MEMAI: O Segredo da Espada Japonesa

Por que os ocidentais são fascinados por samurais e artes marciais ? Desde o século XIX , quando começou a modernização no Japão, no período Meiji, a imagem  do samurai foi reconstruída no Ocidente. Os guerreiros japoneses vinham sendo destituídos de poder e influência  gradativamente, nos séculos anteriores. No período Meiji tornam-se figuras meramente decorativas. Daí seu estereótipo, representando disciplina, lealdade, honra, ter sido apropriado pela indústria cultural. E formando uma imagem que se dissemina em mangás, animês, no cinema e na literatura de massa.

 

Espadas, a arte de Edson Suemistu. Foto: site Edson Suemitsu.

Espadas, a arte de Edson Suemistu. Foto: site Edson Suemitsu.

 

Os ocidentais  não são fascinados apenas pelos samurais. Seu  símbolo, a espada japonesa (Nihonto) passou a ser cultuado com devoção,talvez porque a espada represente poder. No imaginário universal,  é  famosa a espada lendária de Rei Arthur, Excalibur, e outros heróis também nomeavam suas espadas. As espadas japonesas mais antigas são as relatadas no Kojiki, um texto que mistura fato e mito, tido como o primeiro livro oficial de história do Japão, escrito em 712 d.C. De acordo com a lenda, a espada faz parte dos três “tesouros sagrados do Japão” – um espelho, um colar e a espada. Essa também tem um nome:  Kusanagi no Tsurugi. 

Forjando espada artesanalmente. Foto: site Edson Suemitsu.

Forjando espada artesanalmente. Foto: site Edson Suemitsu.

As espadas artísticas passaram a ser valorizadas no domínio do shógum Tokugawa. Nessa época, na falta de terras , usava-se a  espada para presentear nobres e  aliados.  Aí passaram a ser fabricadas com esmero artístico. Em 1876, o imperador Meiji baixou uma lei que proibiu o porte de armas de fogo e e armas brancas. Na 2a. Guerra os soldados japoneses foram armados com espadas e a produção voltou. Depois da derrota, as katanas tornaram-se “arma maligna símbolo do inimigo”, e proibida no território administrado pelo General Douglas MacArthur. Esse ordenou a destruição de todas as espadas japonesas. Um professor,  Junji Honma, salvou as artísticas, explicando ao general de seu valor.

Curitiba abriga um fabricante de espadas artísticas. Edson Suemitsu, um paranaense natural da cidade de Bandeirantes, situada no oeste do estado,  afirma que faz parte da sétima geração de uma família de samurais. Viveu a infância e adolescência em uma cidade próxima, Jacarezinho e hoje vive  em Curitiba. Desde criança sentia-se atraído por trabalhos com uso de metal, e já brincava com espadas de madeira. Ia no ferro-velho e achava barra de ferro e brincava de fazer espada, ou forjava facas e instrumentos cortantes, numa oficina mecânica vizinha, conta. Aos 29 anos, começou a estudar  a arte da fabricação de espadas japonesas.  Tempos depois, forjou a primeira espada artística, iniciando-se como katana kaji (forjador de espadas). Aí surgiram várias encomendas e o filho montou um site para ele. Apesar do sucesso, a prática só se tornou uma profissão rentável há cinco anos.

A família Suemitsu é conhecida na comunidade nipo-brasileira de Curitiba.  Tome Suemitsu, a atualmente com 105 anos, avó de Edson, é sua integrante mais idosa.  Como o katana kaji, seus irmãos também praticam  Ki-Aikido, ramo de aikido criado pelo mestre Koichi Tohei , derivado da arte marcial fundada por Morihei Ueshiba.  Edson é um artesão e cada katana que fabrica é uma peça única. Depois de ver a forma final da katana, muita gente pode não acreditar nas ferramentas que Suemitsu usa. Quase todos os equipamentos de sua cutelaria improvisada nos fundos de uma oficina mecânica foram criados por ele mesmo. O interessante é que tanto antigamente como hoje, uma kataná tradicional é  feita com três instrumentos rudimentares: uma tenaz, um malho e uma bigorna. O processo baseia-se no antigo método chinês de aquecer, dobrar e achatar o metal repetidas vezes, até conseguir dar a forma que se deseja ao metal. É estressante, por isso, para produzir uma espada artesanal é preciso ter persistência  e paciência.

Segundo ele, seus ancestrais também eram katana kajis. Quando criança, intuitivamente ele tomou conhecimento dessa herança.  À medida em que foi amadurecendo, foi aprendendo a arte, como  autodidata. Ele acredita que uma força sobrenatural o guiou para esse caminho. Quando sua tia  esteve na província de Kagoshima, no Sul do Japão, confirmou  que os ancestrais  forjavam katanas. Edson acabou estudando toda a linhagem da família e conhece toda a árvores genealógica, até o tataravô.

 

Katana, uma paixão universal. Foto: Site Edson Suemitsu.

Katana, uma paixão universal. Foto: Site Edson Suemitsu.

 

Na comunidade nipo-brasileira,  a crença na reencarnação e em preceitos herdados das religiões shintoístas e budistas é disseminada. Temas tabus para os católicos, como a reencarnação  e crença em espíritos são relatadas não apenas por grupos religiosos, mas também de pai para filho. Edson preserva o imaginário em que convivem princesas, guerreiros e a figura onipresente do Imperador, contando histórias fantásticas, que encantam os ouvintes.  As raízes nobres estão registradas  no Koseki Toohon, segundo ele. O Koseki Toohon é um documento emitido por todas as prefeituras japonesas e traz a genealogia da família.

Além de forjar a lâmina da espada, e fabricar artesanalmente o cabo, tudo com material importado do Japão, Edson faz um ritual para elas. O katana kaji as benze para que recebam boas energias espirituais. Tal ritual está de acordo com uma tradição que só os japoneses conhecem: manter uma katana em casa, segundo acreditam, traz boa sorte para a família. O artesão explica que mesmo uma espada usada pode ser benzida para trazer bons eflúvios para seu proprietário. Devido ao conhecimento da tradição, muitas famílias japonesas o procuram   para “resolver problemas familiares” com o benzimento de uma espada.

Katanas herdadas de ancestrais ou compradas como peças de decoração podem atrair “energia ruim”, segundo Edson. Isso se deve ao fato de que algumas katanas, compradas em sites estrangeiros foram roubadas ou pertenceram a pessoas que as venderam muito barato aos soldados americanos, durante a proibição de MaCArthur.  Por isso, a necessidade tanto de saber a origem da espada quanto fazer o ritual de benzimento. O artesão ainda ressalta que a katana fabricada por mãos japonesas é mais valiosa, não no sentido estritamente monetário. O maior valor de uma espada feita por mão japonesa é o sentimental, passa ser uma shinken, detalha. Em japonês, shinken significa “espada real”.   Esse tipo de espada é a considerada sagrada pelos japoneses e descendentes, que a buscam manter num altar budista.  Atualmente, não só japoneses desejam esse tipo de proteção. Os não descendentes também reconhecem o valor de tal instrumento, afirma Edson.  Por isso a fama do artesão só tem crescido.

 

 

Reportagem Gazeta do Povo

 

 

 

Fonte: 

 

MARILIA KUBOTA

MARILIA KUBOTA

é editora do JORNAL MEMAI, mestranda em estudos literários (UFPR) e organizadora do livro “Retratos Japoneses no Brasil” (2010), e integrante de 7 antologias de poesia e prosa.
MARILIA KUBOTA

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