NIPPAK PESCA: Origem e Evolução Humana – Parte I

Poucos sabem quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O Homem ainda está em processo evolutivo?

Por Marcelo Szpilman*

 

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Conhecer nosso passado, admitindo que somos originalmente apenas mais uma espécie animal, pode ser uma boa ferramenta nas escolhas que queremos para nosso futuro.

Como e quando surgiu o homem? Quais foram as pressões seletivas que induziram mudanças físicas no homem? Por que passamos a andar em pé? O que nos levou ao descomunal aumento do cérebro? E ainda, o homem continua em processo evolutivo ou atingiu seu limite?

São perguntas instigantes sobre um tema que sempre desperta grande curiosidade. A afirmação “o homem descende dos macacos”, feita por Charles Darwin ao lançar sua teoria evolucionista em 1859, foi tão forte e marcante que até hoje ainda há pessoas que acreditam ser ela verdadeira. E você, o que acha? Que tal começar entendendo um pouco o progresso da opinião sobre origem e evolução.

 

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As ideias de Darwin sobre adaptação, sobrevivência dos mais aptos e evolução progressiva não são originais. Elas já haviam sido levantadas por outros pesquisadores e naturalistas que o antecederam, incluindo o grande filósofo grego Aristóteles, que, em 300 a.C., foi o primeiro a delinear os princípios de adaptação e seleção natural, sem, porém, compreendê-los. Goethe, em 1794, destacava que a futura indagação dos naturalistas seria a de como foi que os bovinos teriam adquirido seus chifres e não o porquê de sua utilização. Saint-Hilaire, em 1795, suspeitava que as espécies seriam variações em torno de um mesmo tipo original e que as mesmas formas não se teriam perpetuado desde a origem de todas as coisas. Seu próprio avô, Dr. Erasmus Darwin, também defendia algumas dessas ideias em 1795.

No entanto, a maioria desses antecessores apenas levantavam dúvidas e conceitos sobre os fatos que observavam na natureza, sem conseguir explicar o porquê deles existirem. Somente dois naturalistas conseguiram formular teorias para tentar explicá-los amarrando os diversos conceitos isolados já levantados em suas épocas: Lamarck e Darwin. Ainda assim, todos devem ser admirados pela coragem de expressar opiniões totalmente novas e contrárias aos conceitos reinantes e muito enraizados da Criação Divina (criacionismo) tudo e todos os seres foram criados por Deus exatamente como são vistos hoje.

Para se ter uma ideia de como o criacionismo grassava unânime, Georges Cuvier, naturalista francês que deu início à paleontologia moderna ao identificar espécies de dinossauros fósseis, em 1817, atribuiu sua extinção ao fato deles não terem conseguido embarcar na Arca de Noé. Dizer naquela época (e ainda hoje para alguns) que os seres vivos existentes eram descendentes de outros que sofreram modificações e que o homem descendia do macaco não podia ser considerado outra coisa se não blasfêmia, heresia.

 

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O naturalista francês Lamarck, em 1801, defendia a tese de que todas as espécies descendiam de outras e foi o primeiro naturalista cujas conclusões provocaram grande atenção nos meios científicos. Deve-se a ele, o grande serviço de haver despertado a atenção de todos para a possibilidade de que as modificações (evolução) seriam o resultado de leis, e não de intervenções divinas. Entretanto, Lamarck trilhou um caminho errado ao defender a lei do desenvolvimento progressivo, onde as modificações adquiridas pelo fator uso-e-desuso seriam passadas para as gerações seguintes. Para ele, o hábito de um determinado procedimento físico ou influência da natureza fazia com que o órgão ou membro envolvido fosse aos poucos, de geração em geração, adaptando-se e melhorando seu desempenho. O pescoço comprido da girafa, por exemplo, seria devido à necessidade de alcançar as folhas altas das árvores, ou seja, de tanto esticar o pescoço a girafa teria aumentando seu tamanho. Em contrapartida, se um membro não fosse usado ele acabaria, também aos poucos, regredindo até desaparecer. A influência de suas ideias foi tão forte, que até hoje ainda existem pessoas que acreditam nessas teorias ultrapassadas.

