MEMAI: JABUTI PREMIA DOIS NIPO-BRASILEIROS

 

O escritor brasileiro Milton Hatoum e Oscar Nakasato. (Foto: divulgação autor)

 

 

O  livro “Nihonjin”, do maringaense Oscar Nakasato foi premiado como melhor romance publicado em 2011, pela Câmara Brasileira do Livro, organizadora do  Jabutia premiação literária de maior prestígio no Brasil.

 

 

 

 

 

A Mutação de Nikkeijin para Nihonjin

Se você for nikkei e ler o romance Nihonjin, de Oscar Nakasato, terá uma sensação imediata de identificação. Afinal, que descendente de japonês  não reconhece a história que ele conta, protagonizada por um imigrante japonês  de rígida personalidade ?

Um imigrante japonês, ferrenho nacionalista, vem ao Brasil, com o sonho de voltar à terra natal em pouco tempo. As perdas emocionais e a tensão política entre seu país de origem e o de imigração dificultam o retorno. A história de Nihonjin é narrada pelo neto de Hideo, prestes a refazer o caminho de volta à terra de seus antepassados. Antes de partir, tem uma longa conversa com o avô. Este revela, em tom minimalista, suas tragédias pessoais: a perda da primeira esposa, Kimie, e de dois filhos, Haruo e Sumie. A questão da identidade, crucial para os descendentes de japoneses, perpassa todo o romance. O autor questiona o que representava ser japonês para o imigrante e como essa percepção foi mudando. A japonesidade é afetada pela fraqueza de Kimie, desacostumada ao trabalho da lavoura e vítima de uma paixão extraconjugal. Essa fraqueza reaparecerá mais tarde em Sumie.

Ao contrário da primeira esposa do pai, ela assumirá a paixão por um gaijin (estrangeiro). Haruo personifica o conflito da maioria nissei, dividida entre duas culturas – japonês emcasa, brasileiro fora. Esse conflito se tornará extremo com a oposição à Shindo Renmei (Liga dos Súditos do Imperador) facção radical que não admitia a derrota do Japão na 2ª. Guerra. Por conta dessas perdas, Hideo transformará sua rígida personalidade. A história de Oscar Fussato Nakasato, neto de imigrantes japoneses, guarda paralelos com a da família Inebata. Seus avós trabalharam como colonos em fazendas de café no interior de São Paulo, esperando enriquecer e retornar ao Japão. Desfeito o sonho de regresso, a família Nakasato migrou para o interior do Paraná. Seus pais mudaram depois para Maringá. Oscar nasceu aí, em1963. Fez Mestrado e Doutorado em Literatura. Hoje é professor de Literatura em Apucarana.  Casado, pai de 2 filhos, há 4 anos mora com a família em Apucarana.

 

TRECHO

– Ojiichan, só tinha nihonjin na colônia? Não. Havia italianos, havia brasileiros. Vovô se lembrava pouco dos italianos. Disse das festas que faziam, da alegria incomum em trabalhadores que lavravam terra alheia em um país que não era deles. Mas eu os conhecia dos meus livros de história, dos filmes sobre a imigração italiana. Então pudevê-los: de manhã, quando iam para o cafezal, já cantavam cantigas alegres num grande coro de vozes de homens e mulheres. E à noite se juntavam no terreiro, comiam batata-doce assada na fogueira, comiam bolos, bebiam vinho,cantavam e dançavam.

 

Confira a entrevista:

 

Em Nihonjin – que significa japonês – o vencedor do Prêmio Benvirá de Literatura, Oscar Fussato Nakasato conta a saga de uma família japonesa no Brasil. Escolhido entre 1.932 concorrentes, o romance já está na lista dos mais vendidos de algumas livrarias do país

MEMAI – Qual é a sua formação acadêmica e literária?

OSCAR NAKASATO – Cursei Licenciatura em Letras, habilitação em Língua Portuguesa, na Universidade Estadual de Maringá. Fiz Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Unesp, campus de Assis-SP. Fiz doutorado em Literatura Brasileira na mesma instituição.

MEMAI – Em quais instituições você leciona/ lecionou?

NAKASATO – Já lecionei Língua Portuguesa em colégios particulares e Língua Espanhola em colégios estaduais. Fui professor substituto no Curso de Letras na Universidade Estadual de Maringá. Atualmente sou professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus de Apucarana, onde ministro aulas de Língua Portuguesa e Literatura no Curso Técnico de Nível Médio, de Comunicação Linguistica em cursos de Tecnologia e Licenciatura e Leitura e Produção Textual em curso de Engenharia.

