MEMAI: Literatura: Nagai Fuku retoma o Mundo Flutuante

 

Por Marilia Kubota

 

Nostalgia é o principal elemento de Histórias de outra margem, de Nagai Kafu, (Editora Estação Liberdade, tradução de Andrei Cunha). O protagonista, o escritor Tadasu Oe, refugia-se na zona de prostituição na margem leste do Rio Sumida, em Tóquio, para reviver tempos passados. O mais novo lançamento no Brasil do escritor japonês apaixonado pelo mundo das gueixas pode ser enquadrado dentro do gênero nikki (diário), bastante praticado na literatura japonesa. Esse gênero combina rememoração, ficção, poesia, crônica e ilustração.

No bairro de prostituição, Oe encontra-se com Oyuki, com quem mantém um caso. Em suas idas e vindas da periferia, pensa sobre o próprio processo de escrever, enquanto busca ideias para continuar o romance O desaparecimento, sobre um cinquentão que abandona a família para viver uma nova paixão.

Oe parece querer fugir não só do terremoto que destruiu a cidade em 1923, mas também do progresso industrial que oprime a classe rural e força os agricultores a venderem suas filhas a bordéis para conseguirem sobreviver.

A força dessa obra está no tom intimista. Não há lamentos escancarados pelo passado, apenas a constatação do escritor de que é um outsider, apreciador de uma outra época. “Na região de Tamanoi, dizem haver umas seis ou sete centenas de putas; dentre elas, uma em cada dez talvez ainda use o penteado à moda antiga. A maioria se veste como as garçonetes de bares, com quimonos modernos, ou ainda à ocidental, como as vedetes. A mulher que me dera refúgio contra o temporal pertencia ao pequeno grupo das que ainda se vestiam como outrora, e foi essa sensação — de que ela pertencia a uma cena esmaecida de outros tempos — que me levou a usar este estilo edulcorado e a querer evitar ferir a descrição da realidade com o simples intuito de ser mais original.” [p. 42]

O gosto pelo anacrônico e pelo melancólico, Kafu parece ter adquirido por influência de suas leituras e vivência na França. E ele consegue descrever a melancolia em tons suaves : “Eu achava tudo aquilo estimulante: o penteado fora de moda de Oyuki, a imundície do canal e o zunir dos mosquitos me traziam memórias de um passado de há três, quatro décadas. Expresso aqui minha gratidão a ela por me proporcionar essas sensações estranhas, por despertar essas lembranças antigas. Mais do que um ator de kabuki em uma peça de Nanboku, ou daquele cantor Tsuruga qualquer coisa (como é o nome dele, mesmo?) narrando a triste história de Rancho, Oyuki, artista de muito maior talento, tinha o poder de invocar o passado em silêncio.” [p. 70].

O contraponto entre o “zunir dos mosquitos” do bairro dos bordéis e ”os sons da cidade, todos misturados, rádio, carros, trem” marca a oposição entre a saudade do Japão tradicional e aquele que se reformulava após o periodo Meiji, de modernização do país. Mas essa oposição não traz revolta, apenas uma serena resignação. A mesma resignação que Yasunari Kawabata e Junichiro Tanizaki partilharam, na contemplação da beleza em decadência. O escritor, que precisa de silêncio para compor, foge da invasão do rádio e do gramofone dos vizinhos em sua biblioteca. É um solitário diante da invasão da modernidade, só na criação de seu romance e no seu envolvimento com a prostituta.

 

 

Oyuki é também, segundo o escritor, “testemunha de uma época passada”. Sua casa fora “esquecida pelas mudanças de tempo, preservando, de alguma maneira, memórias do início do período Taisho.” (p. 69) A casa da prostituta fica ” numa parte tão afastada do bairro que os rádios e gramofones eram abafados pelo som do passados e vozes dos transeuntes.” (idem). O isolamento dos ruídos urbanos faz com que a única música possível sejam as vozes das mulheres e o zunir dos mosquitos , evocando uma cena do mundo flutuante do período Edo: “Dentro e fora das casas, o zunir dos mosquitos sublinhava a desolação típica da periferia – não a solidão dos subúrbios do período Showa, e sim aquela tristeza antiga das peças do kabuki de Tsuruya Nanboku.”

A “outra margem” do título evoca não apenas a margem do Rio Sumida, que o personagem transpõe para chegar à zona de prostituição, mas sua posição à margem do progresso tecnológico. E sua adesão à companhia de uma jovem prostituta pobre é também a compaixão a essa população que vive à margem das grandes cidades. Citando um outro livro de Kafu (O sonho interrompido), é seu alter-ego Oe quem explica: “Assim como o palácio dos justos está sujo das fezes de corvos e ratos, também no vale do vício se encontram e se colhem às braças as belas flores da civilidade e do afeto e os frutos das lágrimas perfumadas dos sentimentos verdadeiros” [p. 85].

 

 

O AUTOR

Nagai Kafu nasceu em Tóquio em 1879. Desde a adolescência interessa-se por literatura e cultura tradicionais japonesa e chinesa, e aos 19 anos já escreve seus primeiros contos, que seriam publicados a partir de 1900. Em 1903 viaja a Nova York, onde trabalha em um banco japonês. Em 1906, por exigência profissional, muda-se para Lyon, na França, onde tem intenso contato com a cena literária, especialmente com a escola do simbolismo. Autor de romances, contos e peças de teatro, manteve intensa produção até sua morte, em 1959.

 

 

O ILUSTRADOR

Shohachi Kimura nasceu em 1893. Inicia a carreira de pintor na mocidade, atuando depois como crítico, especialmente do futurismo italiano e do cubismo de Pablo Picasso. Em 1915, funda com Ryusei Kishida, Sadao Tsubaki e Kazumasa Nakagawa a sociedade de belas-artes Sodosha. Além de traduzir para o japonês ensaios sobre arte contemporânea, é autor, junto com o fotógrafo Yoshikazu Suzuki, do álbum Ginza Kawai Ginza Haccho(1954), no qual reconstroem a história arquitetônica, prédio a prédio, de todos os quarteirões do bairro boêmio de Ginza. O artista falece em 1958.

 

 

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