Charles Darwin foi o primeiro naturalista, em 1859, a apresentar os fatos evolutivos dos seres vivos como devidos a um equilíbrio de forças em conflito. No entanto, devemos admitir que ao tratar da seleção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies, Darwin não tinha total compreensão de como se dava o processo evolutivo e não contava com os conhecimentos que hoje temos para saber como homens e macacos descenderam de ancestrais comuns que se ramificaram em linhagens diferentes. É importante dizer que sua teoria só foi integralmente aceita pela ciência depois da descoberta da estrutura em dupla-hélice do DNA, em 1953. Na introdução de seu livro A Origem das Espécies, Darwin dá um exemplo de humildade: “Ninguém deve se surpreender com o fato de permanecerem obscuros tantos pontos relacionados com a origem das espécies, desde que se dê o devido desconto a nossa profunda ignorância quanto às inter-relações existentes entre todos os seres vivos que nos circundam”.

 

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Pois bem, ainda que os criacionistas não acreditem, o homem, como todos os seres vivos, é um produto da evolução. No entanto, surge daí uma importante questão: as forças que possibilitaram essa evolução continuam atuando? Antes e para responder, vale rever alguns conceitos básicos sobre a nova teoria da evolução e os fatores seletivos que canalizaram a evolução humana.

 

 

 

A Moderna Teoria da Evolução

Apesar da teoria evolutiva moderna ter sido pautada em torno de uma nova combinação dos conceitos originais de Darwin, ela é essencialmente uma teoria de dois fatores básicos: a diversidade e a adaptação são encaradas como resultados da produção contínua de variação genética e dos efeitos seletivos do ambiente. Explico melhor.

Toda variação genética (mudança de uma característica estrutural) em uma espécie advém das mutações que ocorrem ao acaso e com intervalos de tempo indefinidos nos indivíduos que a compõe. A mutação alteração na constituição genética em um dos dois gametas que formarão um novo embrião irá gerar uma variação estrutural que poderá ser vantajosa, nociva ou sem importância para a adaptação do indivíduo ao seu ambiente.

A seleção natural, que fixa padrões severos e constitui uma peneira pela qual só passa uma minoria, irá atuar no sentido de “por a prova” tal variação estrutural. Sendo vantajosa para o indivíduo, terá enormes chances de ser preservada e passada para as gerações futuras. Caso seja nociva, fará com que o indivíduo tenha poucas chances de sobreviver ou não permitirá que sobreviva e se reproduza. As variações sem importância não são afetadas pela seleção natural e passam para as gerações seguintes de forma oscilante.

Sendo sempre muito oportunista e selecionando qualquer tipo de mecanismo que ajude a preservar a variabilidade genética, a seleção natural está pronta a cada geração para tomar uma direção nova e é um dos fatores mais importantes que induzem mudanças evolutivas. Mas não é o único. Entre os outros fatores está o acaso, muitas vezes responsável pelo desvio na direção da evolução.

Para entender como isso ocorre, voltemos ao tema da mudança evolutiva ser um processo de dois fatores básicos. O primeiro é a produção de variação genética que ocorre na reprodução sexual dos seres vivos, onde o acaso é o regente supremo. Um macho produz bilhões de gametas durante a vida e a fêmea produz centenas. Apesar disso, um casal só pode produzir, no máximo, dependendo da espécie, uma centena de filhotes. Aí entra o acaso, responsável pela escolha dos gametas que formarão os embriões que terão sucesso. Podemos dizer então que a mutação é governada pelo acaso antes de ser testada pela seleção natural, o segundo fator, que então escolherá os genótipos (constituição genética da prole) que produzirão a geração seguinte.

A seguir, são apresentados dois exemplos que ajudarão você a entender como o acaso e a seleção natural coexistem e atuam nas novas variações e adaptações dos seres vivos, direcionando sua evolução.

 

Exemplo Teórico: como surgiu o pescoço comprido dos antílopes e girafas?

Imaginemos, hipoteticamente, que a há milhões de anos na África, em uma população herbívora ruminante qualquer com comprimento de pescoço mediano, nascem, ao acaso, dois indivíduos com variação: um com pescoço menor do que a média e outro com o pescoço maior do que a média. Como os indivíduos dessa espécie competem entre si e com outras espécies herbívoras pela vegetação disponível na copa das árvores, teremos duas situações. O indivíduo com pescoço menor terá poucas chances de sobreviver, já que não poderá alcançar as folhas que a maioria alcança. Já o indivíduo com pescoço maior, passará a ter um nicho diferente dos demais para se alimentar, já que conseguirá alcançar folhas que a maioria não consegue. Terá assim maiores chances de sobreviver e passar a nova característica para sua prole, que, melhor adaptada, tenderá a se tornar maioria na população nas gerações futuras. Até que ocorram novas variações nesse sentido, direcionando a evolução para um aumento gradativo do pescoço nesse ambiente.

 

Exemplo Real: as asas da mosca são importantes para a sua sobrevivência?

