MEMAI: Mostra de Cinema Nikkei começa nesta sexta em Curitiba

 
Por Marília Kubota
 

Começa na sexta-feira  (25) da próxima semana  a Mostra de Cinema Nikkei, no Cine Guarani, no Portão Cultural (Avenida República Argentina, 3430 – Curitiba), que tem entrada franca. Serão exibidos filmes dirigidos por cineastas brasileiros que exploram o tema da imigração japonesa ao Brasil e da questão da identidade dos nipo-brasileiros ou ainda, personagens de destaque da comunidade nipo-brasileira. O evento é promovido pelo MEMAI e apoiado pelo Consulado Geral do Japão e Fundação Cultural de Curitiba.

O cineasta londrinense Hikoma Udihara terá uma sessão especial, com filmes produzidos entre 1957 e 1959, registrando desde festas de nipo-brasileiros a cerimônias oficiais. Artistas que conseguiram projeção nacional, como o fotógrafo londrinense Haruo Ohara, o animador Ypê Nakashima, o quadrinista Claudio Seto e a pintora Tomie Ohtake são personagens de filmes; o HQ também tem espaço  :Piconzé, realizado por Ypê Nakashima, e  O Ovo e a Galinha, de Tako-x.  E não poderiam faltar obras que tratam da questão da identidade nikkei, como Ou est Le soleil (Onde está o sol), da francesa  Claire Sophie Dagnan, e Permanência, de Hélio Ishii, ou retratam comunidades consolidadas, como as do bairro da Liberdade, em Gambarê, de José Carlos Lage.

 

Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.

Outra curiosidade da programação é Yami no ichi nichi, de Mario Jun Okuhara, que traz o depoimento de Tokuichi Hidaka, o assassino do Coronel Jinsaku Wakiyama, comandante da Shindo Renmei. O filme ganha relevância porque seu protagonista, Hidaka, de 87 anos, depôs na Comissão Nacional da Verdade, no dia 10, comprovando os casos de tortura e violência aos direitos humanos no Presídio da Ilha de Anchieta, em São Paulo,  para onde foram mandados os “vitoristas” e “derrotistas” envolvidos com organizações ultranacionalistas japonesas.

 

 

PROGRAMAÇÃO

Sessões às 20 horas, entrada franca

 

25, sexta-feira | Curtas Contemporâneos

 

 

Retratos de Hideko (10 min.), Olga Futema, 1981 .

 

Chá verde e arroz (10 min.),1988.

 

Cena do filme “Chá verde e arroz”, de Olga Futemma

 

De Olga Futemma, a mostra apresenta Retrato de Hideko e Chá verde e arroz. Retrato de Hideko trata do mito da boneca perdida típica à mulher do dia-a-dia, quatro gerações da mulher japonesa: a luta pela sobrevivência, o culto às tradições, a adaptação à cidade e a diluição cultural. Chá verde e arroz tem como tema o cinema ambulante japonês nas comunidades do interior paulista, no final da década de 50. Ex-benshi (narrador de filmes japoneses) e seu assistente visitam uma pequena cidade e promovem uma sessão. Tudo é acompanhado por Jo, um garoto que adora cinema.

 

 

 

Haruo Ohara, Rodrigo Grota. (16 min.), 2010,

Satori Uso, Rodrigo Grota (17 min.), 2007.

 

Cena do filme “Haruo Ohara”, de Rodrigo Grota

 

De  Rodrigo Grota, serão exibidos Haruo Ohara e Satori Uso.  O primeiro é uma biografia lírica do Biografia do fotógrafo japonês radicado em Londrina, Haruo Ohara (1909-1999). O diretor remonta algumas cenas de fotografias que se tornaram famosas na obra de Haruo, como a do lavrador empunhando a enxada para o céu e a da menina saltando de sombrinha. Já Satori Uso simula, em ambientação de filme noir, um documentário sobre um poeta que nunca existiu apresentado por um cineasta imaginário: Jim Kleist. Inspirado na obra poética de Rodrigo Garcia Lopes (autor dos haicais).

 

 

 

O Samurai de Curitiba, Roberval Machado e José Padilha. (20 min.) , 2010.

 

Cena de O samurai de Curitiba.

 

De José Roberval Machado, o documentário O samurai de Curitiba, sobre o roteirista e desenhista Claudio Seto, com enfoque na sua produção de histórias em quadrinhos publicadas nas editoras Edrel e Grafipar entre os anos 60 e 80. Seto dedicou-se a diversos estilos de histórias, como de samurais, de terror, policiais e eróticas. Além dos enredos, foi um dos pioneiros do estilo mangá no Brasil, através da revista O Samurai, publicada na década de 60 pela Edrel. O filme também aborda a questão da censura, já que a publicação dos quadrinhos ocorria durante o governo militar e a maioria das histórias possuía teor erótico.

