JORGE NAGAO: TANKA, O PAI DO HAICAI

O tanka dominou a poesia oriental até o séc.17 quando Matsuo Bashô baixou/ excluiu sua segunda estrofe, 7-7,  e criou o haicai que haicaiu no gosto dos leitores e poetas.

Tanka significa poema curto: tan – curto e ka – poesia. Tem 31 versos (5-7-5-7-7). Muito popular no Japão, o tanka demorou para chegar ao Brasil.

 

Gadelha, o/a cara do tanka, e a capa de seu primeiro livro.

 

Quem resgatou o tanka foi Raimundo Gadelha. Ele conta que, em 1985,  estava esperando para embarcar para o Japão quando  resolveu folhear um livro. A obra que mudou a vida dele era  Takobuku Ishikawa-Tankas (Roswitha Kemft Editores, 1985) que ganhara de presente de Shinichiro Kai, Vice-Cônsul do Japão em Belém do  Pará, cidade onde residia desde 1976. Identificou-se imediatamente com o tanka. Leu e releu o livro durante o vôo.

” Logo veio a ideia de me impor o desafio: publicar um livro de tankas escritos em português. E sendo também fotógrafo, produziria imagens para ilustrá-los. Passei a ler tudo sobre tanka e ter sempre comigo  meu equipamento fotográfico, uma caneta e um bloco de anotações. Nos trens, estações de metrô, restaurantes, bares e nas salas de aula eu estava sempre escrevendo ou fazendo anotações para os meus tankas.

Encantado com o gênero,  constatei as diferentes vertentes do processo criativo. Muitas vezes o poema surgia do meu testemunho de um fato da minha rotina diária. Em outras, da observação da natureza. Passei a trabalhar com as lembranças da infância, minhas raízes nordestinas, provocando a harmoniosa união de mundos tão distintos: o moderno Japão e o árido sertão do nordeste brasileiro que, durante tanto tempo me acolheu.

Também merece registro o surgimento dos meus tankas: ora eu escrevia primeiro o poema; ora a imagem era captada antes e servia de “inspiração” para o tanka e, algumas vezes,  poema e foto vinham praticamente juntos.

Usando o Japão como base, após o término do meu curso, viajei pela Ásia, Europa e América do Norte, sempre escrevendo e fotografando. Estive em mais de quarenta países e de cada um deles tenho momentos inesquecíveis, gravados em tankas e imagens.

Em 1989, conheci Massao Ohno que publicou, em edição bilíngue, Um estreito chamado horizonte, o primeiro livro de tankas escrito, originariamente, em língua portuguesa e publicado no Brasil. Esse trabalho foi importante a difusão do tanka no Brasil, hoje com inúmeros leitores e poetas dedicados ao gênero. Se são escassas as publicações em livros, nas redes sociais o tanka se torna cada vez mais conhecido e praticado.

Depois do meu segundo livro, Aqui e além do horizonte, passei a postar nas redes sociais pelo menos dois tankas por dia. Às vezes, percebo o que o tanka já nasce com a métrica correta, sem precisar uma única sílaba. Acho que desenvolvi uma técnica de já “pensar ou sentir” o poema em 5-7-5-7-7 sílabas. “Sendas do Horizonte”, meu terceiro livro, foi publicado há dois anos. As dobras do horizonte, que será publicado até maio desse ano, fechará a série de quatro volumes” – conta o cara do tanka.

Estes livros podem ser adquiridos no site www.escrituras.com.br, do próprio Gadelha. Por tudo isso, só posso te dizer uma coisa: Tanka you, Gadelha! Recebo todo dia um tanka dele e compartilho com vocês. Curta a grandeza da poesia curta de Raimundo Gadelha.

 

A de hoje:

 

Mesmo que você

sinta-se síntese,

serei prolixo…

Eu preciso perder-me

em cada sutileza.

 

 

De 6a, sáb. e dom. passado


Tocado eu sou

pela bela paisagem…

Uma leve brisa,

em sua breve passagem,

traz e leva emoções.

 

        

À beira do rio,

o barco soçobrado

vira brinquedo

São ferozes piratas

os meninos sem medo,

 

 

O sangue manchou

o pequeno poema

Intenso amor…

No centro da arena,

o touro foge de si.

 

 

JORGE NAGAO

JORGE NAGAO

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