MEMAI: O TRANSPORTE COLETIVO NO JAPÃO

 

Por Eduardo Mesquita Pereira Alves / Memai

 

Estação de Kamakura. Foto: Nihon Go!

 

O sistema de transporte do Japão é complexo o suficiente para ser explicado num livro, porém opto por algo curto, uma visão mais pessoal da minha experiência com o sistema. Escrevo sobre Tóquio, com foco no transporte coletivo. Trata-se de uma cidade com proporções imensas, de leste a oeste são aproximadamente 100 quilômetros  de extensão. Além disso, tem uma população de 14 milhões de pessoas (se formos contar a região metropolitana, são 35 milhões). Para lidar com esses números, é preciso um sistema de transporte eficiente, e ele de fato é. A locomoção na cidade se dá principalmente de trem, e a malha ferroviária é extensa. Isso significa que, a princípio também aparenta ser bastante confusa.

A escolha do trem é um procedimento quase ritualístico. Como a cidade é enorme, a possibilidade de linhas é extensa, os valores variam bastante e é preciso tentar achar os melhores trajetos. Para isso, usava o site Jorudan, no qual você escolhe de onde vai sair, para onde vai, em que horário quer partir, em que horário quer chegar, e a partir do conjunto de informações, a ferramenta de busca apresenta uma lista de opções de trajeto indicando a mais rápida, a mais barata, e a mais prática. Enfim, uma ferramenta essencial para iniciantes e veteranos. A propósito, no inicio eu seguia as sugestões cegamente, mas com tempo e experiência, é possível desenvolver algumas rotas alternativas úteis.

Como morador de um subúrbio de subúrbio de Tóquio, o bairro Takiyama em Hachioji, é preciso ainda se preocupar com um meio de transporte intermediário para chegar às estações. A princípio, a bicicleta é a opção óbvia para quem possui uma, mas questões de horário, estacionamento e, naturalmente, preguiça, podem tornar os ônibus  atrativos, apesar de uma série de desvantagens. Explico, os ônibus (ao menos em Hachioji) são pequenos, apertados, caros e com um sistema de pagamento desesperador. Quem não possui um cartão Suica ou similar, parecido com nosso Cartão Transporte de Curitiba, precisa fazer o seguinte: na entrada no veículo retira-se um bilhete que indica seu ponto de partida. A partir de um painel (eletrônico ou não), na parte da frente do ônibus, o passageiro calcula o valor do percurso conforme o ponto de chegada. O pagamento deve ser feito com a quantia exata de dinheiro. Caso seja necessário, há uma máquina de troco ao lado do motorista. Ao menos para mim, a tensão era grande ao contar as moedas apertado e em pé, descobrir que faltava o valor, chegar no ponto, me atrapalhar na contagem, pegar o troco, inserir um valor incorreto na máquina. Ao menos uma vez o motorista me deixou descer sem completar o valor integral, por bondade, acredito, mas podia ser impaciência ou pressa. O que me lembra algo interessante, os motoristas de ônibus narram a viagem, cada parada, cada conversão à direita ou esquerda é acompanhada pela voz nasalada que antecipa o movimento.

Na estação surge outro momento importante do ritual:  escolher um destino em um enorme mapa de estações que fica próximo das máquinas automáticas de compras de passagens. Os valores para chegar a cada estação variam não só conforme a distância, mas conforme a linha e a companhia (existe mais de um empresa operando trens até mesmo com destinos iguais). Exemplificando: para sair da estação de Hachioji e ir até Shinjuku (37 km), a estação mais importante no centro de Tóquio  (mais de 3,5 milhões de usuários por dia), com a maior opção de linhas, inclusive, existem duas opções: JR Linha Chuou ou Linha Keiô Hachioji. A primeira custa cerca de 9 reais, enquanto a segunda custa 7, ou seja, é um sistema eficiente mas não barato, para padrões brasileiros (ou seria, proporcionalmente pela distância percorrida?). Até mesmo o ônibus do alojamento em que morava até a estação Hachioji tinha um preço salgado, cerca de 4 reais para percorrer algo em torno de 3 ou 4 km.

