MEMAI: LITERATURA — O SEXO NO JAPÃO SOB OLHAR OCIDENTAL

Capa de “Vita Sexualis”

Capa de “Vita Sexualis”

Vita Sexualis, de Ogai Mori (Estação Liberdade, 2014) aborda um tema que perpassa a história das artes japonesas: o sexo. O tema já era abordado nas gravuras japonesas e nos livros da primavera (shunga). O mais interessante do relato do protagonista do romance, o escritor  Shizuka Kanai, não são as aventuras eróticas, mas a narração de seu desenvolvimento sexual. O pioneirismo de Mori é relatar, no início da Era Meiji, sob ponto de vista supostamente autobiográfico, a descoberta da sexualidade na infância, através da gravura japonesa até a primeira noite com uma prostituta.

A subjetividade do narrador é nitidamente influenciada pela literatura ocidental. Kanai abusa de estrangeirismos para denotar sua intimidade com a alta cultura. Não faltam, é claro, os aspectos peculiares da vida japonesa, como  incursões por casas de chá, o mundo sensual das gueixas e as dinâmicas do omiai, a tradição japonesa dos casamentos arranjados.

 

O autor, Ogai Mori

O autor, Ogai Mori

Com pitadas precisas de humor e ironia, o livro também espelha a outra carreira do autor: médico de formação, tendo servido ao exército como cirurgião-geral na Guerra Russo-Japonesa, Mori investiga em sua literatura a importância do sexo na psique humana. Nascido em Tsuwano em 17 de fevereiro de 1862, Ogai Mori — cujo nome real era Rintaro Mori — formou-se médico na Escola de Medicina de Tóquio aos dezenove anos, e serviu como cirurgião-geral no Exército Imperial japonês. Enviado para treinamento na Alemanha, descobriu e se apaixonou pela literatura europeia. Começou a escrever críticas em jornais literários, ao mesmo tempo que passou a trabalhar seus próprios escritos. Tornou-se  célebre na literatura do país, catapultado como uma das referências do movimento modernista nipônico, ao lado de Natsume Soseki. Fez carreira também como tradutor e poeta, e fundou uma revista literária intitulada Subaru. Outras de suas obras referenciais incluem Maihime [A dançarina, 1890] e Gan [O ganso selvagem, 1911). Faleceu em Tóquio em 8 de julho de 1922.

 

 

TRECHOS

“Abandonei minhas sandálias de dedo de qualquer jeito, abri com ímpeto a porta corrediça e saltei para dentro, onde encontrei a tia lendo um livro junto a uma moça que eu não sabia de onde era. A moça estava com roupas todas vermelhas, e prendia o cabelo num coque baixo. Apesar de criança, pude imaginar que ela talvez fosse da cidade. Tanto a tia quanto a moça ergueram o olhar com grande espanto para me fitar o rosto. Ambas tinham a face rubra. Apesar de criança, compreendi que a aparência das duas não era normal, e achei esquisito. Observei que o livro que tinham aberto trazia muitas cores bonitas.” [p. 22]

“— Ei, vamos brincar!

Isso foi sua saudação. De pronto veio-me uma ideia à cabeça.

— Vamos. Vamos brincar de saltar daquela varanda.

Dizendo assim, descalcei as sandálias de dedo e subi na varanda. Katsu veio junto, removendo suas sandálias soladas de tiras vermelhas e subindo comigo. Saltei primeiro de pés descalços sobre os liquens do jardim. Katsu também saltou. Subi novamente na varanda, e dessa vez arregacei a barra do quimono.

— Para brincar assim, o quimono só atrapalha.

Saltei com ímpeto. Vi que Katsu, no entanto, não se decidia por fazer o mesmo.” [p. 33]

 

Fonte: 

 

 

 

MARILIA KUBOTA

MARILIA KUBOTA

é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.
MARILIA KUBOTA

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