MEMAI: KINEMA | A ERA NUCLEAR E A CURA PELO AMOR

 

Por Marilia Kubota

 

Imagem de “Anatomia do Medo”, de Kurosawa.

 

Não há, na memória da história do século 20, acontecimento mais traumático para a humanidade do que a explosão das duas bombas atômicas, em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945. Entretanto, até muito recentemente, os documentários americanos reproduzidos à exaustão na tevê brasileira,  alusivos a data, enfatizavam  a construção das bombas, exaltando como os americanos conseguiram se antecipar aos alemães e obter os segredos da fissão nuclear. E a destruição das duas cidades japonesas, que mataram instantaneamente, 130 mil vítimas e tiveram mais 100 mil mortes devido à radiação nuclear ficava em segundo plano. Esses documentários foram uma justificativa para os americanos lançarem as duas bombas, sob o argumento de que era o único modo de os japoneses se renderem.

Passados 68 anos, faz-se necessária a revisão desses argumentos. Deixando de lado a visão oficial americana, fundamentada em planos militares para o fim da Segunda Guerra Mundial, voltamos os olhos para os dramas humanos sofridos pelas vítimas.  Esses dramas foram reconstruídos algumas vezes em narrativas de ficção,  em filmes, no mangá e no animê. O prêmio Nobel  de Literatura japonés en 1994, Kenzaburô Ôe,  publicou  Hiroshima Notes (HIroshima Noto)  en 1965, e Masuji Ibuse, o romance Chuva Negra,  em 1966.

Na cultura pop, o tema do apocalipse nuclear também está presente. O monstro Godzilla é o primeiro dos antiheróis que personifica o terror da destruição em massa. Criado por Inoshiro Honda, em 1954, Gojira aparece destruindo o Japão em três filmes:  Godzilla (Gojira,  1954). Godzilla ataca de novo (Gojira no Gyakushu, de Motoyoshi Oda, 1955). Godzilla, rei dos monstros(Kaiju-ô Gojira, 1956). E a devastação nuclear também é tematizada em mangás e animês, como em Gen pés descalços ( Hadashi no Gen), de Keiji Nagasawa  e  Cemitério de Vagalumes ( Hotaru no Haka), de Taro Hyugaji

No cinema, o apocalipse nuclear é tema de Akira Kurosawa em três filmes:  em  Anatomia do medo (Ikimono no Kiroku, 1955), em dois episódios de Sonhos (Yume, 1990) e em Rapsódia de Agosto (Hachi-gatsu no Kyoshikyoku, 1991). Progressivamente, Kurosawa cura-se das feridas da guerra, ainda  abertas em Anatomia do medo em Sonhos, mas cicatrizada em Rapsódia de Agosto.   Já o cineasta francês Alain Resnais, a quem o governo japonês  encomendoj  um documentário sobre Hiroshima, realizou toda a evolução psicanalítica em      Hiroshima mon amour,   misturando fato e ficção, ainda em 1959.

 

 

 

Chuva Negra e Hiroshima mon amour

 

Cena de “Hiroshima mon amour”.

 

A narrativa de ficção literária se distingue da  visão macroscópica da historiografia por iluminar vidas de pessoas  comuns. Não os protagonistas que se tornaram os heróis dos relatos oficiais, mas personagens com os quais qualquer um  pode se identificar . Assim, o romance Chuva negra, de Masuji Ibuse relata o drama de uma jovem afetada pela radiação nuclear que não consegue se casar por conta de seu contágio. A narração é feita através do discurso indireto (narrador em terceira pessoa) e também através das páginas do diário do tio da jovem,  o que torna o relato mais verossímil, aumentando as chances de o leitor se identificar com o drama. Veja uma resenha publicada aqui, no MEMAI.

Mas, talvez, a mais contundente ficção sobre os efeitos da bomba atômica seja Hiroshima mon amour. O filme conta   a história de um casal de amantes, uma atriz francesa e um arquiteto japonês que se encontram em Hiroshima. Ela o conheceu numa filmagem, depois da guerra. A  atriz visita  lugares que os turistas consideram sagrados, como o hospital onde as vítimas da bomba foram tratadas e o Memorial de Hiroshima. Reverencia os documentos da  destruição e as  pilhas de cabelo que caíram das cabeças de mulheres quando acordaram no dia seguinte,   as peles  que descolaram dos corpos pelo calor das chamas e as fotografias  que evidenciam partes do corpo  torcidas  em  formas irreconhecíveis  pelos venenos  radioativos.

A atriz conhece, casualmente, um arquiteto japonês, e dorme com ele. Ela conta a ele de sua visita, e porquê viu os documentos históricos, tenta convencê-lo de que “viu tudo”. O japonês, cujos pais estiveram presentes na queda da bomba, rebate:  “Você não viu nada em Hiroshima”.

