JORGE NAGAO: Omelegg

 

 

– O João vem almoçar com a gente – anunciou Luís, meu filho – e, lá pelas duas, vamos jogar bola.
Bom, pensei, se vão jogar às duas, devem almoçar por volta de meio-dia e meia para fazer a digestão, antes de encarar a fome de bola. Ao meio-dia, fui preparar el rango. Liguei o radinho para ouvir as últimas da Copa, na cozinha, na véspera daquele fatídico 7 a 1. Para fugir dessa realidade doida e doída, curto futebol, principal assunto para comentar com o porteiro, com um vizinho e também com um desconhecido.

Voltando à cozinha, cozinhar, pra mim, é uma terapia. Ter a pia para preparar os pratos, cortar os ingredientes, essas coisas. Falando assim, não pense que sou um gourmet ou gourmand, muito pelo contrário, sou um cozinheiro de um prato só: omelegg. Explico: percebi que, toda semana, alimentos perecíveis como ovos, frios e verduras, tornavam-se impróprios para o consumo. Passei, então, a juntá-los e o resultado não foi bom mas fui me aprimorando nesse processo de omeletização e, hoje, até recebo alguns elogios. Para dar liga a esses comestíveis, adicionei o queijo ralado. Hoje, coloco um pouco de leite, dica da Doce Mãe, Fernanda Montenegro, pra omelete ficar mais macia.

Meia hora depois, estavam prontas duas omeletes porque os atletas batem um bolão com um garfo na mão, além disso tinha bife temperado e uma linguiça fininha fácil de temperar. Assim como o ferro, o tempo passa e nada do João chegar. Às 13h, JP, o João Pedro, ligou dizendo que chegaria depois das 14h, horário previsto do jogo. A pontualidade, definitivamente, não é o forte dele. Faminto, almocei sozinho. Eles que se virassem depois.

Depois do almoço solitário, hora do pior. Lavar aquela montanha de panelas, frigideiras e talheres usados para preparar o almoço. Em casa, não tem essa história de “sujar é com eles, lavar é que são elas”, é o Degas aqui que lava a louça todo dia, que agonia! Quando o João chegou, eu estava saindo para o tão aguardado atelier de Literatura, onde o pessoal é todo prosa e cronicamente viável.

Como se sabe, não é possível fazer omelete sem quebrar ovos. Para escrever este texto tive que quebrar a cabeça. Um homeless degustaria meu omelete, quanto a este Omelegg, se lhe desagradou, compreendo. São os ovos do ofício.

 

 
===================================================================

 

 

 

Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

 

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

JORGE NAGAO: Carrtunistas Nikkeis Mesmo sem desenhar bem, talvez seja eu, desculpe a imodéstia, o cartunista nikkei mais premiado do país, ainda. (Adoraria ser contestado). Graças ...
SILVIO SANO: Agora a Copa de 1962   Prezados, Antes de tudo grato pelo prestígio das visitas aos vídeos anteriores. Com poucos dias já tenho registrado mais de 150 visitas p...
CANTO DO BACURI > Mari Satake: A prática Criança, ela via um livro que havia em sua casa e com muito cuidado, ficava olhando aquelas páginas meio amareladas com as letras pretas e os desenhos...
MUNDO VIRTUAL: Crimes contra a honra em redes soc... Vivemos época em que os recursos tecnológicos cada vez mais ocupam espaço em nossa vida cotidiana, e muitas vezes nos tornamos dependentes deles; a gr...

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *