MEMAI: KOTOBA | A CULTURA DO AVESSO

 

Mulher do período Jomon (10 mil anos atrás), no Japão, fazendo cerâmica.

 

Diversos intelectuais se aventuraram no Japão. Ou para conhecer o “exotismo” da cultura japonesa, ou para estudá-la, profundamente. Nesse último caso, os ocidentais não só se apaixonaram pela cultura e arte japonesa, como ajudaram a preservá-la como patrimônio artístico da humanidade. Ernest Fenollosa, que chegou em 1878,  ajudou a reviver o estilo de pintura Nihonga, foi professor da Universidade de Tóquio,  ajudou a fundar a Academia de Belas Artes de Tóquio e o Museu Imperial, sendo seu diretor em 1888. Mudou seu nome para Tei-Shin, adotando também o nome Kanō Yeitan Masanobu. O irlandês Lafcádio Hearn, que chegou em 1890, foi se encantando de forma tão radical que mudou seu nome para Yakumo Koizumi, adotando o sobrenome da esposa, Setsuko Koizumi, compilou várias narrativas de tradição oral e escreveu vários livros sobre diversos aspectos da cultura japonesa, como a religião e a literatura.

Entre os viajantes, aqueles que não chegaram a morar no Japão, mas produziram ensaios de impacto sobre suas impressões estão os franceses Roland Barthes e Claude Levi-strauss. O primeiro, filósofo, escreveu O Império dos Signos, livro que compete, dentro do estudos japoneses (ou japonologia, como se diz na Europa), com o best-seller O crisântemo e a espada, da antropóloga americana Ruth Benedict.  Levi-strauss escreveu uma obra periférica em sua extensa bibliografia: A outra face da lua, resultado das cinco viagens que fez ao Japão.

O livro de Benedict reúne e analisa uma série costumes da vida japonesa, desde o ato de tomar banho a obrigações sociais, como o on e o giri. Como a autora avisa previamente, a pesquisa foi feita como encomenda do exército americano, e não teve pesquisa de campo in loco, mas apenas nas comunidade japonesa americana.

O império dos signos, por sua vez, é um best-seller na Europa. Barthes esteve no Japão nos anos 70 e usou sua escritura característica. O estilo subjetivo é debitado ao que os  críticos dizem ser próprio dos japonologistas, em sua preferência por uma visão holística de seu campo de estudos. Numa série de ensaios, o semioticista aborda assuntos tão diversos como a caligrafia, a gastronomia, o teatro de boneco Bunarku, o haicai, os matsuri (festivais folclóricos), o sistema de endereçamento.

O autor de O pensamento selvagem, por sua vez, fala em cada um dos ensaios de A outra face da lua de temas muito diversos, mas o principal são as narrativas da mitologia japonesa. Ele encontra elementos semelhantes entre o mito de criação japonês , e na história de Amaterasu, com mitos de outras culturais, no Ocidente e no Oriente. Essas semelhanças, segundo o antropólogo francês, demonstram que o mundo é redondo. Ou seja, o elemento que emerge numa cultura como aparentemente em oposição à outra, é na verdade, seu avesso.

O estruturalismo de Levi-strauss podem ter sido ultrapassado, e também a ideia de uma circularidade primordial, pertencentes ao universo mental das  culturas primitivas.  A sociedade pós-moderna, fragmentada e reciclada, é reconfigurada pela imagem da teia, da comunicação enxameada, da hiperconectividade. Mas não deixa de ser fascinante remontar  os  fragmentos que um dia estiveram reunidos no continente afroasioamerindio em  Godwana.  Esperamos que mais pesquisadores tenham o espírito de aventura de Levi-strauss para ir atrás de nosso passado em comum.

 

Marilia Kubota

 

 

Marilia Kubota

é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.

 

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