MEMÓRIA: Luta de nipo-argentinos ‘quebra’ silêncio na Argentina e ganha voz também no Brasil

Depois de romper o silêncio na Argentina, a luta do Grupo dos Familiares de Desaparecidos Nipo-Argentinos, que reúne familiares das vítimas dos crimes cometidos pelo governo durante o regime militar naquele país, ganhou voz também na comunidade nipo-brasileira com a presença de Elsa Oshiro, irmã de Jorge Eduardo Oshiro, sequestrado e morto em 1976. Acompanhado do marido, Humberto, e do sociólogo e editor da revista La Roca, Alejandro Asciutto, Elsa esteve em São Paulo na semana passada parta divulgar o documentário “Silêncio Quebrado. 16 Nikkeis”, idealizado por Karina Graziano e dirigido por Pablo Moyano.

 

Familiares de nikkeis vítimas do regime militar na Argentina: em busca da memória, verdade e justiça. Foto: Reprodução

Familiares de nikkeis vítimas do regime militar na Argentina: em busca da memória, verdade e justiça. Foto: Reprodução

 

Com duração de 70 minutos, a produção foi exibida no Cinema da Universidade de São Paulo, na Associação Okinawa Kenjin do Brasil e dentro da programação do Cine Direitos Humanos, no Shopping Frei Caneca – uma realização da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo em parceria com o Espaço Itaú de Cinema. O Jornal Nippak esteve presente em duas das sessões, na AOKB e no Espaço Itaú, onde ocorreram debates com a presença de Elsa Oshiro, e do ex-deputado estadual Adriano Diogo, que presidiu a Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Também participaram e apoiaram a realização dos debates o produtor Mario Jun Okuhara, idealizador do Projeto Abrangências, e a pesquisadora, professora e atriz Alice K.

Apresentado pela primeira vez em março de 2015 – juntamente com o livro do jornalista Andrés Asato –, o documentário conta a história dos japoneses e descendentes sumidos na ditadura militar argentina (1976-1983) e durante o terceiro governo peronista (1973-1976) através de depoimentos das famílias Gushiken (Carlos Horácio), Asato (Juan Alberto), Nakamura (Jorge), Gushiken (Julio Eduardo), Dakuyaku (Ricardo) e Matsuyama (Norma Inés).

 

Humberto, Alice K., Alejandro, Elsa Oshiro e Mario Jun. Foto: Aldo Shiguti

Humberto, Alice K., Alejandro, Elsa Oshiro e Mario Jun. Foto: Aldo Shiguti

 

Apesar do documentário ostentar no título “16 Nikkeis”, na verdade, são conhecidos oficialmente 17 casos. O último, explica Elsa, constava apenas o sobrenome Cardozo. Após a conclusão do documentário, descobriu-se que, na verdade, se tratava de Juan Alberto Cardozo Higa, filho de mãe de origem okinawana.

Com relatos fortes e emocionante, as famílias contam como seus parentes foram sequestrados – muitos dentro de suas próprias casas, tendo as famílias comos testemunhas. Uma das desaparecidas,  Norma Inés, estava grávida.

Segundo Elsa, dos 17 casos envolvendo vítimas nikkeis – na Argentina foram mais de 30 mil pessoas desaparecidas –, 14 foram foram sequestradas e desaparecidas, 2 foram mortos no momento da detenção e um foi morto pela “Tríplice A”. Treze das vítimas eram descendentes de okinawanos.

 

Público no debate realizado na Associação Okinawa Kenjin do Brasil. Foto: Aldo Shiguti

Público no debate realizado na Associação Okinawa Kenjin do Brasil. Foto: Aldo Shiguti

 

Identificação – Atualmente funcionária do Ministério da Educação da Argentina, Elsa Oshiro ficou empolgada com a receptividade dos brasileiros. “Foi a importante a participação de pessoas de várias gerações. Senti que houve uma identificação com o que ocorreu com algumas famílias nikkeis no Brasil e o filme ajudou muito pois uma imagem vale mais do que mil palavras”, disse Elsa.