 

 

O Gralha, Tako x (20 min), 2002.

 

O Gralha  – O ovo ou a galinha, de Edson Takeuti (Tako-x)  presta homenagem aos super-heróis americanos, de forma irreverente  e com cor local.  Mais uma aventura do super-heroi curitibano em luta eterna contra seu inimigo mortal, O Craniano. O filme foi feito em 2002, depois de Tako-x participar de um curso com Tizuka Yamasaki. Ele escreveu e dirigiu um “live-action” , um filme com atores representando personagens de HQ.  Tako-x fez  mais 2 curtas: O Gralha e o Oil-Man – Um Encontro Explosivo e”O Apêgo.

 

 

 

26, sábado | Memória HIKOMA UDIHARA

 

Hikoma Udihara. Foto: divulgação.

Cenas do acervo do cineasta londrinense Hikoma Udihara, preservadas pela Cinemateca Brasileira e restauradas pelo pesquisador Caio Cesaro.

O primeiro cineasta do Norte do Paraná foi um  imigrante japonês Hikoma Udihara. Amador e intuitivo, apaixonado por fotografia e filmagens, fotografava e gravava tudo o que via: as visitas de conterrâneos a Londrina, visitas de políticos, autoridades, personalidades e dirigentes, inaugurações de lojas. Gravou mais de 100 filmes em preto e branco e mudos, em 16 mm.

De acordo com o pesquisador de sua obra, Caio Cesaro, sua primeira câmera foi comprada em 1927, em São Paulo.   Mostrava seus filmes em clubes, festas, encontros e, em algumas ocasiões comemorativas, marcava reuniões com os moradores dos lugarejos, vilas e cidades para que vissem as imagens. Os filmes eram projetados em paredes ou em lençóis esticados. Só parou de gravar em 1969, quando sofreu um derrame cerebral e ficou paralítico. Faleceu em São Paulo, em 1972, pouco antes de completar 90 anos Suas gravações, hoje, são consideradas documentários da colonização e  desenvolvimento do norte do Paraná, especialmente de Londrina.

Hikoma Udihara nasceu em  Kami-Yakawa,  província de Kochi, no Japão, em 1882. Chegou ao Brasil em 1910, indo trabalhar nas lavouras de café  no interior de São Paulo.   Depois de dois anos,  mudou para a capital. No início dos anos 20, Udihara começou outra atividade: corretagem de terras em novas fronteiras agrícolas no noroeste de  São Paulo e no norte do Paraná. Devido a sua facilidade em falar português, foi contratado pela Companhia de Terras do Norte do Paraná para essa função.

De janeiro de 1930 a 4 de março de 1955, quando se desligou da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (sucessora da CTNP), fundou 31 núcleos de colonização japonesa no norte do Paraná. Em junho de 1956, pouco depois de se desligar da CTNP/CMNP, publicou História da minha vida e de minhas atividades no Japão e Brasil, uma brochura autobiográfica.

Um episódio resgatado por Caio Cesaro revela a importância histórica de seus registros fílmicos. A colônia japonesa produzia hortaliças, frutas e grãos (café, arroz, milho e feijão), mas tinha dificuldades de comercializar o excedente da produção. E esses japoneses não tinham para onde mandar a produção, não havia estrada para lugar nenhum. Nem para Curitiba, nem para São Paulo. Os potenciais compradores – os grandes mercados consumidores – ficavam muito distantes. As estradas eram precárias, sem qualquer tipo de pavimentação. O transporte rodoviário era uma aventura cara, demorada e incerta Udihara resolveu filmar a situação e com o material em mãos viajou para Curitiba para mostrar às autoridades. Como o filme era mudo,  ficou toda apresentação ao lado das imagens narrando. A ação surtiu efeito e estradas foram construídas. Muito se afirma que o desenvolvimento da região tem a influencia desse fato, ele continuou a realizar essa tarefa de denunciar problemas ao mesmo tempo em que fazia propagandas publicitárias para a venda de terras, ele afirmava que era necessário para custear os caros equipamentos e materiais de filmagem.

Udihara sensibilizou e revelou 128 rolos de pelìculas fílmicas. Todos os filmes são silenciosos, sem banda sonora. As imagens foram tomadas à velocidade de 18 quadros por segundo. O tempo de duração de cada filme é relativamente curto, os mais longos atingem entre 13 e 14 minutos de imagens em movimento, ou seja, a capacidade média de um rolo de película fílmica para o formato 16mm à época. Ao todo, os filmes somavam cerca de 10 (dez) horas de imagens.

