O UNIVERSO NÔ E KYOGUEN

Evento comemorativo dos 120 anos do tratado de amizade Brasil – Japão

 

Teatro Nô e Kyoguen

O Nô é uma das manifestações teatrais mais antigas do Japão. Zeami Motokiyo (1363-1443) é o codificador maior desta arte que combina canto, dança, poesia e música de uma maneira refinada e altamente simbólica. O Teatro Nô pode ser considerado a síntese da cultura japonesa, por excelência. Com sete séculos de história, o gênero conserva uma estética cênica rigorosa, potencializando o máximo de significação com o mínimo de expressão. Em 2001, a Unesco reconheceu o teatro Nô como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade.

O teatro Kyoguen foi desenvolvido em conjunto com o teatro Nô, durante o período Muromachi (1337-1573). Em conjunto, são denominados Nôgaku.

O Nô é um drama simbólico e estilizado, de refinada elegância. O conceito que o representa é denominado “yuguen”, que significa uma beleza elegante, refinada e indescritível. Os seus temas geralmente são inspirados em temas da literatura clássica ou passagens da história e são estruturados em torno da música e da dança. O universo nô é habitado por deuses, guerreiros e mulheres enlouquecidas, às voltas com os mistérios do espírito.

Oposto ao Nô, o Kyoguen explora temas do cotidiano das pessoas comuns ou contos populares. Seu personagem principal é um serviçal chamado Taro Kaja e evoca um humor delicado e divertido. O kyoguen revela os defeitos do ser humano com comicidade. Conflitos entre patrões e empregados, intrigas entre marido e mulher, um esperto querendo passar a perna em um ingênuo são temas constantes no universo kyoguen. Geralmente é apresentado nos intervalos de peças nô.

Tanto o Teatro Nô como o Kyoguen utilizam o mesmo palco. O Nô, através da busca de um ideal de beleza simbólica, e o Kyoguen, através de uma expressão realista do humor, retratam a verdadeira essência da natureza humana, em tons burlescos.

As cerca de duzentas peças do repertório de nô tratam de altas personalidades históricas e culturais ou de temas universais: a morte, o amor, o ódio, o ciúme, a espera e a efemeridade da vida. Alguns dramas nô bastante conhecidos são: Deus Okina, Takasago, Hagoromo (Manto de plumas), Guerreiro Kiyotsune, Sumidagawa (Rio Sumida) e Funa-Benkei (Benkei no barco).

 

O Palco

O Nô e o Kyoguen se desenrolam sobre o No-butai, ou literalmente, palco Nô, que tem características muito próprias. No Japão, ele se parece um com santuário, com três lados abertos em torno do palco principal chamado hon-butai, um quadrado de aproximadamente 6 metros em cada lado. Há quatro pilares de madeira, chamados de metsuke-bashira, importante referência visual para o ator se posicionar no palco. O fundo do palco é chamado de Kagami-Ita, ou placa-espelho, onde é pintado um antigo pinheiro. Músicos e o coro se sentam ao fundo e à direita do palco. No lado oposto, o Hashi-gakari, é uma ponte por onde os personagens entram e saem, e é também um importante espaço cênico. Ao fundo da ponte fica o Ague-maku, uma cortina colorida. Sem visão do público, o Kagami-no-Ma, ou sala do espelho, é um espaço importante onde os artistas, já vestidos e prontos para entrar em cena, fazem sua última concentração.

O palco é feito de madeira lisa, sobre o qual os atores deslizam. Trata-se de um movimento chamado de Suri-ashi.

 

Os atores

Há quatro categorias de atores no teatro Nô e Kyoguen: o shite (ator principal), o waki (ator coadjuvante), o hayashi (músico) e o ator kyoguen. O shite é o único ator que atua com máscara, e desempenha vários papéis. Podem ser guerreiros, os espíritos destes guerreiros, mulheres, deuses ou demônios.

O ator waki apoia o shite e não usa máscara. Podem fazer o papel de sacerdotes, monges ou um samurai, mas sempre são personagens reais, que vivem.

Já a orquestra de nô (hayashi) é formada de quatro instrumentos musicais: tamboril pequeno

(kotsuzumi), de som grave; que contrasta com o tamboril grande (otsuzumi ou okawa), de som

agudo e quase metálico; uma flauta de bambu (nôkan) e um tambor de baquetas (taiko). E o coro (jiuta), composto de seis a dez elementos.

