LITERATURA: Jornalista lança livro sobre a participação de nikkeis no futebol

Da série túnel do tempo. Os fanáticos por futebol mais saudosistas devem se lembrar de Sergio Echigo, habilidoso ponta-direita que jogou no Corinthians de 1964 a 1965. Considerado “oficialmente”  como o primeiro nikkei a se profissionalizar no futebol brasileiro, Echigo – que atualmente reside no Japão – entrou para a história não só por ter jogado ao lado de Roberto Rivellino mas, principalmente, por ter inventado o drible do elástico, que se tornaria uma das marcas registradas do próprio “Reizinho do Parque São Jorge”. Devem se lembrar também de Alexandre de Carvalho Kaneko, ou simplesmente Kaneko (pronuncia-se Kanêko), que atuou no time profissional do Santos entre 1967 e 1969 ao lado de ninguém menos que Pelé. Ainda na Vila mais famosa do mundo, Paulo Ricardo Kobayashi, o Paulinho Kobayashi, encerrou sua carreira em 2009, sem antes vestir a camisa 10 eternizada pelo Rei. Há ainda o goleiro Yamada, com passagens pelo Corinthians, e o atacante Sandro Hiroshi, que até hoje é lembrado por ter sido protagonista de um dos casos mais conhecidos de alteração de idade.

Da “safra” recente, que ainda estão em atiividade, tem o Rodrigo Tabata, Pedro Ken e o brasileiro naturalizado japonês Marcus Túlio Tanaka. Há, ainda, casos de jogadores pouco conhecidos como Massaharu Shimabuku, o Haru, que defendeu o Marília, Garça, União Bandeirante, São Bento e Cafelandense. Ou Marco Antonio Harada, que formou dupla com Haru no União Bandeirante e encerrou sua carreira precocemente com apenas 21 anos de idade para se dedicar à profissão do pai, marceneiro.

 

O jornalista Gilberto Lobato Vasconcelos: “Os nikkeis também contribuíram para o futebol brasileiro” (Foto: Aldo Shiguti)

O jornalista Gilberto Lobato Vasconcelos: “Os nikkeis também contribuíram para o futebol brasileiro” (Foto: Aldo Shiguti)

 

DSCF9594Romantismo – São histórias curiosas, algumas engraçadas e outras nem tanto de jogadores nikkeis que “ousaram desafiar a lógica” e se profissionalizaram no país do futebol. Algo que, num passado nem tão distante, seria inimaginável. Alguns venceram. Outros optaram seguir caminhos menos tortuosos. Histórias que fazem parte do livro “Tem japonês no futebol – Sakkaa wo suru nikkeijin” (Editora 2S Soluções, 256 páginas), que acabva de ser lançado pelo jornalista Gilberto Lobato Vasconcelos, também conhecido como Giba.

Mineiro da cidade de Pratápolis, Giba é daqueles jornalistas românticos que, assim como no futebol, estão em extinção. Formado em Jornalimo pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e em Sociologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Giba começou sua carreira como repórter policial. Trabalhou nas Rádios América e Jovem Pan, e nos jornais Diário da Noite, Folha de São Paulo, Metrô News, Folha Metropolitana e por 16 anos no Diário Popular, “antes de ser vendido para a Globo” – como costuma frisar.

 

 

DSCF9595Várzea – A ideia de escrever um livro sobre descendentes de japoneses no futebol surgiu justamente pela paixão que nutre pelo esporte. Entre o final da década de 60 e início de 70, chegou a jogar na várzea, numa época em que a várzea ainda produzia talentos para o futebol. Era época também que se ouvia muito dizer ‘tem japonês no futebol’ quando alguém se referia a peladeiros não tão habilidosos com a bola nos pés, os chamados pernas de pau.

“Tive o prazer de jogar com muitos japoneses bons de bola. Não me esqueço de um, em particular, cujo apelido era “Bolhu”, que sabia tudo de bola mas decidiu parar para se dedicar aos estudos. A exemplo dele, existiram outros”, lembra o jornalista, que decidiu “tirar a limpo” se a frase que dá título a sua segunda obra – a primeira, “Revolução dos Boys”, lançada em 2009, é uma homenagem aos office-boys, uma espécie de “meu primeiro emprego” até a década de 80 – era apenas uma brincadeira ou se era dita de forma preconceituosa.

“A frase ‘tem japonês no futebol’, que eu acreditava estar ultrapassada, ainda provoca surpresas e indagações divertidas. No livro, essa reunião de palavras é empregada com duplo significado”, conta, explicando que a resposta coube a cada jogador. De acordo com Giba, dos entrevistados, Massaharu Shimabuku foi o que mais sofreu com o preconceito. “Já Kaneko afirmou não ter sentido preconceito. Talvez pelo fato de o primeiro ter começado sua carreira em Marília e o segundo na Vila Belmiro”, conta Giba, acrescentando que outra questão abordada pelo livro é “por que os japoneses demoraram tanto tempo para se profissionalizar”.

 

DSCF9596Tradição – Sobre isso, um fato interessante. “A maioria desses jogadores, o pai ou a mãe não tem – ou tinha – ascendência japonesa. Ou seja, de alguma forma, um deles já tinha rompido com aquela tradição japonesa de não casar com um nikkei”, explica o jornalista, afirmando que o livro foi a forma que encontrou para homenagear os 120 Anos do Tratatado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão e também os 107 Anos da Imigração Japonesa no Brasil.

“Fico feliz em poder mostrar que, além da agricultura, cultura, educação, gastronomia e artes marciais, os japoneses também contribuíram em outro campo, o futebol”, diz Giba, para quem ainda vai demorar algumas gerações até um nikkei vestir a camisa da Seleção Brasileira. “O futebol brasileiro, de um modo geral, está em baixa. E isso acaba afetando o surgimento de novos talentos, em especial os nikkeis, que tem outras opções na vida”, justifica.

(Aldo Shiguti)

 


 

 

Tem japonês no futebol – Sakkaa wo suru nikkeijin, do jornalista Gilberto Lobato Vasconcelos

Interessados em adquirir o livro podem ligar diretamente para o autor no telefone: 11/ 9 9112-2463 ou no e-mail: giba.lobato@gmail.com / gilovas@uol.com.br

 

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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