MEMAI – Que prêmios literários você já recebeu?

NAKASATO – Em 1999 fui premiado com os contos Alô e Olhos de Peri no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul. O Festival premiou cinco contos, sendo dois meus. Em 2003, fui vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto Menino na árvore. Esse texto foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso.

MEMAI – Como é o teu processo criativo?

NAKASATO – As ideias surgem de todos os lugares: de uma cena que vejo na rua, de uma conversa com um amigo, de um noticiário de televisão, de livros que leio, de lembranças. Nas caminhadas que faço, vão tomando forma, se desenvolvendo já com perfil literário. Quando sento em frente ao computador, já sei sobre o que vou escrever.Isso não significa que o trabalho é fácil, eu preciso transformar as ideias num texto. Não basta ter uma história bacana para contar. É como uma piada. Ela pode ser boa, mas precisa ser bem contada para provocar o riso. Em se tratando de literatura, a escolha do narrador é essencial. Dom Casmurro só é genial porque a história é contada sob o ponto de vista do protagonista, e não de um narrador em terceira pessoa. Quando comecei a escrever Nihonjin, pensei de imediato no neto do protagonista como narrador, ou seja, o avô, bastante idoso, conta a sua vida ao neto, que a transforma num romance. Mas não queria que prevalecesse o ponto de vista do avô, porque, assim, o neto escreveria o que o outro dissesse. Queria um narrador mais complexo, mais verdadeiro. Como o avô se lembraria de detalhes de fatos acontecidos há tanto tempo? Pensei, então, num narrador com várias fontes de informação: o próprio avô, um tio, livros de História. Além disso, a sua imaginação. O narrador de Nihonjin é o neto, mas Hideo, o avô, é um misto de realidade e ficção.

MEMAI – Você tem uma rotina para escrever?

NAKASATO – Não tenho exatamente uma rotina para escrever, mesmo porque as minhas outras atividades não me permitem. Ser escritor não é minha prioridade. Antes de ser escritor, sou esposo, pai e professor. Além disso, não tenho disciplina para estabelecer uma rotina. Já li entrevistas de escritores que dizem que se levantam cedo para escrever. Eu não consigo. Às quintas-feiras eu acordo às 06h45min porque eu tenho aula às 07h30min. O Luiz Ruffato diz que encara a sua atividade de escritor realmente como uma profissão. E isso implica, é lógico, além de escrever, também publicar e divulgar a obra. Ele está certo, eu preciso aprender a fazer tudo isso. Com disciplina.

MEMAI – Como surgiu a ideia do livro e quanto tempo você levou para escrevê-lo?

NAKASATO – A ideia de escrever um romance sobre imigração japonesa surgiu quando fazia o meu doutorado, que versa sobre personagens nipo-brasileiros na ficção. A pesquisa para a tese foi difícil, pois há pouquíssimos nihonjins ou descentes na nossa literatura, o que me deixou incomodado. Defendi a minha tese em 2002. Devo ter começado a escrever o livro em 2001 ou 2002, não me lembro direito. E demorei cerca de 4 anos para terminar. Publiquei a minha tese pela editora Blücher em 2010.

MEMAI – Como foi criar uma ficção a partir de suas memórias pessoais, familiares, etc, ligadas à cultura japonesa? O quanto de memorialístico existe nessa ficção?

NAKASATO – Para escrever Nihonjin, aproveitei lembranças minhas e episódios que minha mãe, principalmente, me contava, mas o romance não é biográfico, é uma ficção. Eu aproveitei muito as pesquisas que fiz durante a minha tese em livros de História, Antropologia e Sociologia para entender o processo de imigração japonesa e a inserção dos japoneses e seus descendentes na realidade brasileira. A leitura desses livros (lembro-me, principalmente do livro de Tomoo Handa) me deu subsídios para a elaboração de personagens e episódios para o romance.

MEMAI – Alguns pormenores sobre a sua origem japonesa: se você é nissei ou sansei; falante nativo de japonês ou português; etc.