Esse embate entre a visão proporcionada por um recorte histórico e a memória de testemunhas que estiveram no lugar histórico parece resumir um drama da pós-modernidade. A visão da atriz tem o limite permitido pela visão historiográfica e também o limite de sua memória abalada pela perda de um amor na Segunda Guerra. Por isso,  mais do que a oposição entre duas visões, a de quem viu de longe, e quem viu de perto,  Hiroshima, mon amour é um filme sobre o reestabelecimento da memória profunda, aquela que faz os seres humanos superarem seus traumas e se conectar à vida.

Durante a ocupação alemã da  França, a atriz francesa conheceu um soldado alemão na cidade natal dela, Nevers, e  apaixonou-se. No dia em que a França é libertada pelos Aliados, a jovem deveria voltar com o soldado para a  Bavaria. Mas ele é morto  pelos moradores de  Nevers.  Para puni-la por ter “colaborado com o inimigo”, os cidadãos de Nevers cortaram o seu cabelo.

Quando ela conta a história de seu amor secreto ao japonês, a atriz reitera que em poucos anos o esquecerá. Duras e  Resnais parecem querer  fazer do esquecimento a maior metáfora para entender não apenas o relacionamento entre a francesa, o alemão  e o japonês, mas também a cegueira dela (visão parcial)  a repeito do cataclisma atômico.

A atriz não tem memórias da destruição atômica para esquecer. No dia em que a bomba caiu em Hiroshima,  era uma jovem em Paris pela primeira vez. Para ela e  seus compatriotas a notícia da bomba numa cidade distante significou não a morte e matança de centenas de pessoas e incontáveis animais, mas o fim  da guerra. Mas ao encontrar o japonês, esse desperta o sentimento adormecido da perda de seu amor. E emerge  a compaixão por outros seres, que perderam mais.

O que ela diz ter visto, o hospital, o memorial, os documentos e a reconstrução dos danos da bomba não se configuram filmicamente como um flashback, uma visão de memória. Para os japoneses , e também para o arquiteto, a memória da tragédia de Hiroshima pertence apenas àqueles que a experienciaram. Só as vítimas têm o direito exclusivo da memória do sofrimento, para representá-lo ou falar sobre ele ?

O filme de Resnais mostra que uma certa espécie de esquecimento é precondição para  Hiroshima aparecer. Nas cenas iniciais, o abraço da francesa e do japonês lembram as cinzas radioativas que caíam nos corpos  das vítimas das bombas.O encontro interétnico mostra como tratar outra pessoa , uma outra cultura ou outra nação com respeito. Mas esse segundo  encontro interétnico por causa do primeiro encontro , que só foi possível devido à ocupação alemã da França. E o segundo só foi possível por causa do fim da guerra.

Hiroshima, mon amour  também associa a memória à visão.  A cura da “cegueira” da francesa causada pela perda traumática do primeiro amor pode ser feita pelo seu relato – em linguagem psicanalítica, transferência – ao amante japonês, o que  Freud chama  ”a cura pelo amor” . Hiroshima mon amour sugere que criaturas e coisas que precisam de cuidado sem terem ajuda sofrem a mais séria das doenças: a invisibilidade.

Hiroshima, mon amour denuncia uma nova erade medo desconhecido, indiferença. A atriz vai ao museu de Hiroshima buscar a cura para a sua indiferença. Em sua conversa com o arquiteto, no início do filme, ela desmascara a farsa de Hiroshima: ilusão para turistas chorarem. O interessante é que a francesa  identifica a sua perda irremediável com outras perdas. Enquanto ela perdeu os cabelos em sua cidade natal, milhares de japonesas também perderam os seus, por conta da radiação.O choque por defrontar-se com uma dor maior que a sua a cura de sua indiferença diante dos dramas do mundo.

Resnais e  Duras mostram que os outros seres tornam-se visíveis diantes de nós apenas quando são reencarnados naquilo que amamos.  Os “outros” tornam-se visíveis quando entram na constelação de nossas memórias afetivas.

O soldado alemão acaba sendo reencarnado pelo arquiteto japonês e a memória da destruição da guerra é superada. Os personagens, sem nome, ao final, chamam-se pelos nomes de suas cidades nativas, Hiroshima e Nevers. E através do enlace dos amantes, e de dois topos ,  a memória da dor é conciliada em memória de amor. O ressurgimento de Hiroshima das cinzas de corpos carbonizados só acontece quando se olha para fora.

Parte do texto sobre Hiroshima mon amour foi inspirado pela leitura  desse artigo da historiadora americana Kaja Silverman.

 

 

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