JORGE NAGAO: Por que há poucos nikkeis em nosso futebol?

 

Kaneco,Sergio Echigo e China (Ademir Ueta) com seu filho Rafael (FOTO: divulgação)

 

Nos anos 60, perto da Ponte Rasa, zona leste paulistana, onde também viveu alguns anos o jornalista santista Odir Cunha, tinha algumas famílias japonesas. Pois em nossa vila, volta e meia fazíamos um confronto Brasileiros X Japoneses. E olhe que eram jogos pau-a-pau, no bom sentido.

Se já naquela época, nós nipo-brasileiros levávamos jeito para boleiros, por que somos tão poucos no futebol profissional? Meu amigo Shiguewara tem uma resposta/tese polêmica: porque fomos vítimas do preconceito ou assédio moral. Passei por isso, confessa, triste. Trocando em miúdos, sem duplo sentido, corre à boca pequena que o órgão sexual dos orientais têm dimensões inferiores, uns milímetros, em relação às demais raças. Mas aí o povo aumenta, quer dizer, diminui o negócio e a coisa vira lenda. Ademais tamanho não é documento, diria o anão Dunga. Isso, especialmente no Brasil, vira  motivo óbvio para nos sacanear, afirma ele, que ouviu  no vestiário, pós jogo.

– Ô japonês, o seu futebol é grande, mas o seu bilau, ó!

Os risos gerais acabaram comigo, lembra Shiguewara. Frases desse tipo afastaram os nikkeis dos gramados. Como evitar o chuveiro depois dos jogos para não ouvir a recorrente piadinha? Se não tomasse banho, o jogador ganharia o apelido de Cascão ou Porco. Pedir para sair no meio do jogo ou provocar a expulsão para ir pro chuveiro mais cedo seria um harakiri na carreira.

Poucos resistiram à gozação. Caso tivessem um negocinho acima da média logo ganhavam o simpático apelido de Kasoharu, caso raro, para ser mais explícito. Muitos preferiram jogar no Japão porque lá dos males esse era o menor. Com a miscigenação em alta, a tendência é que os mestiços, sem vergonha em relação a isso, mostrem o futebol reprimido por várias gerações.

Roberto Rivelino conta a história do “elástico”, o drible desconcertante que o consagrou. Em 1964, o Sérgio Echigo fez a jogada e eu perguntei: ‘Que drible é esse?’ Ele me ensinou e brinca comigo até hoje: ‘Eu inventei e você aperfeiçoou’.

Kaneco (Alexandre de Carvalho Kaneco) era ponta-direita e bom jogador do Santos FC. Ele inventou a “carretilha ou lambreta”, ao dar um lençol junto à linha de fundo sobre o zagueiro Carlucci, do Botafogo de Ribeirão Preto, no Campeonato Paulista de 1968, jogada muito reprisada pois resultou num gol  do Toninho Guerreiro.

Outro nikkei que teve destaque no futebol brasileiro foi o ex-meia Ademir Ueta, o China, que era da base do Palmeiras, informa o jornalista Matheus Trunk. Estreou com a camisa alviverde contra o Estudiantes da Argentina, pela Libertadores de 68, quando o time paulista acabou com o vice-campeonato. Jogou com Djalma Santos, Djalma Dias, Ademir da Guia, Dudu e Servílio. “Era difícil se firmar num time com tantos grandes jogadores. Em 1978, Ueta atuava pelo Aliança de São Bernardo do Campo, quando surgiu uma proposta do Marítimo, de Portugal. China transferiu-se e permaneceu no clube da Ilha da Madeira por duas temporadas. “Foram dois anos ótimos em todos os sentidos.No segundo ano lá, chegamos às semifinais da Taça de Portugal e tiramos o título nacional do Benfica”, recorda emocionado.

Bastam esses exemplos para perceber a contribuição dos nikkeis para o nosso futebol mesmo com essas restrições. Para piorar as coisas, Mané Garrincha, um gênio do futebol, nasceu em Pau Grande-RJ. Para acabar com o complexo de inferioridade, a sugestão de Shiguewara seria criar uma comunidade futebolística japonesa na terra natal de Garrincha. Os nikkeis que lá jogassem logo seriam conhecidos como japoneses de Pau Grande-RJ e ainda poderiam se inspirar no futebol do Mané. Em Pau Grande-RJ, faremos uma revolução, assegura Shiguewara. Vamos matar a cobra e mostrar o futebol como é que é. Em pouco tempo, Kasoharu FC cederá seus yellow boys para honrar a camisa amarela da nossa Seleção. Quem viver verá!

 

 

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Jorge Nagao

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One Comment

  1. Nagao, nunca tinha ouvido ou lido esta explicação – o tamanho do bilau – para o fato de haver tão poucos nisseis no futebol brasileiro. Mas pode ser, sim. O ambiente entre os jogadores pode ser cruel. Fiquei contente de ser citado nesse seu artigo. Realmente, morei dos dois aos quatro anos na Ponte Rasa, onde também vivia minha avó Isaura, alguns tios e, entre eles, o tio Everaldo, ou Verinho, responsável por eu ter virado santista e ter ficado muito feliz com a lambreta que o Kaneco aplicou no zagueiro do Botafogo, naqueles 11 a 0. Forte abraço, meu caro!

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