JORGE NAGAO: Uma naite na bibliô do Mário

Numa noite dessas:

− Ei, vocês não vão embora? Manu e a Vieja, surpreendidas, se entreolharam. − Quem está aí?  DisseVieja.

− Eu, Mário de Andrade, aqui na terceira fileira, na estante de cima.

− Ué, os livros falam?Disse Manu.

−Antes apenas ouvíamos graças às orelhas, mas agora podemos falar, porque colocaram um chip mágico na encadernação de alguns nós, na semana passada. Disse Mário.

!cid_ii_154347331cd53e82− E que é que tem? Disse Manu.

− Com isso, nós, autores ungidos, ganhamos vida literária ou, literalmente ganhamos uma nova reencar(de)nação. Assim que vocês saem, nós batemos um papo. Mas hoje já passou da hora e vocês ainda estão aí!Disse Mário de Andrade.

− Estamos fazendo hora-extra porque temos pilhas de livros para repor nas estantes. Estou curiosa. Vocês conversam sobre o quê?Disse Manu.

− Sobre vocês duas.E vocês, por que estão falando tanto de mim?Disse Mário.

− Reformaram a sua casa, 70 anos depois de sua partida. Disse Manu. Vieram o governador, secretário da cultura, o Luís Braz, atelienses, muita gente. Sua casa está linda! Ah, e quero saber: vocês livros-vivos, o que conversam?

– Você não pegou o espírito da coisa, menina! Cresça e desapareça!- entrou na conversa o Coelho Neto, da segunda fileira, primeira estante.

– Isso não está acontecendo!- balbuciou a Vieja. Não vejo a hora de me aposentar.

– Embora, vai embora/ ninguém gosta de alguém/ má como a senhora – respondeu com um haicai o Guilherme de Almeida, quarta fileira, quarta estante.

– Senhores, por favor, mais respeito com essas funcionárias- contemporizou Padre Vieira, primeira fileira, primeira estante.

− Não aguento esse padre e seus sermões. Disse José Sir Amargo, nona fileira, sexta estante.

− Concordo com o Padre Vieira. Quem ama os livros merece respeito e carinho. Disse Clarice Lispector, oitava fileira, segunda estante.

− Obrigada! Responderam ao mesmo tempo, Manu e a Vieja.

− Desculpe, Manu e Vieja, esses meus colegas pararam no tempo, continuam machistas e ultraconservadores, coitados! Disse Rachel de Queiroz.

− Valeu, Rachel! Vamos embora, Manu. Larga tudo aí. Fiquei com medo que isso acontecesse no Raloín, mas está acontecendo hoje, 2 de novembro, dia deles, o Dia do Escritor. Disse Vieja.

− Tchau, vivas mortas! Quem é vivo sempre desaparece. Disse Sergio Porto/Stanislaw Ponte Preta, sexta fileira, primeira estante.

− Até amanhã, se vocês nos tolerarem! Disse o recém-chegado Eduardo Galeano, décima estante, décima prateleira.

− É o fim! Disse Manu para a Vieja. Haja saco pra aguentar esse bando de escritores fantasmas cheios de mimimi. Agora entendi porque eles são chamados de imortais. Nem mortos dão sossego.

 

JORGE NAGAO

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