 

As máscaras

O teatro Nô é conhecido também como o Teatro de Máscara, tamanha a importância deste adereço em seu universo cênico. As máscaras do teatro Nô foram criadas no período Azuchi-Momoyama (1573 até 1603) e há registro de 60 tipos diferentes. Há máscara para cada tipo de personagem, mas é comum o ator principal escolher a máscara mais adequada para sua função.

As máscaras são esculpidas de tal forma que o real e o fantástico são engenhosamente combinados para produzir uma beleza sutil. Dependendo do movimento do ator e do ângulo que se dá à máscara, ela pode expressar feições diferentes no palco.

 

O Teatro Nô nos 120 anos de amizade Brasil-Japão

O Brasil e o Japão celebram, em 2015, os 120 anos do estabelecimento das relações diplomáticas. Para comemorar o ano, o Consulado Geral do Japão em São Paulo sugeriu uma apresentação de teatro Nô, pois sua expressão representa a essência da cultura japonesa.

Com o apoio da Japan Foundation, o grupo que vem com esta missão ao Brasil é composto por 14 atores e músicos, liderado por Wakebayashi Michiharu, ator Nô da escola Kanze. Também integra a trupe, o ator kyoguen Ogasawara Tadashi, que já esteve no Brasil se apresentando em outras ocasiões, inclusive no SESC.

 

O grupo

O grupo é formado por 14 artistas, atores de teatro Nô e Kyoguen e músicos, pertencentes a várias escolas ou estilos.

 

WAKEBAYASHI MICHIHARU Ator Principal de Nô, escola Kanze

UZAWA HIKARU Atriz Nô, escola Kanze

FURUHASHI MASAKUNI Ator Nô, escola Kanze

MIKATA SHIZUKA Ator Nô, escola Kanze

UMEDA YOSHIHIRO Ator Nô, escola Kanze

TAKEDA HIROSHI Ator Nô, escola Kanze

HARA MASARU Ator Nô, escola Takayasu

HARA RIKU Ator Nô, escola Takayasu

SAKO YASUHIRO Músico Nô (flauta) , escola Morita

FURUTA TOMOHIDE Músico Nô (tamboril pequeno kotsuzumi), escola Kô

TANIGUCHI MASATOSHI Músico Nô (tamboril grande ôtsuzumi) , escola Ishii

INOUE KEISUKE Músico Nô (tambor taiko), escola Kanze

OGASAWARA TADASHI Ator Nô Kyoguen, escola Izumi

IZUMI SHINYA Ator Nô Kyoguen, escola Izumi

 

Peça de Kyoguen

Título da peça: Neonguioku (Cantando Deitado)

Autor: desconhecido

Época de concepção: século 17 (início da Era Edo)

Personagens: Serviçal (Taro Kaja) e o Patrão

Tempo de duração: 25 minutos

 

Taro Kaja estava cantarolando, ainda sob o efeito do álcool da noite anterior. Seu patrão espreita o serviçal, até que o convida a cantar na sua frente. Taro Kaja não gosta da ideia, por acreditar que o patrão irá repetir o pedido sempre que o ouvir cantar e inventa uma série de condições para satisfazer o amo. Diz que é preciso estar bêbado para cantar, ou que é preciso estar no colo da mulher, para que a sua voz saia cristalina. Aí começa um duelo entre patrão e serviçal, embalado por canções entoadas deitado, uma habilidade que só atores bem treinados conseguem desempenhar.

 

Peça de Teatro Nô:

Título da peça: Funa-Benkei (Benkei no barco)

Autor: Kanze Kojiro Nobumitsu

Época de concepção: período Muromachi (1337 a 1573)

Duração: 70 minutos

 

Funa-Benkei será a peça principal do espetáculo, apresentada em duas partes com um interlúdio, chamado Ai Kyoguen. Na primeira parte – Tristeza de Shizuka – Yoshitsune e Yoritomo, os irmãos líderes do clã Guenji acabam de ganhar a guerra contra o clã Heike. Por conta de um boato mentiroso, Yoritomo acredita que seu irmão o esteja traindo. Por isso, Yoshitsune foge numa viagem perigosa que o obriga a separar-se de Shizuka, sua mulher. Na segunda parte – Luta contra o fantasma – durante sua viagem marítima, Yoshitsune é atacado pelo fantasma de Taira no Tomomori, samurai da família Heike morto pelo próprio Yoshitsune. Ao final, o fantasma vencido desaparece no branco das espumas das ondas.