 

Público lotou a sessão no Espaço Itaú de Cinema na Frei Caneca

Sessão no Espaço Itaú de Cinema na Frei Caneca. Foto: Aldo Shiguti

 

Tabu – Irmã mais velha do estudante secundarista Jorge Eduardo Oshiro, de 18 anos, sequestrado em 10 de novembro de 1976 durante operação militar – na época, Jorge Eduardo militava no Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) –  Elsa conta que foram anos de silêncio. Para muitas famílias, o assunto era visto como um “tabu” e até mesmo uma “desonra ser contra o governo do país que os acolheram”. Sentimentos que, de certa forma, começaram a mudar com o trabalho do Grupo dos Familiares de Desaparecidos Nipo-Argentinos, formado em 1978.

No início, lembra Elsa, encontraram resistência da Embaixada Japonesa, que alegava não poder intervir nos problemas internos da Argentina. Em 1982, o grupo ganhou um forte aliado, as Mães da Praça de Maio. Em janeiro de 1999, a Embaixada Japonesa enfim comunicou que o governo japonês havia decidido incluir o tema dos desparecidos nikkeis na agenda bilateral dos dois países.

 

Público lotou a sessão no Espaço Itaú de Cinema na Frei Caneca. Foto: Aldo Shiguti

Público lotou a sessão no Espaço Itaú de Cinema na Frei Caneca. Foto: Aldo Shiguti

 

Objetivos – Em 2001, durante a 2ª Semana do Japão em La Plata do Centro de Estudos Japoneses do Departamento da Ásia e do Pacífico, o Grupo dos Familiares de Desaparecidos Nipo-Argentinos organizou uma especie de “documento base” com relatos das origens e história de vida dos desparecidos. A última atualização ocorreu em 2011 com o título “Dezessete histórias entre trinta mil. Os desparecidos da coleitvidade japonesa na Argentina”.

No 25º aniversário do golpe de estado, o grupo confeccionou sua própria bandeira. Para Elsa, desde o surgimento do grupo, dois dos acontecimentos mais significativos foram as cerimônias por ocasião da restituição dos restos de Carlos Horácio, em 2004, e Júlio Gushiken, em 2005.

Elsa explica que, hoje, a luta é para “honrar a memória dos desaparecidos” e para que “as marcas não sejam apagadas”. “Continuamos lutando para que se tornem públicos os arquivos da ditadura”, diz ela, acrescentando que o grupo busca três objetivos: preservar a memória, estabelecer a verdade e que seja feita justiça.

Para o sociólogo Alejandro Asciutto, a vinda de Elsa ao Brasil e a exibição do documentário são importantes para mostrar “os pontos em comum que existem entre a Argentina e o Brasil durante o regime militar”. “Lamentavelmente a América Latina tem histórias de atos de violação contra os direitos humanos”, conta Alejandro, que destaca o papel da Comissão da Verdade, “que “abriu essa porta para que pudéssemos cruzar nossas experiências”.

 

Adriano Diogo com Elsa Oshiro na Associação Okinawa

Adriano Diogo com Elsa Oshiro na Associação Okinawa

 

Em São Paulo – Já Adriano Diogo observou o “lado humano” do encontro. “Embora tenham histórias políticas, estamos falando da relação de seres humanos com a realidade. As pessoas que participaram dos debates esperando algo político, começaram a se desarmar porque perceberam que era uma coisa de pessoa para pessoa, de histórias familiares”, disse Diogo, lembrando que a Comissão da Verdade investigou e apurou oito casos envolvendo nikkeis no Estado de São Paulo (veja lista).

Para Elsa Oshiro, as famílias não querem que as vítimas sejam tratadas como “mártires”. “Elas foram vítimas de um crime praticado pelo Estado. Não roubaram nada. O que nos une é que temos em comum o fato de termos em nossas famílias um membro ausente”, explicou Elsa, acrescentando que o grupo estará representado no 6º Festival Mundial Uchinanchu que será realizado de 26 a 30 deste mês, em Okinawa.

