JORGE NAGAO: Tomando a Liberdade

Liberdade ou Gambarê, filme de José Carlos Lage, de 2005, depois do cinema,  foi exibido na TV Cultura. Há cerca de um mês, esteve na programação do canal Curta, 56 da Net, e tive oportunidade de assistí-lo. Quem não viu, fique de olho porque pode haver reprise nas próximas semanas.

O bairro da Liberdade é um espaço privilegiado na cidade São Paulo, bem próximo do Centro. O padre José  Enes de Jesus explica, no filme,  que a atual praça da Liberdade era o Largo da Forca onde os condenados e escravos fugitivos tinham o seu fim.  Prova deste fato histórico é a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados que fica na praça. O cemitério ficava no quarteirão abaixo, ou seja,  era uma área rejeitada pelos  brasileiros que não queriam ter imóveis naquele lugar tenebroso. Os japoneses, talvez por desconhecer a história do bairro, chegaram e foram ocupando o bairro com pensões e pequenos comércios  e assim tomaram a liberdade de tomar a Liberdade.  Esta Liberdade porém durou pouco. O governo Getúlio Vargas, a partir de 1934 passou a retaliar os imigrantes dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Em 1942, os japoneses foram expulsos do bairro considerado área de segurança nacional. Escolas de Nihongo foram fechadas, o terror se estendeu até o fim da guerra e até um pouco depois, quando retomaram a Liberdade a partir da rua Galvão Bueno.

Durante um ritual budista, o colunista do Nippak  e monge Francisco Handa, do templo budista Busshinji, explica tratar-se do Nehan, cerimônia do “parinirvana” de Buda, de seu falecimento, que nos ensina sobre a transitoriedade da vida. Noutro momento, ele, falando agora como historiador, declara que os japoneses que mudaram para a rua Conde de Sarzedas, na Liberdade,  eram chamados de vagabundos pelos que permaneceram nas colheitas de café, pois era a missão da imigração, um compromisso com o Imperador. Teiichi Haga, nissei que nasceu e morou naquela rua lembra que havia uma escola para nisseis onde se aprendia os dois idiomas. Lembra com saudades como era “jóia” os cinemas do bairro como o Niterói e o  Nippon que exibiam filmes japoneses. Muitos intelectuais brasileiros se encontravam nestes cinemas e curtiram muito as películas japonesas. Shizue Arai, dona de uma farmácia na Galvão Bueno, é testumunha das filas imensas que se formavam no cine Niterói, aberto em 1953. Alexandre Kishimoto publicou, recentemente, o livro Cinema Japonês na Liberdade, editora Estação Liberdade, claro.

Raul Kodama narra sua participação na Guerra, como cabo da FEB,  distribuía munição, mas feriu-se e ficou neurótico por presenciar os horrores da guerra . Voltou como herói mas  constatou que   a guerra continuava  entre os japoneses que não acreditavam na derrota do Japão na guerra e massacravam os derrotistas, que se conformaram depois que souberam da devastação das bombas atômicas.

A historiadora Celia Oi conta que, após a guerra, muitos imigrantes  venderam seus bens  e trocaram por yenes e foram para Santos esperar o navio que os levariam de volta ao Japão. E ficaram a ver navios, claro, pois isso não aconteceu. Ela conta outro confronto, no final dos anos 50, entre nisseis e os novos imigrantes japoneses que vieram tentar a sorte no Brasil. A criação do bairro oriental depois dos esforços de Mituo Mizumoto, então presidente dos lojistas Liberdade, arrefeceu o embate, pois todos seriam beneficiados depois que o bairro se tornou uma grande atração turística paulistana.

A inauguração da estação Liberdade em fevereiro de 1975 inicia uma nova era do bairro. A comida japonesa passa a ser muito apreciada pelos brasileiros e se expandiu para os outros bairros. Depois de muitas adversidades, Raul Kodama, no fim do filme, admite que tudo valeu a pena:

-No fim, você vê, tenho casa, não devo nada a ninguém. Tenho dois filhos engenheiros e agora, em vez de eu dar algum pra eles, eles, às vezes, dão algum pra mim. Como, durmo, jogo baralho, viajo e passeio… tá bom, né?

É isso aí, toca Raul, a vida é bela!

 

 

 

===========================================================

 

 

Jorge Nagao

além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

ERIKA TAMURA: O retorno ao Brasil  Faz um tempo que decidi retornar definitivamente ao Brasil, os motivos não são únicos e vão desde o lado emocional ao profissional. No início, tom...
MUNDO VIRTUAL: Armazenamento de dados em condomíni... Nos dias atuais, em nome da praticidade e da segurança, os condomínios passaram a implantar a informatização nas portarias de acesso, garagens e áreas...
LINS/SP: Mãe do Ano da ABCEL – Bunkyo de Lins   No ágape de domingo, Setsuko Utiyama recebeu o diploma de honra ao mérito pelos seus serviços prestados à comunidade nesses longos anos. Foi...
AKIRA SAITO: Equilíbrio I “Todo ser humano só se tornará completo quando atingir o equilíbrio entre Corpo, Mente e Espírito”. Apesar de a maioria das pessoas terem ciência s...

One Comment

  1. Confesso, Alexandre Kishimoto,que o seu artigo com a sua mestre Rose Hikigi, que recomendo aos cinéfilos nikkeis ou não, me auxiliou na elaboração do texto. Obrigato^Abraço.

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *