JORGE NAGAO: Turista sem noção

 

Sou Dilson, brasileiro, moro e trabalho há oito anos em Paris. Louvre, Eiffel, Catedral, Cafe de Flore, Arco do Triunfo… Putz, que Paris!, diria o Mussum. No começo, ficava entusiasmado quando encontrava os meus patrícios. A saudade da terrinha era tamanha que reencontrá-los me fazia um bem danado. Hoje, mantenho distância deles.

Há uns três anos, comecei a trabalhar neste hotel que recebe muitas excursões do patropi. No início, revelava a minha origem e os ajudava mas, com o tempo, a ingratidão foi tanta que agora fico na minha. Só falo em Francês e Inglês e quando algum brasileiro pergunta sobre minha origem, digo, cinicamente, que sou indiano. Minha pele morena engana a maioria mas sempre tem algum desconfiado que afirma: – Dilson, você é brasileiro! Limito-me a sorrir.

Cansei desse tipo de turista que dá férias ao cérebro quando viaja. O tico e o teco não se entendem. Não sabe de nada. Pergunta tudo, em Português. E que Português estranho: é nóis! Vamoqvamo, fui! e aê, beleza? Só os palavrões, presentes em cada porra de frase, são os mesmos. Ele não sabe ligar a luz, nem a TV, desconhece como regula o chuveiro. Coitada da recepcionista que tem que explicar tudo.  A camareira reclama que ele espalha calça, cueca e até camisinha pela cama. O banheiro é um festival de barbaridades: toalhas pelo chão molhado, papel fora do cesto, e a pia, meu Deus, tem cabelo, pasta caída, pote aberto y otras surpresas diárias. As malas, ah, as malas, ficam bem trancadas como se a pobre moça fosse roubar aquelas bugigangas baratas.  Aliás, ele é o rei das malas, bolsas e sacolas, parece que o Brasil vai bem. Pelo menos para esse tipo que vem pra cá e gasta horrores mas não deixa uma moedinha sequer quando sai.

No breakfast, fala alto, gargalha por nada, se empanturra e ainda leva alguma coisa embrulhada no guardanapo. Passa pela recepção cantando num idioma bizarro: berê, berê, berê, pará, pará, pará. Que saudade de Orestes Barbosa que escreveu “tu pisavas nos astros distraída…”. Ah, como empobreceu a MPB!

Os guias reclamam desse turista folgado cujo atraso estraga a viagem dos demais. A impontualidade é altamente condenável, mas ele se apresenta com aquela cara de “tÃ? pagando”. Mico, com certeza. Tem vindo muitos brasileiros cuja grana é sempre bem-vinda. Mas por que eles  não tentam falar nem o Espanhol? É comum, você ver um holandês se entendendo com um alemão, falando em Inglês; um italiano dialogando com um francês, em Espanhol; um suíço conversando com um americano, em Francês; e um português se desentendendo com um brasileiro…

Turista que não dá trabalho nenhum é o japonês. Discreto,

educado e alegre, ri mas com a mão na boca. Comparado com o comportamento do brasileiro, a diferença é gritante, literalmente. Meu colega brasileiro Celso discorda das minhas posições, diz que eu sou radical, mas ele é novo aqui.

Ah, ontem eu mostrei pra ele um vídeo do Breno Yudi, no Youtube, que aborda o dia-a-dia no Japão. Ele atribui ao famoso jeitinho, de querer levar vantagem em tudo, a causa do vexame brasileiro no Exterior. Breno é um brasileiro típico que dispara um palavrão atrás do outro, mas tem conteúdo.  Ele critica os nipo-brasileiros que dirigem com o som alto e aprontam na maior como se estivessem no Brasil. Viu, Celso? Vergonha alheia, ninguém merece.

Apesar de tudo, há uma luz de esperança. Se essa grana toda do pré-sal for mesmo para a Educação e Saúde, os filhos e netos deste turista sem noção serão mais sadios e educados. Quando chegar esse dia, au revoir, Paris! Natal, me aguarde.

 

 

 

Jorge Nagao

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One Comment

  1. Muito bom o texto só que está repetido. Cabe uma edição.
    abração.

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