 

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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    DESAPARECIDOS NIKKEIS NA ARGENTINA

    NOME  IDADE ORIGEM DA FAMÍLIA
    Juan Alberto ASATO 28 anos Ishado – Okinawa
    Juan Alberto CARDOZO HIGA 32 anos
    Ricardo DAKUYAKU 23 anos (Yonashiro Son –Teruma) Uruma-shi – Okinawa
    Carlos Horacio GUSHIKEN 21 anos Ginoza – Okinawa
    Julio Eduardo GUSHIKEN 20 anos Padre: Motobu, Madre: Nago – Okinawa
    Amelia Ana HIGA 29 anos Nakagusuku – Okinawa
    Juan Carlos HIGA 29 anos Tomigusuku – Okinawa
    Katsuya “Cacho” HIGA 26 anos Kita Nakagusuku – Okinawa
    Carlos Eduardo ISHIKAWA 26 anos Gushikawa – Uruma-shi
    Luis Esteban MATSUYAMA 23 anos Kochi
    Norma Inés MATSUYAMA 19 anos Kochi
    Jorge NAKAMURA 21 anos Ehime –  Shikoku
    Carlos Aníbal NAKANDAKARE 21 anos Inamine – Nanjo-shi Okinawa
    Oscar OHSHIRO 36 anos Padre: Yonabaru; Madre Naha –  Okinawa
    Jorge Eduardo OSHIRO 18 anos (Yonashiro Son – Nohen) Uruma-shi – Okinawa
    Juan TAKARA 33 anos (Yonashiro Son – Nohen) Uruma-shi – Okinawa

     

     

     

     

     


     

    Lista de nikkeis mortos e desaparecidos no regime militar no Estado de SP*

     

    Francisco Seiko Okama

    Filiação: Yocico Okama e Masahares Okama

    Data e local de nascimento: 2/5/1947, São Carlos (SP)

    Atuação profissional: metalúrgico

    Organização política: Ação Libertadora Nacional (ALN)

    Data e local de morte: 15/3/1973, São Paulo (SP)

     

    Hiroaki Torigoe

    Filiação: Tomiko Torigoe e Hiroshi Torigoe

    Data e local de nascimento: 2/12/1944, Lins (SP)

    Atuação profissional: estudante

    Organização política: Movimento de Libertação Popular (Molipo)

    Data e local de desaparecimento: 5/1/1972, São Paulo (SP)

     

    Ichiro Nagami

    Filiação: Kikue Nagami e Keizo Nagami

    Data e local de nascimento: 1941, São Paulo (SP)

    Atuação profissional: professor

    Organização política: Ação Libertadora Nacional (ALN)

    Data e local de morte: 4/9/1969, São Paulo (SP)

     

    Issami Nakamura Okano

    Filiação: Sadae Nakamura Okano e Hideo Okano

    Data e local de nascimento: 25/11/1945, Cravinhos (SP)

    Atuação profissional: estudante

    Organização política: Ação Libertadora Nacional (ALN)

    Data e local de desaparecimento: 14/5/1974, São Paulo (SP)

     

    Luiz Hirata

    Filiação: Hisae Hirata e Tadayoshi Hirata

    Data e local de nascimento: 23/11/1944, Guaiçara (SP)

    Atuação profissional: estudante

    Organização política: Ação Popular (AP)

    Data e local de desaparecimento: 20/12/1971, São Paulo (SP)

     

    Massafumi Yoshinaga

    Filiação: Mitsuki Yoshinaga e Kiyomatsu Yoshinaga

    Data e local de nascimento: 22/1/1949, Paraguaçu Paulista (SP)

    Atuação profissional: estudante

    Organização política: Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)

    Data e local de morte: 7/6/1976, São Paulo (SP)

     

    Suely Yumiko Kanayama

    Filiação: Emi Noguchi e Yutaka Kanayama

    Data e local de nascimento: 25/5/1948, Coronel Macedo (SP)

    Atuação profissional: estudante

    Organização política: Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

    Data e local de desaparecimento: entre 25/12/1973 e 28/12/1973 ou setembro de 1974, a cinco ou seis quilômetros da Base do Mano Ferreira, Palestina (PA), Base da Bacaba, Brejo Grande do Araguaia (PA) ou em Xambioá (TO)

     

    Yoshitane Fujimori

    Filiação: Harue Fujimori e Tadakazu Fujimori

    Data e local de nascimento: 19/5/1944, Mirandópolis (SP)

    Atuação profissional: técnico em eletrônica

    Organização política: Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)

    Data e local de desaparecimento: 5/12/1970, São Paulo (SP)

     

    *Levantamento da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”

     

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