JORGE NAGAO: Túnel do Tempo

 

Chegou a temida correspondência do Leão. Ante surpresa tão rude não sei como pude abrir aquele envelope de plástico. Eleão me enquadrava no artigo tal, inciso y, enfim, recebi uma cobrança suplementar, com multa de ofício e juros de mora. Uma mordida pra lá de dolorida. Ai!

No dia seguinte, fui à delegacia da Receita disposto a provar que houvera um engano e levei cópia da declacadora retifiração, digo, declaração retificadora. O fiscal verificou e nada constava. Se o senhor não informou o número do recibo, então nada feito – explicou o servidor. E era irrecorrível uma vez que a notificação fora emitida. Ele imprimiu o DARF e mo (tá certo, mesTrevisan?) entregou desejando um bom dia.

– Não vai ser um bom dia – respondi, ironica e mal-educadamente- pois esperava uma bolada como restituição mas levei uma bolada, não vou dizer onde, como se estivesse na praia.

Fui ao banco e tinha outra preocupação: escrever ainda naquele dia uma crônica. No BB, encontrei Miguelzinho, o último dos moicolegas dos velhos tempos. No elevador, senti que estava na máquina do tempo, saí dele trinta e tantos anos mais jovem, ao retornar ao lugar onde trabalhei décadas atrás. Quantas vezes aquele elevador me elevou assim como me deixou no planeta térreo. No primeiro andar, os bons tempos ali passados voltaram nitidamente. Lembrei do Sun, Shinki, Dora e Waldemar, na bateria dos caixas. Nostálgico, contemplei aquele canto da esquina da Paulista com a Augusta, onde trabalhei com o Sussa e as Sonias Souza e Oliveira. No meio da seção, Liane, Célia Sadako, Toledo e Lauro, e parece que via o Leomar passando e mexendo com o Miya. Trabalhava-se muito mas divertia-se ainda mais como o jornalzinho “Paupite” graciosamente registrou. (Shigueyuki, o meu padrinho no Nippak, também trabalhou nesse prédio mas noutro andar). “A Praça”, do Ronnie Von, veio à mente, em forma de paródia:  O tempo passa / restou o Banco / foram-se as flores /não tem mais jardim / Nada é igual / mas estou triste / Pois Roseli partiu assim, assim…?

Tantas lembranças me fizeram esquecer da lambança com o Leão. Na saída do edifício, calouros da USP numa campanha cervejística pediram uma colaboração; algumas moedas motivaram gritinhos juvenis. Lembrei-me dos tempos uspianos naquela Abertura lenta, gradual e insegura. Parei numa superbanca e reconheci o mesmo rapaz que me atendia, agora de cabelos brancos, e comentei que, nos anos 80, comprava ali o Jornal do Brasil. E a Tribuna de Imprensa também, acrescentou ele. Jornaleiros têm boa memória. Curtia muito Drummond, Millôr e Ziraldo no JB e as denúncias de Helio Fernandes, irmão de Millôr, na Tribuna, que publicava saborosas crônicas de Marcos Vasconcelos.

De volta pro aconchego do lar, mais uma recordação: o aniversário de casamento que ocorreu simultaneamente ao lançamento do Plano Cruzado, em 1986. Dilson Funaro, o ministro da Fazenda, congelou salários e preços de produtos e serviços. Inicialmente teve apoio popular, todo mundo era “fiscal do Sarney”, mas os produtores insatisfeitos não atendiam à demanda e os consumidores passaram a conviver com o desabastecimento nos supermercados e má qualidade de produtos. O governo cedeu e passou a descongelar os preços e a inflação voltou. Em 1987, veio o Plano Bresser que também não vingou. Em 1990, veio o doido da casa da Dinda que confiscou o dindin de todo mundo. Caiu tarde porque o povo levou dois anos para aprender a falar a palavra impeachment. Em 1994, no governo Itamar Franco, caímos no Real que deu tão certo que elegeu e reelegeu FHC mas, oito anos depois, terminou em apagão e na vitória de Lula. O cara, segundo Obama, depois de dois mandatos, saiu aprovado por quase 80% da população e fez a sucessora. Dilma vai bem, obrigado, e assegura que, até o fim de seu mandato, o Brasil acabará com a miséria. Assim, de lembrança em lembrança, saímos dos anos 70 e chegamos até hoje, um dia memorável porque inspirou esta crônica.

 

 

*Jorge Nagao,  além do Nippak e www.portalnikkei.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

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3 Comments

  1. Espero ter tão boas lembranças quanto as suas visto que minha geração se encontra numa espiral descendente rumo ao abismo sem fim.

  2. Muito legal,Nagao,já estou me vendo no caixa do BB com aquelas filas homéricas,mas cercada de muitos amigos.
    Que saudades Nagao!
    Beijos
    Dora Olivetti
    do.olivetti@uol.com.br

  3. Lendo o seu post viajei até os anos 70 e revi a “nossa” Ag.Avenida Paulista, aquela cheia de gente e de vida…hoje tão fria! Obrigada pelo seu texto! Forte Abraço.
    Sonia Souza
    smsouza@terra.com.br

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