MEMAI: POLÍTICA | COMO SÃO OS PROTESTOS NO JAPÃO

 

Por Eduardo Mesquita Pereira Alves / Memai

 

 

Com as recentes manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo, a expansão dos protestos contra problemas crônicos da sociedade brasileira, bem como contra a conhecida, porém muitas vezes ignorada truculência da PM, comecei a me perguntar sobre a ocorrência de situações semelhantes no Japão. Por coincidência,  quando estava lá, também tive curiosidade semelhante, mas não me aprofundei. Revendo o que investiguei naquele tempo, não achei muita coisa diferente. Assim, desde já, peço que, se alguém conhece melhor o tema, contribua com comentários, links. Posto aqui, como sempre, como leigo interessado, não como especialista.

A impressão que fica ainda é a mesma, poucas manifestações populares, questões pontuais, ausência de continuidade, números pequenos. Para falar a verdade, no feeddo Partido Comunista no Facebook (assino todos os partidos, é uma boa fonte de informação sobre as ideologias que permeiam a política japonesa), que vejo toda semana alguns movimentos menores, especialmente de classes específicas de trabalhadores, protestos contra energia nuclear e contra o TPP (Transpacific Partnership).

De qualquer forma, vou compartilhar aqui as manifestações mais enérgicas que encontrei, e depois vou tecer comentários sobre isso. E, aproveitando a carona, sobre o que penso do que estamos vendo no Brasil

 

 

 

 

Revolta do Arroz (1918)

É, tive que voltar  quase cem anos no tempo para achar algum protesto bem inflamado. E esse foi o maior do Japão moderno, e também tem a ver com aumento em preço, mas em vez de um serviço essencial, trata-se do alimento essencial do japonês, obviamente, o arroz.

De 1914 à 1918, o preço do arroz tinha ficado praticamente inalterado em torno dos 15 ienes. Em 1918, subiu para 50 ienes. O custo de vida evidentemente subiu, os jornais fizeram enorme alarde sobre a incapacidade do governo em conter a escalada dos preços, gerando um sentimento de insegurança, que culminou com uma série de manifestações violentas em centenas de cidades e vilas japonesas, entre o dia 11 e 20 de agosto daquele ano.

O governo reprimiu violentamente o movimento, com mais de 25 mil pessoas presas, aplicação de penas capitais, que mesmo assim não contiveram as revoltas. Tudo isso levou à queda do primeiro-ministro e à formação do primeiro Gabinete Partidário do Japão, ou seja, gabinete (órgão máximo do poder executivo) formado pelo partido com maioria no parlamento. Até então, o gabinete era formado por uma elite política ligada ao Imperador, externa ao sistema parlamentar.

 

 

Revolta Koza

É a mais recente, ocorreu em 20 de dezembro de 1970,  25 anos depois da ocupação americana da ilha de Okinawa, 5 mil habitantes se rebelaram e entraram em confronto com 700 membros da Polícia Militar dos Estados Unidos.

Mais do que a indignação com a presença estrangeira, foi fruto da revolta contra a extraterritorialidade jurisdicional, que impedia que americanos  criminosos  e abusadores da população japonesa fossem julgados pela justiça local.

Os japoneses destruíram mais de 75 carros, causaram incêndios, feriram 56 soldados americanos. Houve ainda feridos entre os policiais de Okinawa e evidentemente entre os manifestantes, além de dezenas de presos.

O evento fomentou forte sentimento anti-americano, ou melhor, antipresença militar americana. O governo japonês adotou postura conciliadora, conseguiu acalmar ambos os lados. Do lado americano, milhares de soldados pediram dispensa ou foram transferidos. Do lado japonês se tornou comum entre a população de Okinawa organizar atos mais pacíficos contra a base dos fuzileiros navais.

 

 

Incidente de Airin

Esse sim, é bem recente. Em 1990, foram 5 noites de conflito entre 2500 policiais e 1500 manifestantes, que arremessaram pedras na polícia, queimaram prédios, destruíram patrimônio público. Foram mais de 200 feridos e 50 e poucos presos.

O distrito de Airin, em Osaka, é conhecido pela criminalidade, pela presença maciça da Yakuza, bem como por uma população marginalizada de trabalhadores braçais e alcoólatras. Os constantes abusos da polícia corrupta da região culminaram com essa explosão da população, após a prisão de um homem, motivada por um discurso contra o imperador.

 

 

Protestos anti-energia nuclear

Protestos contra a geração de energia por meio das usinas nucleares sempre foram uma constante no Japão. Mas desde o incidente em Fukushima, não só se tornaram  comuns, como atingiram proporções enormes. Em 16 de julho de 2011, estima-se que quase 200 mil pessoas se reuniram em Tóquio para protestar. Esses eventos não registraram ocorrências violentas, no entanto. Também não tiveram muito resultado.

Enfim, no Japão, como aqui, se protestou contra o aumento de preços, contra o abuso de poder da polícia, e diferentemente daqui, contra uma presença estrangeira que muitas vezes parece violar a soberania da nação, bem como contra a geração de energia nuclear que já fez o país sofrer .

No final das contas, minha impressão é que o efeito dos protestos não foi grande. Na revolta do arroz provocou a queda do primeiro-ministro, mas em 2 anos, a situação não só foi revertida como piorou, com uma onda de autoritarismo que levou ao desastre da participação japonesa na Segunda Guerra.

Koza fomentou muita discussão, mas, 43 anos depois,  a base americana continua em Okinawa.

O incidente de Airin não mudou a realidade de Airin, e os movimentos anti-nuke não impediram o religamento das usinas nucleares do Japão.

 

O maior crime cometido na humanidade não causou nem um motim. Só a diáspora da herança cultura japonesa no mundo. Foto: Hiroshima mon amour.

 

 


Eduardo Mesquita Pereira Alves é advogado, graduado em Direito pela UFPR, sócio da Sunye, Pereira Alves e Oliveira Viana – Sociedade de Advogados, e estudou na Soka University, de abril de 2010 a fevereiro de 2011. É autor do blog Nihon Go!

 

 

 

 

 

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