NAKASATO – Sou sansei, meus quatro avós eram japoneses. Durante a infância, num sítio do município de Floresta, onde vivi até oito anos, conversava misturando a língua japonesa e a língua portuguesa. Nunca chamei minha mãe de “okāchan”, mas expressões como “itadakimasu” ou “tadaima” eram comuns. E a mistura dava origem a frases esdrúxulas, como: Mãe, gākkoni iku, mesakakio coloca shitemo i, galinhano ovowa oishi etc. Cresci falando assim. Durante um tempo (não sei quanto, creio que dois ou três meses) estudei Língua Japonesa numa escola dominical, em Floresta. Eu detestava, as aulas eram tediosas. Voltei a estudar depois que me formei em Letras, então completei dois anos de estudo num curso que durava seis. Hoje não me lembro de todos os hiraganas e katakanas. Quanto aos kanjis, esqueci quase todos. Na conversação, eu me “viro” num diálogo doméstico, mas me perco quando tento elaborar uma frase mais complexa. Quando ouço, por exemplo, dois tios conversando, entendo praticamente tudo, mas quando assisto a um noticiário na NHK, entendo pouco. Gosto muito de música japonesa, de Miyako Harumi e Murata Hideo a Tsuyoshi Nagabuchi. Ano passado li o romance “A casa das belas adormecidas”, de Yasunari Kawabata, porque achei que estava devendo a mim mesmo ler um romance japonês. Há muito anos li “Neve de Primavera”, de Yukio Mishima, mas nem me lembro direito do enredo. Gostei muito do romance de Kawabata, com uma história ao mesmo tempo simples e inusitada, e de seu estilo sutil.

 

Nakasato ainda concorre a mais uma etapa: no dia 28 de novembro serão anunciados os vencedores nas categorias livro do ano de ficção e não-ficção.

Uma outra nipo-brasileira foi  premiada pelo Jabuti. É a escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka,  com o livro de imagens (e-hon) A Visita. Ela ganhou o segundo lugar na categoria ilustração de livro infantil e juvenil

 

LÚCIA HIRATSUKA E O UNIVERSO DAS CRIANÇAS

 

Os livros de Lúcia Hiratsuka são boas indicações de leitura para crianças em seu dia especial. Escritora e ilustradora premiada de livros infantis, tem 16 livros publicados, entre releituras de fábulas japonesas e histórias autorais.

A autora, em seu ateliê, pintando sumi-e, a aquarela japonesa.

Nascida em Duartina, no interior de São Paulo, em 1960, em 1988 recebeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Educação de Fukuoka no Japão. Escolheu como tema de pesquisa o e-hon, ou seja, o livro ilustrado. Lá fez uma exposição de desenhos com cenas de feira, festa junina, personagens do folclore e paisagens brasileiras, que fez bastante sucesso. Retornou depois de um ano e começou a recontar e ilustrar os contos e as lendas japonesas que ouvia quando criança. Buscou inspiração nas composições japonesas e estudou a técnica do sumie*, que tenta introduzir em seus trabalhos.

Em 1995, seus livros Hatikazuki Hime, Momotaro e Tanabata conquistaram o prêmio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2004 publicou Lin e o outro lado do bambuzal (aprovado no PNBE e PNLD/SP 2005). No ano seguinte, lançou Contos da montanha, que conquistou o selo da FNLIJ de Altamente Recomendável (2005) e foi incluído no Catálogo de Bolonha (2006).

 

e-hon

Dois ideogramas definem o conceito dessa palavra. “E” de desenho e “HON” de livro. Existem e-hons só imagens, mas a maior parte integra palavras e imagens. Com narrativas, brincadeiras ou poesias, estes livros privilegiam o lúdico e o imaginário, apesar de existirem e-hons didáticos.

Nos dias de hoje, é comum o e-hon ter, como autor, aquele que desenha, cria a história, ou monta um roteiro. Existem revistas só para falar de e-hons, com comentários, críticas, entrevistas de autores nacionais e estrangeiros, assim como exposições dos originais e mostras que vem do exterior. Nas escolas voltadas àqueles que aspiram a essa carreira, os alunos recebem aulas de desenho, roteiro e, principalmente, aprendem a trabalhar a relação palavra-imagem.

Baseado nesses e-hons, um bom livro ilustrado não se sustenta apenas com grandes efeitos de técnica. É preciso um bom desenho, um bom texto e uma boa montagem. Como uma expressão artística, em que o livro é o suporte, deve-se considerar a virada das páginas, a seqüência, o fluxo e o ritmo das imagens e como estes se relacionam com as palavras.

 

e-hon A visita

 

 

 

 

A VISITA ficou com esta cara. O menino espia, por trás do ipê, com cara de espanto. O que acontece mais adiante?

A narrativa visual de Lúcia Hiratsuka desvenda as ansiedades do menino-morador daqui, com curiosidades e expectativas sobre aquele que chega de lá.

Neste livro, para não perder a expressão do personagem, Lucia Hiratsuka evitou ao máximo o processo de passar a limpo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marilia Kubota é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.

 

 

 

 

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