Em quase todo o planeta, as moscas, assim como a maioria dos insetos, têm nas asas um eficiente meio de sobrevivência. Com elas, podem procurar alimento e fugir dos predadores. Visto desta forma, a asa é extremamente importante, e, sem ela, o indivíduo teria poucas chances de competir e sobreviver na maioria dos ambientes naturais. Entretanto, nas praias de uma ilha do Pacífico, onde sopra um vento forte e constante, vive, protegida do vento entre pedras empilhadas, uma espécie de mosca sem asas. Ocasionalmente, ocorre uma mutação que gera o aparecimento de asas rudimentares. Basta, então, que essas asas, agora ou nas gerações futuras, sejam suficientes para um “vôo experimental” e o indivíduo é imediatamente levado para o mar pelo vento. Esse é um exemplo marcante e real de como a seleção natural atua. As asas, que são vantajosas em quase todo o planeta, passam a ser nocivas nesse ambiente. O que normalmente seria um direcionamento evolutivo natural, será sempre deletado pela seleção natural nesse ambiente em especial.

 

Quais foram os fatores seletivos mais importantes que canalizaram a evolução humana?

Como e por que o homem adquiriu suas características únicas, tão distintas dos outros animais, pode ser respondido através de dois tipos básicos de fatores seletivos: as mudanças no meio ambiente e as modificações no comportamento.

As principais mudanças no ambiente foram provocadas pela criação das cadeias de montanhas no Rift Valley, na África. Essa barreira natural passou a reter os ventos e nuvens e modificaram o clima no leste da África há 8 milhões de anos. Enquanto o lado oeste não sofreu grandes mudanças climáticas e suas florestas tropicais permaneceram abrigando os ancestrais dos gorilas e chimpanzés, o lado leste caracterizou-se por um aumento gradativo de aridez nas áreas habitadas pelos hominídios (ancestrais do homem), causando a criação de um novo habitat que variava desde as savanas florestadas até as áreas muito áridas, quase desérticas. A ocupação e sobrevivência nesse novo habitat forçou as mudanças no comportamento. E diversos fatores intimamente correlacionados, descritos a seguir, favoreceram e explicam essas modificações no comportamento.

 

 

A Locomoção Bípede

Frequentemente diz-se que os nossos ancestrais adotaram posição ereta e locomoção bípede quando passaram da vida arbórea para a vida no chão. Contudo, esta correlação não é necessária. Nenhum dos outros grandes primatas terrestres adotou o bipedalismo. Gorilas e chimpanzés andam no chão com as articulações dos dedos e os babuínos são estritamente quadrúpedes. Como não sabemos exatamente como isso ocorreu, podemos apenas sugerir que alguma peculiaridade dos ancestrais arborícolas dos hominídios primitivos, como braços mais curtos, assim como alguma pré-adaptação anatômica, tenha favorecido o bipedalismo.

A locomoção bipedal, em especial nos seus estágios primordiais, deve ter sido uma forma muito ineficiente de locomoção para um mamífero de quatro membros. Porém, só evoluiu nessa direção porque fornecia vantagens. E, presumivelmente, suas maiores vantagens seletivas foram permitir uma melhor visão das redondezas (prevenção de predadores e visualização de alimento), liberar os membros anteriores para problemas novos de comportamento (possibilitou um melhor aproveitamento e utilização das mãos na manipulação de ferramentas e no transporte de alimento) e diminuir a área do corpo que sofria a incidência da radiação solar em campo aberto (possibilitou a procura de alimento nos horários mais quentes, quando os outros animais, especialmente os predadores, estavam inativos).

O início do bipedalismo se encontra nos primórdios da linhagem hominídia, mas seu aperfeiçoamento deve ter ocupado a maior parte do tempo subsequente. As diferenças de pélvis e extremidades posteriores entre os gêneros Australopithecus e Homo mostram que foram necessários cerca de 2 milhões de anos para aperfeiçoar o bipedalismo.

 

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO….

 

MARCELO SZPILMAN

MARCELO SZPILMAN

*Marcelo Szpilman, biólogo marinho formado pela UFRJ, com Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor dos livros Guia Aqualung de Peixes (1991) e de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide to Fishes (1992), Seres Marinhos Perigosos (1998), Peixes Marinhos do Brasil (2000) e Tubarões no Brasil (2004). Indicado à personalidade 2015 na categoria Sociedade/Sustentabilidade do Prêmio Faz Diferença do Globo, atualmente, é diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio de Janeiro, diretor-executivo do Instituto Ecológico Aqualung, diretor do Projeto Tubarões no Brasil, membro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro (área de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e colunista do site Green Nation.
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