MEMAI: ENTREVISTA | MONJA COEN E A CULTURA DA PAZ

Monja Coen no ateliê de Hideko Homma. (Foto: Zendo Brasil)

 

Por Marilia Kubota

 

Os monges  zen ainda não são pops como o Papa,  mas a escola do budismo que migrou da Coréia para o Japão fez muito sucesso entre idolos da cultura pop, como o criador  da  Apple, Steve Jobs, os poetas Beatnik Allen Ginsberg e Gary Snyder e o músico Leonardo Cohen. Na última vez em que esteve em Curitiba,  num Hana Matsuri, Coen Sensei,  monja  da tradição Soto Shu  com sede no Japão, atraiu uma pequena multidão para a Praça do Japão.

Isso se deve tanto a seu carisma quanto à capacidade de comunicação.  Ex- jornalista, nascida Cláudia Dias Baptista de Souza em 30 de junho de 1947,  na vida civil a monja nunca passou desapercebida.  Prima de Sérgio Dias Baptista, músico da banda Os Mutantes, casou-se aos 14 anos. Em 1983,  transformou radicalmente sua vida ao se ordenar monja zen-budista, em Los Angeles, na Califórnia (EUA), e assumir o nome de Monja Coen, como é mais conhecida.

É fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em São Paulo. Morou 12 anos no  Japão. Voltou ao  Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji, em São Paulo, por  seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano. Escreveu dois livros: Viva Zen e Sempre Zen, publicados pela Zendo Brasil.

Abaixo, entrevista feita por e-mail com a monja, que respondeu a tudo rapidamente. (Seu nome no Darma, Coen, significa “Um só círculo perfeito” , formado pelos caracteres Co – um só – e en – círculo perfeito).

 

Antes de se tornar monja a senhora  foi jornalista. O jornalismo é uma profissão estressante, enquanto o budismo cultua o vazio.  Por que resolveu mudar de um extremo ao outro ? Conte um pouco de sua vida antes de entrar para a vida monástica. 

Foi como jornalista que pela primeira vez ouvi falar de grupos budistas na Califórnia, que já viviam de forma alternativa, reciclando, cultivando orgânicos e criando, mais tarde, o primeiro centro de atendimento e cuidados a pacientes terminais em São Francisco. A vida como repórter do Jornal da Tarde era muito estimulante e trazia grandes reflexões sobre o significado da existência e nosso papel na sociedade.  Trabalhava até altas horas e, como todos nós na redação comentávamos, vivíamos o jornal.  Comer dormir fazia parte do jornal, sempre entre nossos pares. Uma determinada ocasião pedi licença para estudar Inglês em Londres, por seis meses, e lá decidi mudar o rumo de minha vida.

 

Foi aí que a senhora conheceu o zen-budismo  e a tradição  Soto ? 

Fui morar em Los Angeles, na Califórnia, e lá li um livro sobre ondas mentais alfa.  Dizia a autora, uma jornalista norte americana, que quando estamos em meditação estamos em alfa. Eu praticava meditação, desde minha ida a Inglaterra, mas seguindo apenas livros e instruções vindas pelo correio.  Nesse livro, a autora entrevistou um monge Zen Budista e perguntou a ele o que achava de usar a tecnologia moderna para induzir o estado alfa, em clínicas psicológicas, com eletrodos, músicas, imagens, invés de nos sentarmos em zazen. O monge respondeu de forma a me convencer a buscar o Zen.  Ele disse:  ”Se a ciência diz que é possível, assim deve ser.  Mas, por que entrar pela janela?” Fui procurar o Zen Center of Los Angeles e descobri minha casa, meu lugar, minha prática, minha vida.  A tradição era Soto Zen.

 

Qualquer pessoa pode praticar a meditação budista ? Pessoas agitadas podem praticar ? Há benefícios para a saúde com a prática da meditação ?