Em 1979,  seu filho Issao Udihara, doou o acervo do pai ao Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Em 1983 a UEL encaminhou o acervo para recuperação à Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

 

 

 

27, domingo | HQ Piconzé

 

Cartazete do filme Ypê Nakashima.

(80 min.)m 1972, Ypê Nakashima  ( 60 min), Hélio Ishii, 2009.

 

PICONZÉ e DOCUMENTÁRIO

Piconzé  foi filmado em negativo colorido, 35 mm, acumulou 25 mil acetatos, igual quantidade de animação e intervalação, 300 cenários.  O personagem-titulo  vive na pacata vila do Vale Verde, com seu amigos   Louro Papo, Chico Leitão. Gustavo Bigodão e seu bando passaram a roubar Vale Verde. Num assalto, Bigodão rapta Maria Esmeralda, a namorada do Piconzé. Piconzé e sua turma partem para salvá-la. Depois de muitas aventuras,  encontram um ermitão que ensina Piconzé  a lutar para enfrentar o Bigodão. Piconzé consegue salvar Maria Esmeralda. No fim,  a paz e tranqüilidade voltam a Vila Verde.

Itsuo Nakashima vivia contando as histórias de seu pai para família e amigos. Um dia, contou para o cineasta Hélio Ishii e este resolveu fazer um filme sobre o animador, com o título de seu personagem. Em 2007, o cineasta  lançou  o documentário Ypê Nakashima, baseado no depoimento de  Itsuo   e da  netas Larissa e Lorena, que nunca  tendo tido contato com o avô.  O testemunho de Itsuo divulga para um público  mais amplo passagens curiosas da vida de Ypê Nakashima. Apesar de ter combatido na Segunda Guerra mundial,  na artilharia antiaérea em Nagasaki,  o animador parece não ter sido abalado por  traumas.m tinha um  espírito alegre e descontraído.

Ypê Nakashima

Nos anos 70, o imigrante japonês  Ypê Nakashima fez o primeiro longa metragem  colorido em animação do Brasil.  Piconzé  é um filme com 80 minutos desenhados à mão livre, quadro a quadro rascunhados, traçados, refeitos e pintados.  O processo artesanal do filme, que contou com uma equipe de produção não-profissional, chamou a atenção dos pesquisadores para a persistência de Nakashima.

O animador nasceu em 5 de junho de 1926, na província de Oita, na extremidade sul do arquipélago japonês. Quando tinha 17 anos, entrou na Escola de Belas Artes de Kyoto. Aos 19, foi forçado a interromper os estudos, convocado a prestar serviços na guerra. Foi designado a servir em Nagassaki. Terminada a guerra, voltou aos estudos. Trabalhou para  jornais  Mainichi Shimbum; Assahi Shimbum; Yomiuri Shimbum, fazendo charges, tiras, e ilustrações.Viveu cerca de dez anos em Kyoto.

Em 1956,  já casado e com o filho Itsuo,  embarca para o Brasil. Em São Paulo, Ypê se inteirou  com a colônia japonesa. Prestou serviços para Nippak Shimbum, São Paulo Shimbum, Cooperativa Agrícola de Cotia. Começou a pesquisar cinema de animação, associando-o à fascinação pelas lendas e folclore brasileiros. Criou o personagem Papa-Papo, um papagaio, com o qual fez inúmeros curtas-metragens, nunca exibidos em qualquer circuito.

Em 1966, faz contato com o Japão para começar a  produção de um longa metragem, que finalizou em 6 anos. Piconzé estreou em 1972 e recebeu o prêmio Coruja de Ouro do Instituto Nacional do Cinema (INC). Em 6 de abril de 1974, Ypê Nakashima morreu, com 47 anos de idade. Em  25 de maio de 1975, Ypê Nakashima recebeu postumamente, o prêmio – GOVERNADOR DO ESTADO – entregue a seu filho Itsuo,  no Palácio dos Campos Elíseos.

 

 

28, segunda | Não há sessão.

 

 

29,  terça Nikkei

Gambarê, (52 min.) de José Carlos Lage, 2005. Yami no ichi nichi, ( 80 min) . Mario Jun Okuhara, 2012.

 

30, quarta Trânsitos

Permanência (60 min). Hélio Ishii, 2006, Ou est Le soleil (52 min). Claire Sophie Dagnan,  2011.

 

31, quinta Arte

À flor da pele  (52 min), de Bettina Turner, 2002, Tomie Ohtake ( 67 min.), 2003.

 

 

 

SERVIÇO

Mostra de Cinema Nikkei

Quando: de 25 a 31 de outubro, a partir das 20 hora, menos às segunda-feiras

Onde: Cine Guarani, no Centro Cultural Portão – Curitiba-PR

 

 

Fonte: 

 

 

Marilia Kubota

é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.

 

 

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