JORGE NAGAO: Sobre Nomes Japoneses

 

Os nomes e sobrenomes japoneses, até hoje, causam estranhamento aos ouvidos dos ocidentais. Por conta disso, nossos pais, avós e bisavós, cedo adotaram nomes brasileiros diante da dificuldade deles  para pronunciar nomes como Tsuemon, Hiroyuki ou Yoshikumi. E muitos passaram a registrar os filhos com nomes brasileiros. E tem aquela história do pioneiro que pediu sugestões de nomes brasileiros para o seu filho, ao cartorário.

– Sugiro Antonio, João, Luiz ou Francisco – respondeu o funcionário, mencionando os nomes mais comuns.

– Gostei do Sugiro. Pode por Sugiro Mitio Nishimura. Muito Obrigado- agradeceu o pai feliz diante da cara embasbacada do rapaz.

Mesmo não vivendo na comunidade nipônica, conheço algumas histórias, digamos, interessantes. Como a da Fumiko, que significa filha da beleza, que era alvo de piadas na agência bancária em que trabalhávamos. Ela não suportou o bullying e, quando mudou de agência, aproveitou e trocou também de nome. Quando a reencontrei, anos depois, ela tinha um nome inglês e um sobrenome espanhol que recebeu do marido.

S.I., meu amigo desde sempre, nos anos 70, se apresentou ao novo chefe.

– Como é o seu nome?

– Sigueru Ietsugu. – informou ele.

– Como?- indagou o chefe.

– Sigueru Ietsugu. – repetiu, em vão.

– Chii… vamos te chamar de Paulo, tá legal?!

O Sigueru que deveria ser Shigeru, concordou. Como o Aquiles, irmão do Sussa, que deveria se chamar Akira.

A atriz Irene Ravachi contou pro Jô Soares que sempre fazia compras numa loja de uma japonesa e, um dia, resolveu perguntar o nome dela. Ouviu, memorizou, e, disse, na despedida:

– Tchau, Sharássua!

– Irene, meu nome também é Irene, sou xará sua! – esclareceu a nikkei.

Todo nikkei tem uma história engraçada ou constrangedora por causa do seu nome. Nomes femininos terminados em “o”, por exemplo, são saudados nas correspondências com “Prezado Senhor Masako”, por exemplo. Meu sobrenome costuma ser alterado para Nagão, Vagão e até Vagao. A ideia desta crônica nasceu na semana passada quando eu estava na sala de espera dessas clínicas de diagnósticos. Agoniado, depois de tomar seis copos de água, aguardava o exame de ultrassom que estava atrasado mais de dez minutos. Até que ouvi:

– Jorge… gão!

Caminhei pelo extenso corredor e as pessoas riam pra mim ou, melhor/pior, de mim.  Encontrei a atendente que ainda ria e perguntei-lhe o motivo do riso.

– Chamei o senhor de Jorge Negão, me desculpe. – justificou a morena que talvez estivesse pensando no seu namorado.

Há alguns anos, numa clínica em Santana, a secretária me perguntou se eu era o Jorge Aragão.

– Não- respondi- só me pareço um pouco com ele…

105 anos depois da chegada do Kasatu Maru, muita coisa mudou. Enquanto os olhos dos novos nikkeis ficaram menos amendoados e os cabelos menos lisos, os sobrenomes deles se globalizaram ou se babelizaram. Os nomes dos novos nikkeis são bem brasileiros, os sobrenomes, no entanto, são bem variados: portugueses, espanhóis, italianos e até alemães, além de japoneses, é claro. Ainda há os que torcem o nariz contra a miscigenação, mas, a essas alturas, ela é irreversível porque ninguém manda no coração de ninguém. A fila anda, gente.

Antigamente, os nomes japoneses estavam restritos a áreas específicas como engenharia, agricultura, odontologia e esportes como judô e beisebol. Hoje, com a integração total com a cultura brasileira, os ex-tímidos nikkeis estão brilhando em todas as áreas profissionais e culturais, só não vê quem não quer. Ao mesmo tempo, surpreende quantos brasileiros e brasileiras, Sarney, estudam nihongo e se interessam muito pela cultura japonesa.

Recentemente, fui apresentado como escritor a outro sócio do clube, que se espantou:- Ué, um japonês que escreve?!

Pois é, a gente escreve (Oscar Nakasato), pinta(Erica Mizutani), interpreta (Sabrina Sato), canta (Fernanda Takai), enfim, a gente pinta e borda, e o que vier a gente traça, não é mesmo, Silvio Sano?

 

 

Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

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2 Comments

  1. Nagao, o tal aí Sigueru Ietsugu, corretamente chamado de Shigueru, já foi chamado de nomes mais interessantes ainda, tal qual, a Siqueira, sim porque ele parece muito um português e também de Chileno! hahahaha

  2. As histórias que contou são lights. Cito sobrenomes que seriam, digamos, constrangedores e poderiam causar problemas. Imaginem esses nomes.

    Paulo Tadano
    Maria Sumida
    Sonia Kubota
    Julio Kagayama
    Sabrina Kuda
    Jonas Kudo

    e assim vai.

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