A meditação, que chamamos de Zazen – Za= sentar e Zen= meditar, pode ser praticada por qualquer pessoa.  Aliás é bem recomendado para pessoas agitadas. Na verdade é um processo de autoconhecimento.  A mente reconhecendo as várias nuances da própria mente.  Através desse contado direto surge a capacidade de escolher, discernir como usar a mente.  Não é exatamente controlar, no sentido de violentar a si mesma.  Mas de escolher que partes do cérebro estimular e de que forma.  Assim como podemos fazer musculação para desenvolver algumas partes de nossa  musculatura, o que a Neurociência está descobrindo é que podemos fazer musculação de neurônios – treinar nossa mente.  Isso é Zazen.  Logo, independe de ser agitada ou não.  Há inúmeros benefícios para a saúde, tanto que na Holanda, quando alguém vai fazer um seguro saúde, uma das perguntas é se a pessoa medita.  quem medita paga menos.  Por quê?  Porque há melhor consciência do corpo-mente, melhor pré e pós-operatório, capacidade de recuperação mais tranquila.  Isso entre muitos outros benefícios.  Entretanto, nós não praticamos o zazen apenas para os benefícios de saúde e bem estar, mas para o auto conhecimento, para o encontro com nosso eu verdadeiro, com a essência do ser, com Buda.

 

No Japão o budismo sempre foi a religião dos nobres.  Existe preconceito em relação ao budismo por ser uma religião minoritária no Brasil ?

Realmente o Budismo e o Zen Budismo entraram no Japão através da nobreza.  Principe Shotoku e seus colaboradores, inclusive, basearam-se em princípios budistas ao elaborar a primeira Constituição japonesa.  As primeiras pessoas que fizeram o voto monástico foram mulheres nobres. Com o crescimento e expansão das classes campesinas e do comércio, o budismo, no Japão passou a ser também uma religião de toda a população.  A dificuldade que encontramos na divulgação dos princípios de Buda, no Brasil, é a  de uma população e de uma cultura baseada no Cristianismo e que não consegue compreender uma forma de relação com o sagrado que não seja baseada em princípios cristãos.   Os primeiros missionários budistas que vieram ao Brasil tinham de entrar como agricultores, pois não era permitida a entrada de religiosos budistas.  Então temos sim, uma história de preconceito, que está sendo pouco a pouco revertida.  Vivemos uma época em que pessoas de todas as tradições espirituais iniciam o processo de se compreenderem, de respeitar a diversidade e de trabalhar em conjunto para o bem comum.  Mas ainda falta muito e muito para erradicar toda e qualquer forma de preconceito e discriminação religiosa, no Brasil e no mundo.

No Japão em setembro de 2010. (Foto: Zendo Brasil)

 

A senhora conhece a fundo a cultura japonesa.  Quais seus pontos positivos e negativos ?  

Quando voltei ao Brasil, depois de viver doze anos no Japão, sempre em templos e mosteiros, considerei que o que aprendera de mais valia era educar o kokoro.  Educar pessoas para a sensibilidade ao outro, à natureza, à vida.  É chamado por nós budistas de coração de Bodisatva.  Sensível, sábio, terno.  A gentileza dos gestos, do falar baixo, de viver e sentir-se parte de um grupo, da comunidade, da vida social – são valores muito importantes que se opõem ao individualismo exacerbado do Ocidente. Pontos negativos é muitas vezes a hierarquização, como a questão das crianças abusadas nas escolas por seus pares, que não são capazes de falar com pessoas da geração anterior – digo seus pais e mestres, sobre o assunto. Também a questão das discriminações internas, dos buraku hisabetsu – grave, que ainda está sendo trabalhado na cultura japonesa.  Nós monásticos e monásticas passamos por vários treinamentos específicos a fim de nos libertar de todo e qualquer vestígio de discriminação preconceituosa.  Isso no Japão.

 

É difícil ensinar zen-budismo no Ocidente ?

Não considero difícil ensinar o Zen Budismo no Ocidente.  Está crescendo bastante, tanto na Europa, nos Estados Unidos da América do Norte, Canada, Austrália, América Central, América do Sul.  Se tanto na América  do Nortes quando na América do Sul o budismo foi trazido pelos imigrantes japoneses, hoje, uma grande parte de pessoas de origem não japonesa se tornam budistas.   Ainda está, de certa forma, restrito a um grupo social mais intelectualizado.  Não é uma religião das massas.  Como mencionei anteriormente, o brasil foi colonizado por cristãos, que impuseram sua maneira de pensar e crer em toda base da cultura americana.

 

Existem pontos comuns entre o budismo e o cristianismo ? Ou entre o budismo e outras religiões ?

Existem convergências e divergências. A experiência mística de todas as tradições espirituais nos fazem reconhecer irmanados a tudo e todos.  Mas temos linguagens étnicas diferentes, expressões específicas a povos diferentes e temos de as respeitar e compreender se quisermos participar da construção de uma Cultura de Paz.

