MUNDO VIRTUAL: DEPOIS DA TEMPESTADE

 

*Euclides Pardigno

 

Para mim, foi uma tempestade o que ocorreu desde o dia 19 de novembro de 2014.

Aurélio Akio Ikefuti Pardigno – meu filho, tinha ido estudar no Japão, o que era motivo de grande alegria, minha, da família e de inúmeros amigos.

Ele fazia engenharia elétrica na Universidade Estadual de Maringá (UEM), e quando estava no terceiro ano, por incentivo de um dos colegas de faculdade a ele mais chegados, inscreveu-se para o primeiro exame (TOEFL), a fim de se candidatar ao programa “Ciência sem fronteiras”, do Governo Federal.

Foi aprovado neste exame, e seu currículo foi também aprovado em cada crivo posterior, para que ficasse um ano estudando no Japão, que era não só o país natal dos avós maternos como também o país onde a mãe se especializou após ter concluído a primeira faculdade.

Houve bastante criteriosidade das entidades que fizeram sua avaliação, tanto no Brasil (http://www.capes.gov.br) como no Japão (http://www.jasso.go.jp/index_e.html).

Findo o primeiro semestre de 2014 (4º ano do curso), ele trancou a matrícula na UEM, voltou para casa e intensificou os estudos de japonês, pois embora o curso fosse se transcorrer em inglês, a estadia naquele país implicava em conhecer o idioma ao menos naquele mínimo necessário para se comunicar e se locomover.

Chegado o momento, após um afetuoso convívio familiar e a conclusão dos preparativos, ele embarcou para o Japão.

Sempre tivemos o cuidado de convidar Deus para se fazer presente em nossas vidas a cada passo, e isto se deu com Aurélio também, que desde criança frequentou igreja evangélica que preencheu seu coração e fortaleceu sua espiritualidade (http://www.holiness.org.br)

De longa data estavam lá no Japão a tia e o primo por parte de mãe, e na mesma convocação foram para lá cerca de 80 brasileiros.

A entidade que o recebia era mais do que idônea e lhe propiciava excelentes condições de moradia e convívio social (http://rikkokai.or.jp/?lang=pt).

A universidade onde estava estudando era de grande gabarito (http://global.shibaura-it.ac.jp/en/).

Tudo transcorria de forma que alegrava bastante a ele: seus estudos envolviam matérias como a robótica e a energia solar, eram bons os amigos de seus ambientes de moradia e de estudo, estavam sendo agradáveis os momentos de lazer, e a própria cultura e culinária japonesa o agradavam.

Tóquio – onde ele vivia, tinha ganhado o coração dele, pelas dimensões de metrópole e de evolução tecnológica.

No entanto, veio o problema: no dia 19 de novembro de 2014, 4ª feira, por volta das 12:40 horas, Aurélio caiu inconsciente na loja de conveniência a 50 metros do dormitório da entidade onde estava hospedado.

Verificada a ocorrência de uma parada cardíaca, ele foi submetido à ressuscitação por meio de massagem toráxica, e com uso de desfibrilador, voltando os batimentos cardíacos cerca de 20 minutos depois.

Em virtude da falta de sangue e de oxigenação no cérebro, houveram danos cerebrais que o levaram à hospitalização e à UTI do Nihon University Itabashi Hospital (http://www.med.nihon-u.ac.jp/hospital/itabashi/), onde fui constatar – quando cheguei lá, que ele estava sendo muito bem atendido.

A partir daí, observei que houve uma grande mobilização em torno da atenção que deveria ser dada a ele, por parte da entidade Rikkokai, da Jasso, da Capes, da Shibaura Institute of Technology, e do Consulado Brasileiro em Tóquio (http://www.consbrasil.org).

Em decorrência do empenho de cada uma destas entidades e órgãos, embarcamos para o Japão no dia 21 de novembro de 2014 (sexta-feira), a fim de que estivéssemos junto ao Aurélio nos momentos que se sucederiam.

Chegamos lá no início da tarde do dia 23 – domingo, e fomos diretamente para o hospital de Itabashi, onde o encontramos com francos sinais de recuperação: embora ainda estivesse na UTI, já tinha saído do coma induzido, e respondia às frases que lhe falávamos por meio de acenos com a cabeça.

Entretanto, no dia seguinte, aconteceu nova parada cardíaca que o vitimou; por mais que houvessem tentativas de ressucitação, ele veio a óbito.

Só nos mantivemos de pé graças o apoio constante do Consulado, da Universidade de Shibaura, da Rikkokai, da Jasso e de uma série de pessoas.

Dentre as inúmeras providências legais e burocráticas que precisavam ser tomadas, o Consulado esteve presente a todas.

A Igreja Evangélica Holiness (da qual o Aurélio era membro), e a Igreja Evangélica Pentecostal Esperança em Cristo (que ele frequentava lá no Japão juntamente com o primo Márcio), também estiveram presentes na atenção que precisávamos, durante todos aqueles momentos difíceis que passávamos.

Até o momento de nosso retorno – dia 12 de dezembro, contamos com o apoio do Consulado – por via do serviço de Assistência Consular, que destacou funcionário para inclusive nos acompanhar à Universidade de Shibaura, a qual concluía a atenção a nós dirigida mediante homenagem in memoriam que recebemos pelo aluno que o Aurélio foi.

Por maior que tenha sido a dor da perda, dos sonhos frustrados, e de outros sentimentos correlatos, tive a oportunidade de constatar que no Japão o estudante brasileiro conta com toda uma rede de apoio, proteção e incentivo.

Foi grande a alegria de recebermos tanto apoio, atenção, solidariedade, e efetivo socorro, da parte dos órgãos e entidades acima mencionados.

Infindáveis foram as manifestações de solidariedade da parte dos colegas de alojamento e de faculdade, dos amigos pessoais e de Facebook, e dos irmãos em Cristo.

Neste momento, tenho aqui a registrar a minha mais profunda gratidão por todo o apoio e carinho recebidos, pelas mais variadas formas, das pessoas, entidades e órgãos que mencionei acima, sem os quais não teria sido possível, ir e voltar, cuidar de tudo aquilo que era necessário para a cremação, permanecer por lá descansando a mente, o corpo e o espírito, retornar e concluir as providências até o sepultamento, e por fim, darmos sequência na caminhada.

Finalizo com o incentivo, dirigido a qualquer jovem que almejar a ida para o exterior a fim de estudar, de que se prepare, cuide do passo a passo de testes e documentação, e que, com tudo certo, vá: serão extremamente valiosos o aprendizado acadêmico, a experiência cultural e turística, e a valorização no currículo profissional.

Caso haja algum problema, seja de que natureza for, você não estará sozinho, pois o Brasil – que o envia, honrará a responsabilidade para contigo, o país que o receberá também fará o mesmo, a Universidade onde você estará estudando lhe dará seu melhor, e seus colegas naquele país lhe serão como família.

 

 

 

 

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Euclides_LinkedInEuclides Pereira Pardigno

É advogado. A partir desta edição – semana sim, semana não – o Jornal Nippak publica a coluna Mundo Virtual assinada pelo advogado Euclides Pereira Pardigno. Interessados podem enviar sugestões de pauta ou dúvidas para o e-mail:euclides@pardigno.com

 

 

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