JORGE NAGAO: Previdência e Narayama

 

Temer quer, na marra, aprovar a reforma da Previdência. Mesmo com a pesquisa Datafolha de 6/12/17 constatando que a população considera o Congresso 60% ruim e péssimo. Ele, o temeroso, é aprovado por apenas 5% dos brasucas.

A reforma já estaria aprovadase ele não fosse acusado de receber R$500 mil numa mala e ele ficou o semestre todo se defendendo, paralisando o congresso. A bem da verdade, esses odiados deputados e senadores aprovaram a terceirização e a reforma trapalhista que prejudicaram muito o trabalhador e diminuiu muito pouco o desemprego.

Um fato histórico sobre a tentativa de reformar a previdência, em 1998, vem sendo relembrado, lamentado por coxinhas e causando risos na oposição. Naquele ano, FHC, que se aposentou aos 37 anos pela USP, propôs a idade mínima de 60 anos para pendurar o paletó. A aprovação estava dada como certa mas eis que o tucano Antonio Kandir se atrapalhou todo e votou contra o governo, pondo tudo a perder.

Não sei porque associo essa reforma ao filme Balada de Narayama, de Keisuke Kinoshita, de 1983. Os protagonistas são Sumiko Sakamoto(Orin) e seu filho Ken Ogata (Tatsuei).O filme retrata um povoado japonês nos tempos feudais em que a luta pela sobrevivência levava até ao sacrifício de idosos e recém-nascidos.

Orin, com 69 anos, apesar de saudável, sabia que quando completasse 70 anos seria considerada inútil e portanto seria levada ao alto da montanha e abandonada pelo filho. Essa tradição “de morte” é incompreensível para nós, hoje, mas em caso de não-cumprimento de subir Narayama trazia desgraça à família toda.

Balada de Narayama remonta à ideia do Monte Deus Narayama, receptador dos septuagenários. A morte seria acalentada pelo Deus Narayama.

O drama é forte, com requintes de crueldade. Imagine  o filho levando a mãe nas costas, a neve caindo, dezenas de esqueletos na beira do caminho e uma porção de urubus acompanhando o filho e a mãe. É de arrepiar. Mesmo assim é imperdível, melhor filme em Cannes.

Voltando à reforma da Previdência, se ela passar, a situação dos nossos velhinhos irá de mal a pior. O sonho de aposentar para pescar de papo pro ar, vai virar pesadelo.

Se sobreviver depois de trabalhar muito, terá poucos anos na velhice com a saúde muitas vezes comprometida. Eles não serão abandonados pelos filhos como na Balada mas certamente terão uma montanha de dificuldades e com a saúde aBalada.

Mas não creio que o governo conseguirá os 308 votos necessários para aprovar a reforma. Estamos a menos de um das eleições e os congressistas não vão querer a boquinha federal votando contra o povo.

Adeus ano velho e boa sorte aos velhinhos!

 

JORGE NAGAO

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