 

Como é ser uma mulher ocidental ocupando um cargo importante numa comunidade zen-budista no Brasil ?

As mulheres hoje estão tomando posições de liderança no mundo todo.  Minha superiora no Japão, Reveranda Aoyama Shundo Docho Roshi é uma das lideranças monásticas mais reconhecidas e aplaudidas, quer por monges, monjas, leigos ou leigas.  O que aprovamos e acolhemos é a capacidade de um ser humano, independente do gênero.  Ainda há discriminações de  gênero?  Certamente.  Assim como há mulheres em vários países do mundo e várias regiões da Terra, pedindo por inclusão nas escolas, universidades, mercado de trabalho.

 

As pessoas ainda imaginam que para levar uma vida monástica é preciso se desligar da família. A senhora tem família ? Como se relaciona com ela ?

O voto monástico consiste em sair da família.  em japonês escrevemos ShuKke –Shu de sair e Ke de família.  Temos de sair da família monocelular para entrarmos na grande família humana, a família Buda, a família de seres sábios e benfazejos.  O interessante é que ao se despojar da individualidade entramos no grande eu, no nós.  E ao fazermos o voto de beneficiar todos os seres,  as pessoas de nossa família estão incluídas.  Muitas vezes não participei, participo ou participarei de algumas festividades e celebrações específicas de meus familiares mais próximos.  Houve estranhamento no início e  agora há compreensão.  A prioridade de minha vida, como de qualquer pessoa que faça o voto monástico, é a de servir a ordem religiosa para a qual entrou, no meu caso, servir ao Darma de Buda.

 

Os monges zen-budistas podem fazer tudo o que as outras pessoas fazem ?  Tem que obedecer a preceitos rígidos, como o celibato e o vegetarianismo ?

O Zen Budismo japonês, como as outras tradições budistas com sede no Japão, aboliram o celibato forçado.  Cada monástico, monástica, deve decidir sobre seu casamento ou náo. Muitos monges são casados e suas famílias vivem e ajudam nos templos em que servem.  O vegetarianismo também passa a ser uma opção pessoal e não um comando.  Há regras, há votos, há Preceitos Monásticos, baseados nas Regras de Ouro: Não fazer o mal, Fazer o bem e Fazer o bem a todos os seres.

 

O que é um bodisatva ?  Qualquer pessoa, até um criminoso, pode se tornar  bodisatva ?

Há vários bodisatvas, seres iluminados que renunciam estar entre os Budas para estar entre os seres humanos é elevar todos os seres à sabedoria perfeita e à compaixão ilimitada.  No sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa há um capítulo sobre Kanzeon Bodisatva – o Bodisatva da Compaixão em que é afirmado que toda e qualquer pessoa pode se tornar um bodisatva.  Mas, sem prática não há realização.  Praticar o bem para o bem de todos os seres é sair do eu individual menor.

 

Há duas palavras da terminologia budista que os leigos usam com freqüência. Uma é Karma, a outra é Satori. Pode explicar o significado dessas duas palavras ?

Karma significa ação que deixa marcas, resíduos e está ligada à Lei da Causalidade.  Satori é o despertar- que é a capacidade de transformar o próprio karma.

 

O que são sutras e koans ? Recitar sutras ou meditar sobre os koans  é essencial para a prática ?  Deve-se recitar em sânscrito ou em japonês ? Quais os koans mais famosos do zen-budismo ?

Sutras são os ensinamentos de Buda. Koans são diálogos entre mestres e discípulos que levam à iluminação, ao satori.  Ambas as práticas são recomendadas para o despertar.  Geralmente lemos os sutras em japonês e/ou na língua do país.  Aqui no Brasil lemos em japonês e em português, pois é essencial que as pessoas compreendam os ensinamentos dos Sutras e as instigações dos Koans. Um doskoans mais famosos é aquele em que um monge se aproxima do Mestre Joshu e pergunta: “o cão tem natureza Buda”? e o Mestre responde “Mu”. Esse diálogo é do século VIII, na China e usado até hoje para auxiliar os/as prticantes a romper a barreira da dualidade e do intelectualismo.

 

Por que o zen-budismo faz tanto sucesso entre intelectuais e artistas ?

É uma boa pergunta.  Talvez porque nos leva a ir além da intelectualidade, porque é uma prática que transcende o ser comum, menor.  Porque no Zen há tanto a Ética omo a Estética simples e verdadeira.

 

Fonte: 

 

Marilia Kubota é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.

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