fortuna, e o preço das roupinhas nem se fala. Vocês que já estão afundados no cheque-ourocard como é que vão

ficar? Falidos e mal pagos, certo?

– Filhinho, não me torure. Seja mais soft. Eu posso passar mal…

– Se você passar mal, não me importo. Mas se cozinhar mal… E tem mais, se não quiser me esperar, paciência. Arrumo uma barriga de aluguel porque liquidez é o que não me falta.

– Chega, seu pirralhinho! Eu, como mãe, não estou gostando de sua atitude. Caso você não nasça até amanhã, vou publicar…

– Calma, Dona Lafaiete!

– … uma convocação no jornal exigindo o seu comparecimento porque você, apesar de ser meu maior patrimônio, abusou…

– Pode publicar. Nem sei meu nome. Aliás, pode me chamar de Setembrino. Você sabe o porquê.

– Não acredito. Não! Não! Não!

 

 


 

 

– Querida, acorde! Que houve? Acabei de chegar e vi você falando e se remexendo durante o sonho. Será que o filhinho está chegando?

– Tsk… tsk… tsk…

– Que você disse?
– Nada. Deve ser o meu estômago pedindo uma sopinha…

(A Busado da Silva)

 

 

O prazo do concurso de crônicas Itadakimasu 2!  se encerrará no sábado,

dia 30/9. Bora finalizar a crônica e brilhar no discovernikkei.org.

Tudo sobre o concurso, neste link: http://www.discovernikkei.org/pt/journal/chronicles/itadakimasu2/

Boa sorte!

 

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

além do Nippak e www.nippak.com.br,também está na constelação do www.algoadizer.com.br.
E-mail: jlcnagao@uol.com.br
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