De qualquer forma, essas duas linhas não vão a qualquer lugar da cidade, então é muito normal que sejam feitas algumas trocas de trem (norikae) no caminho, e para cada troca é uma nova passagem a pagar (existem algumas exceções). No início eu achava confuso, principalmente pois mesmo estações pequenas têm várias plataformas, e em cada plataforma diversos trens de diversas linhas operam, então é preciso ficar atento para não subir no vagão errado. Além disso, existem diversos tipos de trens, Local (各停), Expresso ( 急行), Semi-expresso limitado (準特急) e expresso limitado (特急), que param em mais ou menos pontos, respectivamente nessa ordem. Isso significa que é necessário um pensamento estratégico, nem sempre o primeiro trem a passar é o melhor, afinal, você pode pegar um trem local e 5 minutos depois passaria um Expresso Limitado que vai chegar no destino 10, 15, 20 minutos antes.

Hachioji é o ponto final da linha Keio e um ponto importante na Chuo, de forma que qualquer um desses para por lá, e geralmente, pela posição da estação, é possível ir sentado, então o tempo não importa tanto. Entretanto, pegando trens em outras estações mais centrais e cheias, a atenção para o tempo é importante. Considerando que os trens podem ficar completamente lotados, pegar o trem “correto” é uma questão de menos tempo apertado e em pé.

Falando em conforto, tanto trens como ônibus têm ar condicionado, o que é realmente essencial, tendo em vista que, como comentei em outros posts do meu blog, o verão japonês daqui é extremamente rigoroso. A propósito, apesar de não tão utilizados em Tóquio,  os ônibus em Kyoto são o principal meio de transporte, e via de regra levam a qualquer lugar por 190 ienes (4 reais). Com 500 ienes (10 reais) é possível comprar um passe livre por um dia, o que é bastante útil no verão, e no calor insuportável da cidade eu chegava a pegar o ônibus para andar apenas 3, 4 quadras. Coisa de turista.

Sobre os costumes e hábitos dentro dos trens e ônibus, impossível não falar do comportamento mais comum para os japoneses: dormir. Seja sentado, seja em pé, eles entram no trem, fecham os olhos e pronto. Às vezes isso gera situações desconfortáveis, como alguém do seu lado tombando a cabeça em cima de você, mas, acostuma-se. Outra coisa comum nos trens é a leitura de livros e mangás. Como eles se locomovem rápido mas, digamos assim, mais delicadamente que veículos sobre rodas,  não é necessário ficar se segurando o tempo todo como se sua vida dependesse disso, o que permite esse tipo de atividade. Também é comum encontrar jovens, crianças e mesmo adultos com videogames, especialmente o Nintendo DS (ao menos em 2010). As pessoas que não estão fazendo nada disso costumam ficar mexendo em seus celulares (é raro ver um japonês que não esteja agarrado ao celular 24h por dia, e é interessante que quando esse post foi escrito originalmente, smartphones não eram comuns no Brasil, então era algo que me chamava muito a atenção; hoje a diferença entre o japonês e o brasileiro é que este último é  especialista em esbarrar nos outros, tropeçar e cometer barbeiragens com celular em punho).

Por sinal, dentro dos trens existem dezenas de placas e avisos dizendo para deixar o celular no modo silencioso, e próximo dos bancos preferenciais é preciso desligá-los, nem é preciso dizer que não há problemas com música alta (com ou sem fone) dentro dos veículos. Ainda nesse quesito de educação também se sugere que quem estiver de mochila tire ela das costas e ponha para a frente, não por medo de ser roubado, como no Brasil, mas para não esbarrar nos outros. Por fim , também há avisos dizendo para as pessoas se sentarem bem próximas umas das outras de forma a caber mais gente nos bancos. Em Curitiba existe uma disputa de vida ou morte pelos bancos individuais, imagino o choque que seria esse tipo de determinação por aqui.

Enfim, existem muitas coisas que devo ter esquecido, mas creio que é o suficiente para dar uma ideia geral da experiência do sistema.

 

 

 

Eduardo Mesquita Pereira Alves 

é advogado, graduado em Direito pela UFPR, sócio da Sunye, Pereira Alves e Oliveira Viana – Sociedade de Advogados, e estudou na Soka University, de abril de 2010 a fevereiro de 2011. É autor do blog Nihon Go!

 

 

 

 

 

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