 

Sinopse

Embora Minamotono Yoshitsune tivesse contribuído na aniquilação do clã Heike, seu irmão Yoritomo suspeitou de sua traição e Yoshitsune passou a ser perseguido pela autoridade de Kamakura. Yoshitsune, planejando fugir para as províncias ao oeste de Kyoto, chega até a baía de Daimotsu, na província de Settsu (correspondente à atual região do norte de Osaka e sudeste de Hyogo), junto com seus fiéis servos, dentre eles Benkei. Shizuka Gozen, concubina de Yoshitsune, também estava acompanhando o grupo. Porém, havia muitas dificuldades para uma mulher continuar numa jornada tão árdua e ela acabou retornando a Kyoto, conforme os conselhos de Benkei. No banquete de despedida, Shizuka exibe a sua dança, orando pelo futuro de Yoshitsune, desejando o reencontro. Shizuka despede-se de seu amado em lágrimas.

Benkei ordena forçosamente a partida do barco, visto que Yoshitsune estava hesitante em continuar a fuga, tomado pela tristeza da despedida. Tão logo o barco saiu ao alto-mar, este é repentinamente atingido por uma tempestade. Os espectros do clã Heike, derrotados por Yoshitsune na Batalha de Dan’noura, surgem sobre as ondas. Entre eles, o espírito vingativo de Taira-no-Tomomori, general do clã Heike naquela batalha, atacou Yoshitsune com seu naguinata (arma formada pela junção de uma lâmina na ponta de uma longa haste), tentando, a todo custo, afundar Yoshitsune nas profundezas do mar. Benkei esfrega suas contas budistas e ora desesperadamente para as Cinco Divindades. A oração fez efeito e os espectros foram exorcizados ao amanhecer, desaparecendo além do horizonte, restando apenas suaves ondas ao mar.

 

Destaques

É uma peça de Nô de fácil entendimento, com a participação de personagens amplamente conhecidos do público japonês, como Yoshitsune, Benkei e Shizuka Gozen. A trama tem Benkei, um monge e subordinado de Yoshitsune, como centro, e se desenvolve num ritmo dinâmico.

Nesta peça, o Shite (ator protagonista) interpreta dois papéis totalmente diferentes, sendo uma bela shirabyôshi (dançarina vestida de homem) na parte inicial, e um assustador espírito vingativo na parte final. Há a representação do contraste entre a beleza e a bravura. Durante o Maeba (parte inicial da peça), os espectadores podem apreciar uma dança graciosa. Já no Nochiba (parte final da peça), há movimentos ásperos e agressivos, manuseando o naguinata, uma lâmina montada numa haste comprida. A intensidade e o andamento do Utai (canto) e do Hayashi (acompanhamento musical) também são totalmente diferentes entre as duas partes. É uma peça extremamente dramática, com muitas variações.

A evolução do cenário, da baía de Daimotsu para o alto-mar, é representada apenas com um barco estilizado. Este é o momento de destaque do Ai (narrador de Kyogen, que eventualmente pode representar um papel de destaque, como nesta peça), interpretando o condutor do barco, que interage com os Waki (personagens coadjuvantes) enquanto rema o barco, e mostra seu braço de condução quando se inicia a tempestade. Por meio da contemplação de seus movimentos, o público terá uma real sensação do mar agitado.

 


 

O Universo Nô e Kyoguen

Evento oficial em comemoração aos 120 Anos do Tratado de Amizade Brasil-Japão

Datas: 1 e 2 de Julho de 2015
Horário: 21h

Local:
Teatro Paulo Autran, SESC Pinheiros
Rua Paes Leme, 195 Pinheiros, São Paulo SP

 

Workshop para profissionais e estudantes de teatro e dança

Data: 2 de Julho de 2015
Horário: 17 h

Destinado especialmente a profissionais e estudantes de dança e teatro.

 

Ingressos à venda a partir do dia 23 de Junho, em toda a rede SESC online, e a partir do dia 24 nas unidades do SESC.

R$40,00 e R$ 20,00 (estudantes e aposentados)

 

 

Realização
SESC SP – Serviço Social do Comércio
Produção: Dô Cultural

Apoio Cultural
Consulado Geral do Japão em São Paulo
Japan Foundation
Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil

 

 

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